terça-feira, 17 de dezembro de 2013

SONETO DE NATAL


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901, pág. s/nº.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

FURTO

Existe uma coisa que não suporto nesta vida: que as pessoas sempre apontem a minha capacidade de desorganização e esquecimento sobre as coisas. Quando alguém não consegue deixar uma roupa no lugar, é porque isto é uma tarefa difícil dentro do cérebro. O ser humano possui limitações, e a minha é esta. Não consigo deixar um ambiente sem minha cara por muito tempo, e, às vezes, acontece de perdemos alguma coisa em meio a tempestade. Vá dizer que isto nunca lhe aconteceu? Duvido. Onde está sua chave do carro neste instante? O seu celular? Meu caro, se você não bateu no bolso, ou olhou na bolsa é porque é realmente organizado. Se você foi desesperado abrir a bolsa, procurou e o coração acelerou, é porque nos parecemos muito, meus amigos.

Na vida de uma pessoa pouco organizada, há uma certa adrenalina toda vez que se precisa de algo urgente, e o pior é pedir ajuda, porque as pessoas não perdem a oportunidade de dizer: de novo? Precisa se organizar! Eu já sabia! Não guardou no lugar certo? Mas estas perguntas são em vão, porque a minha mente só se sentirá culpada por questões de segundos, então o ditado de “água mole e pedra dura, tanto bate até que fura” não funciona muito bem, quando há este devaneio de cérebro. E o que de bom em ser assim? Não sei, mas que é bom ver o desespero nos olhos de um metódico quando olha para sua mesa de trabalho, e ele tem que te entregar um documento super importante. Talvez seja sádico, mas é divertido! E vou te falar, nunca perdi nada importante, apenas sumiu temporariamente, questão de algumas promessas de 10 pulinhos para São Longuinho. 

Na manhã passada fiz a minha rotina diária para ir para o trabalho: acordei atrasada de fato, não tinha pão em casa, só tomei meu café. Aliás, este é meu companheiro de todas as manhãs. Me dá energia, vitalidade, faz parceria, filosofa comigo, não me abandona e nem me critica! Café não é um líquido escuro que se toma quente, café é filosofia de vida, é postura, é convicção. Ainda chegarei a tomá-lo sem açúcar, café cowboy não é para os fracos! Mas ainda deixo que o açúcar tome conta do seu aroma! Enfim, fui pegar o ônibus e olhei no celular e constatei que iria chegar ao trabalho atrasada, e decidi não olhar mais para ele até o meu destino. Meu celular é daqueles que você faz um plano mensal mais barato e paga o aparelho, porque sempre pensei que celular é para fazer e receber ligações, não precisa nada além disso! Afinal, ele me servia mais como relógio mesmo! 

Sentei como de costume no ônibus, deitei o banco e inevitavelmente adormeci. Minha bolsa sempre fica no meu colo, durmo abraçadinha com ela, e não desgrudo por nada, porém neste dia algo de novo aconteceu. Chegando no trabalho precisei consultar um número na minha agenda e fui pegar o celular da minha bolsa e nada. Sabe como é bolsa de mulher, cabe um mundo inteiro. Então comecei a tirar infinitas coisas: óculos, carteira, passes, livros, guarda-chuva, bananas, batom e nada. Como sou inevitavelmente desorganizada, procurei pelo escritório inteiro e comecei insistentemente a me ligar, e colocar o ouvido em todas as gavetas e compartimentos possíveis, afinal de contas, quem não se liga ou pede para alguém ligar para saber onde está o celular? E numa tentativa frustrada, conclui que ele realmente não estava naquele lugar, quiçá naquela cidade ou até mesmo naquele país. Quem neste mundo roubaria um celular baratérrimo que só faz ligação e tem notas de coisas inúteis como: “ acordei com vontade de abrir um bar, mas abri minha conta bancária antes e desisti”, ou “antigamente o mundo era bipolar e hoje as pessoas são bipolares”. Nem mensagens eróticas ou fotos comprometedoras havia no celular, porque deve ser a primeira coisa que o sujeito procura, e já vou avisando, não sou destes fetiches pós-modernistas! Enfim, havia uma agenda com códigos secretos para não descobrirem quem era da minha família, talvez alguém tentasse dizer que eu estava sequestrada se visse na agenda “mãe, casa”! Então me antecipei e escrevi no facebook e postei num status narcisista como se alguém de fato estive interessado na minha vida, que havia perdido aquele aparelho e aos meus amigos que me enviassem seus números in Box. Neste instante, descobri que meus amigos não são os 430, e sim 04, que me enviaram seus números rapidamente, geralmente são as pessoas que falo pessoalmente também. Num estranho deslumbramento fiquei feliz, com o sorriso de ponta a ponta na orelha, “estes são meus amigos de verdade”! Numa regra de três simples: você tem 0,93% dos seus amigos do facebook que são seus amigos, ou vamos arredondar para 1%, porque alguns realmente prefiram me dizer pessoalmente: “de novo perdeu o celular? Anota meu número aí”.

Eu sou meio metódica, meio besta, meio sei lá o que, mas tenho a minha política para adicionar pessoas no facebook, embora eu pudesse estar com 1000 amigos, eu prefiro ter 400 que eu vi a cara uma vez na vida, ou já falei, acho mais honesto comigo mesma! Isto inclui uma antipatia e poucas curtidas em fotos, “posts” e não tenho seguidores, se é que é necessária esta informação.

Enfim, voltei para casa desolada e meu marido resolveu ligar novamente para o meu aparelho, na última tentativa de estabelecer contato com alguma voz que, nem que viesse do além, seria capaz de desvendar a tragédia que ocorrera naquela manhã de um dia normal, em que eu tirava meu cochilo matinal naquela poltrona que praticamente já era parte do meu ser!

Foi quando estranhamente um homem atendeu! E ainda atendeu uma ligação a cobrar! Formidavelmente eu tenho créditos gerados pelas incríveis promoções e porque geralmente não ligo para ninguém para consumi-los, só quando é muito necessário, como meu marido ir me buscar na Raposo Tavares quando chego do trabalho, mas dura 2 segundos, porque não é um diálogo e sim uma informação: já estou em Vargem Grande. 

-- Alô, com quem gostaria de falar? Disse a voz

-- Eu sou a dona do celular que você está usando.

--- Nossa! Não acredito! Fico até constrangido, mas comprei este celular ontem de manhã por R$ 20,00. Sabe como é? Eu precisando, alguém vendendo! Mas não sabia que era roubado.

--- Então, não sei se derrubei no chão, aonde você comprou?

--- Em Cotia.

--- Eu pego o ônibus no ponto do Cotia, pode ser que eu tenha derrubado e alguém achou e te vendeu.

--- Eu comprei de um homem quando descemos em Cotia.

--- Por acaso você estava no Cometa?

--- Sim, estava!

--- Então, me roubaram o celular e você comprou. E sabe o que me revolta é que não tem nada demais no celular, só que perdi a minha agenda toda.

--- Realmente o aparelho é bem simples, né?! Só liga!

Neste instante respirei fundo, porque eu poderia falar mal do meu aparelho, agora aquele receptor sem vergonha e descarado, este não podia!!

--- Pois é, ferrou com a minha vida!!

--- Se quiser posso te devolver! A gente marca um encontro aqui em Cotia, e você me traz R$ 20,00, que foi o valor que paguei, e te devolvo sem problemas!

Quanta cara de pau. Pensei! Era como se ele estivesse me fazendo o maior dos favores!

---- Bem, como o aparelho não vale nada, não compensa eu ir buscar! Pode ficar com ele. Estou fazendo um Boletim de Ocorrência e vou bloquear o chip agora mesmo e você não vai mais conseguir usar, então providencie e seu chip.

---- Então moça, como é seu nome?

---- Paula.

---- Então Paula, vamos fazer o seguinte não bloqueie e se você mudar de idéia, é só me ligar, você tem meu numero.

Fiquei perplexa como que acabara de ouvir. Como assim? Você tem meu número? Ele tem meu número. Pensei em dizer, seu grandessíssimo filho duma mãe que dorme com todo mundo e cobra por isso, o celular é meu! Você quem está errado, eu não tenho que negociar! Eu vou chamar a polícia! Receptação é crime! Mas apenas respondi:

---- Estou bloqueando e pronto, passar bem!

---- Desculpa mesmo, fico constrangido mesmo! Boa noite.

Finalizamos a conversa, bloqueei o chip, e comprei um celular novo. De raiva comprei um com internet, câmera e instalei WhatsApp. Ainda não estou com o bichinho virtual que parece uma palheta para alimentar, e talvez nem o tenha. Na galeria de fotos deixei a foto do Mussum escrito: “statis” e a do Sérgio Maladandro escrito: “pegadinha do malandro!”. Assim, se alguém quiser me furtar de novo, haverá com o que se distrair, até eu ligar para novas negociações.

Escrito por Paula Rizzutti em 24/11/2013.





quarta-feira, 23 de outubro de 2013

DOCE VIDA

Olho no espelho para finalizar a maquiagem com o batom. Confiro os últimos fios soltos no topo da cabeça, passo a mão pela roupa para que não fique nenhum amassado ou farelo de pão, pego a bolsa e vou pensando na vida, em amores, em sabores, converso sozinha pela rua, abro alguns sorrisos quando lembro de alguma coisa engraçada, gesticulo e às vezes me sinto meio louca. Mas cabeça de mulher é assim, muitas coisas ao mesmo tempo, as caixinhas sempre se confundem, não dá para pensar em uma coisa por vez. 

Hoje confesso que tenho medo de dirigir, me dá pânico em pensar nos carros colados atrás de mim, de mudar de faixa e deixar o carro morrer no meio de uma subida, por isso prefiro ir de ônibus para o trabalho, pelos menos sento e vou dormindo até finalizar o caminho, além de fazer amigos novos.

--Bom dia Lucia, como vai?

-- Bom dia Carlos, tudo bem e você?

-- Cansado, com sono, mas fazer o quê?

-- Eu também, ainda bem que é quinta-feira.

-- Lúcia, olhando para você parece que deu uma engordadinha, não?!

-- Hã? Está tudo igual. Respondo extremamente irritada e indignada!

-- Bom dia. Pode dormir aí e eu vou dormir daqui, mas que está mais gordinha está!

Num surto psicótico eu realmente o mataria. Se fosse aquela manhã de TPM pelo menos um belo palavrão ele ouviria. Se existem duas coisas que não se fazem com uma mulher é deixa- lá curiosa, pois a curiosidade sempre nos consumirá e dizer que estamos acima do peso, por mais que estejamos! Eu odeio esta sociedade idiota que diz que tenho ser um cabide como estas modelos anorexas de capa de revista! Começo a colocar na minha lista negra todas aquelas que desejo matar nesta manhã. Está tudo errado, por que esta cobrança de estarmos sempre arrumadas e bonitas, enquanto os homens podem sair com aquele moletom desbeiçado com o saco balançando e está tudo certo! Por que temos que pensar em alface, enquanto vemos eles comerem hambúrgueres pingando a gordura do bacon? Não que a mulher tenha que se arrumar para um marmanjo dizer: “e aí delícia”! Porém, há uma voz lá dentro, resultado de toda esta merda que diz: “fecha a boca”! Realmente está acima do peso!

Então começo a pensar que devo comer menos, andar mais, beber menos, viver menos! Porque tudo que dá prazer, como diria o Leo Jaime: “É ilegal, é imoral ou engorda!”

Sigo o dia, passo no shopping para almoçar, mas a praça de alimentação é o primeiro desafio para quem está de dieta, salada só com molhos repletos de calorias. Passo em frente ao Polishop, penso em comprar aqueles aparelhos de abdominais incríveis. Você fica sentado “estrimilicando” por meia hora e tudo fica no lugar, posso até assistir um filme comendo Doritos, pois o que importa são os abdominais que serão executados. Talvez eu compre também uma “Air fryer”, totalmente livre de óleo! Na propaganda diz que eu posso comer frango a passarinho, coxinha, batata frita, totalmente light, é praticamente uma revolução dietética, melhor que “George Foreman” com seus hambúrgueres grelhados. Decido deixar para outro dia. Passar no shopping sem entrar em uma loja de departamento é quase impossível. Olhamos e sempre dá uma vontade de comprar coisas que talvez nunca usaremos. São muitas opções de sapatos, bolsas, blusas que realmente minha mente começa a pensar: “compra, compra, compra, compra!”. Eu particularmente desenvolvi uma tática para não comprar nada nessas lojas. Eu seleciono as peças e vou experimentar no provador. Realmente a burocracia para entregar as peças já dá uma desanimada, depois você olha para aquele espelho que te aumenta 100%, inclusive consigo ver todos os poros do meu rosto naquele espelho. Dá uma depressão desgraçada, que realmente você devolve todas as peças e lembra que está gordinha novamente, o que aguça ainda mais a vontade de comer um Sundae com bastante castanha e chocolate, o que aumenta a nossa culpa de não ter resistido a esta explosão de prazer!

Penso em academias, aulas de dança, pilates, yoga e nada parece fazer muito sentido, mas preciso de exercícios! Já me disseram que na minha idade o metabolismo só responde se houver gasto calórico. Penso em todas as promoções do Groupon, Peixe Urbano com pacotes incríveis de redução de medidas, fim da celulite, um milagre atrás do outro. Aliás, não entendo porque nestes programas de compra coletiva, sempre tem um monte de Junkie Food e um monte de pacotes de procedimentos estéticos. Aí você entende um pouco mais a lógica capitalista: primeiro paga para engordar e depois você paga para emagrecer! Talvez seja por isso também que você consiga agendar primeiro a comida e depois as sessões estéticas. Esta pode ser uma teoria furada sobre as coisas, porque divagações fazem parte da mente humana, talvez você pense que sou doidivana, e talvez tenha realmente razão. Todas essas coisas na minha cabeça me levam para a palavra do momento: “Resiliência”. E vou perguntar para o maldito Carlos se ele sabe o que significa isto. E talvez eu não volte ao normal depois de ter sofrido esta pressão psicológica!

E você passa pelas bancas e sempre aquelas dietas milagrosas como “Perca 7 kg em uma semana!”, e a cada nova banca mudam as quantidades, 12 kg em uma semana e fico a pensar que somente perderíamos esta quantidade exorbitante de quilos em tão pouco tempo se estivéssemos com uma diarréia desgraçada, daquelas acompanhadas com viroses que não se sabe se vai no banheiro cagar ou vomitar. Enfim, desisto destas opções que particularmente me causam ódio. 

Desde que comecei com esta paranóia, vivo com adoçantes na bolsa, seja para pingar no café, no suco, ou até na cerveja! Sim, outro dia vi uma menina pingando adoçante na cerveja em um bar, eu quase surtei, não entendi muito o propósito daquela atitude, se era para emagrecer ela está doida, porque a bebida é recheada de carboidratos, se for para adoçar, realmente ela deveria ter pedido batida ou uma caipirinha, ou um drink qualquer! Estragar a pobre cerveja é uma puta sacanagem que mestre cervejeiro nenhum suportaria. E se eu disse que o adoçante foi parar numa Heineken? Amigos, vamos chorar juntos!

Existe um comportamento machista em relação ao peso, mas quem será o pior machista de todos, mulheres ou homens? Por que, afinal de contas, o amor não é cego? Então, porque um biótipo dita regras? Por que geralmente somos bombardeadas todos os dias por esta indústria podre de cosméticos que quer nos moldar! Penso nas pin ups de 50, 60, todos devidamente com seus quilinhos salientes, suas curvas e sua postura altamente sexy! E não há como duvidar, você prefere sair um uma pessoa que não come nada ou que te acompanha num lanche gorduroso com batatas fritas? Uma mulher que vive bebendo litros de água, porque alguém disse que emagrece ou aquela mulher que bebe litros de cerveja com você e ri das suas piadas sem graça? 

A questão estética parece ganhar mais importância do que o bem estar e a saúde, e isto me dá vontade de chorar, porque mudar os paradigmas de uma sociedade hipócrita e consumista é tão difícil quanto resistir a uma panela de brigadeiro. Sutilmente somos devorados por estas plantas carnívoras que criam cada vez mais raízes profundas! E você pensa que estamos todas mergulhadas no Fordismo, todo mundo na esteira e padronizadas! 

Nós adoramos ser belas, adoramos esmaltes, roupas, sapatos, como gostamos de dançar, amigas e rir! E, em primeiro lugar, devo gostar de mim. Então, porque ainda me incomodo quando alguém me pergunta se estou acima do peso?

Vou pegar o celular e excluir o meu aplicativo de pontos, cardíaco, de contagem de passos, de IMC, e ao invés disso vou baixar um aplicativo de música. Assim, quando algum amigo vier me dizer coisas que não se dizem às mulheres, eu estarei com o fone de ouvido, porque ser surda pode ser a melhor opção!

Escrito por: Paula Rizzutti em 22/10/2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

SONETO DE ANIVERSÁRIO


"Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece."


Vinicius de Moraes

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AQUELES DOIS


Para Rofran Fernandes:
"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)

"A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia,La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram."

CAIO FERNANDO ABREU

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DIVAGAÇÕES

Medo. Insônia. Câncer. Tsunamis. Depressão. Calvície. Efeito estufa. Impotência. Unha encravada. Stress. Aids. Guerra. Desemprego. Atropelamento. Miséria. Hemorróidas. Frustração. Demência. Hipertensão. Hérnia. Ressaca. Gangrena. Paralisia. Olheira. Dor de dente. Gripe. Neurose. Tétano. Tédio. Vômito. Bactérias. Cólica. Estigma. Inaptidão. Alcoolismo. Cegueira. Ejaculação precoce. Lesão. Overdose. Choque. Praga. Queratose. Obsessão. Amnésia. Divórcio. Caspa. Reumatismo. Seca. Úlcera. Infarto. Ansiedade. Descontrole. Repressão. Cárcere. Perda. Blenorragia. Febre. Psicose. Diabetes. Inconveniência. Enjôo. Bala perdida. Chantagem. Crise. Caquetismo. Inflamação. Nojo. Osteoporose. Timidez. Sequestro. Mágoa. Baratas... É impossível elencar todas as engenhosidades que podem afligir um único homem em sua infinitamente breve existência.

Sou um homem normal e sempre procuro evitar a dor e procurar prazer, o grande problema é relativizar as duas coisas e encontrar um equilíbrio entre dor e prazer. Outro problema é quando a busca pelo prazer nos torna tão obcecados que a satisfação de uma vontade nunca é o suficiente, transformando um suposto prazer em uma nova frustração, porém, não é sobre estas baboseiras que quero falar. Na verdade, quero contar uma história pessoal e não sei bem por onde começar.

Pelo Medo? Sempre fui muito medroso. Tinha medo de muitas coisas, embora não soubesse exatamente do quê. Às vezes acordava no meio da noite suado, ofegante, trêmulo, cheio de medo, realmente assustado, porém, não conseguia entender a causa dos meus temores, só tinha a certeza de que sentia medo.

Especialmente quando caminho solitário ou quando observo uma paisagem, fico pensando que cada centímetro quadrado que meu olhar toca ou cada metro cúbico que meus pés pisam tem um dono. A terra de ninguém se tornou apenas uma expressão arcaica e desprovida de sentido legítimo. Não existem mais territórios bravios esperando serem conquistados. Governos, empresas, pessoas, famílias. Patentes, direitos reservados, privilégios de exploração, escrituras... Tudo tem dono, isso me deixa meio emputecido, portanto, não gosto de pensar muito nisso. Eu também sou dono de algumas coisas, mas não me sinto dono de maneira integral porque tudo traz em si uma logomarca, uma tributação, um estilo, uma tendência.

Eu também tenho um dono. Tecnicamente não, é claro! A escravidão acabou. A qualquer momento posso chegar no meu patrão e gritar a plenos pulmões: “Vai tomar no cu seu filho-da-puta escroto!”. Entretanto, na prática não é bem assim que as coisas funcionam. Serei demitido e então, fatalmente, vagarei pelo mundo a procura de um novo dono pois como uma parcela do meu salário também já tem um dono - hipoteca, prestação, empréstimo - além de ficar sem dono, posso ficar também sem propriedade. É tudo muito complicado. 

Quando os imigrantes chegaram para trabalhar no Brasil já estavam devendo as passagens que o patrão generosamente havia pagado para que os infelizes tivessem uma nova chance na vida. Trabalhariam e poderiam até alcançar a riqueza. Além da dívida inicial contraíam novas dividas pois eram obrigados a consumir na mercearia da fazenda carinhosamente chamada de barracão. Por mais que trabalhassem, nunca conseguiam pagar o patrão e embora não fossem escravos, não podiam abandonar o trabalho enquanto não quitassem suas dívidas. Às vezes também me sinto assim.

O mundo ultramoderno, altamente tecnológico é engraçado. A cada dia surgem novos produtos para facilitar a nossa vida. Então, trabalhamos feito loucos para ter dinheiro para comprar mais produtos que facilitam nossa vida para podermos ter mais tempo para trabalhar ainda mais e assim comprarmos ainda mais produtos que facilitam ainda mais as nossas vidas. Quando vejo a quantidade de produtos dispostos dentro de minha casa com o objetivo de facilitar a minha vida fico pensando por que a minha vida não é fácil, quando possuo tantos facilitadores. Sinto-me aprisionado dentro de uma grande metáfora irônica. Mas tudo isso é apenas divagação, ajuda a não entrar de cabeça na loucura ou impede que se saia dela, é relativo. Quando não estamos mais aguentando o baque podemos tomar toneladas de prozacs, esquecer a dor e embriagar-nos de uma felicidade artificial; assim conseguimos seguir sempre trabalhando e buscando novas felicidades, percorrendo centenas de arco-íris até encontrarmos o pote de ouro ou ‘até que a morte nos separe’. Sempre haverá um caminho para chegarmos ao jardim das delícias.

Nicotina, aspirina, cafeína, açúcar, antidepressivos, ioga, pornografia, etc. Sempre há uma saída para a dor neste admirável mundo novo. Outro dia comi comida chinesa. Encaixotada, com nome inglês, comida rápida, brócolis com sabor de isopor, caixinhas jogadas, descartáveis globalizados, fiquei pensando se algum chinês havia participado de alguma etapa da confecção daquele alimento. Apenas divagação ou minutos de uma lucidez constrangedora, quem sabe? Bem vamos ao que interessa.

Houve uma época em que fiquei um tanto perdido em reflexões, as divagações mentais vinham com uma frequência cada vez maior e assaltavam meus pensamentos por mais tempo do que o normal. Não conseguia me concentrar no trabalho e até as coisas simples do dia a dia causavam algum embaraço. Esquecia senhas, compromissos, perdia papéis importantes, não percebia a abertura dos semáforos até que motoristas enfurecidos expressassem seu descontentamento com minha distração por meio de longas buzinadas. Uma piscada forte e prolongada, um café encorpado ou um belo par de peitos saltitando nos decotes já não eram mais suficientes para me trazer à realidade. Bastava eu olhar um objeto ou uma cena qualquer para as divagações apossarem-se de minha mente. Um dia saí de casa calçando meias com cores diferentes. Em outro cheguei atrasado no trabalho porque fiquei preso às minhas divagações sobre a arborização das cidades, acabei andando quase cinco quilômetros além do meu local de labuta. Meu chefe começou a me olhar de forma estranha, e o pior é que eu nem me importava. Às vezes eu queria ter um botão na cabeça, desses escritos ON-OFF, e desligar meus pensamentos por algum tempo. Dificilmente eu conseguia dormir, as olheiras avançavam em ritmo militar. Eu já não conseguia separar a realidade das divagações, tudo se embaralhava.

Embora eu me sentisse poderoso, inteligente e vivaz, capaz de extrair sutilezas filosóficas e claras de cada objeto ou situação que presenciava, as pessoas que me cercavam não eram capazes de enxergar as coisas sob este prisma. Pensava em Nietzche, na sua genialidade incompreendida pelos seus contemporâneos. De vez em quando, abandonava minha modéstia e me imaginava como Nietzche, um super-homem desgarrado no tempo, vivendo em uma era de superficialidades e reflexões fast-food. Tempos da pseudo-razão, afogado num mar de jabores, jôs soares, paulos coelhos e livros de auto-ajuda. Pensamentos efêmeros para consumo descartável, ninguém queria profundidade, muitas vezes nem eu queria, mas não tinha forças para evitar, era o descontrole em cutucar as próprias chagas pustulentas até não mais suportar a dor e, mesmo assim não conseguir parar.

Resolvi seguir as orientações do chefe, da esposa, dos amigos e dos colegas de trabalho. Acupuntura, natação, psicotrópicos, estimulantes, manuais de auto-ajuda, cds de mantras pop, jardinagem, etc. Mas nada adiantava. Foi nesse momento de indecisão que a luz veio até mim e todas as contradições internas e externas dissolveram-se no ar até formar uma massa plana e agradável sob meus pés, pude compreender a palavra felicidade em toda a sua intensidade semântica, pude senti-la de maneira profunda. Abandonei todas as baboseiras pós-modernas e passei a elaborar um plano para colocar em prática algo tão puro que me livraria de todos os tormentos. Tudo ficou claro naquele momento.

Numa noite, eu tinha a reunião quinzenal dos neuróticos anônimos. O anonimato às vezes incomoda, o anonimato com neurose pode ser definido como um incômodo duplamente qualificado. Cumprimentei algumas pessoas, tomei um cafezinho e saí de fininho, eu tinha outros planos em mente. 

Fiquei dirigindo a esmo por mais de uma hora, procurando o local adequado para colocar meu plano em ação. Numa rua deserta, no meio fio da cidade, nem periferia, nem centro, um interstício urbano onde as contradições sociais expressavam-se na arquitetura, conviviam lado a lado, dividiam o mesmo quarteirão. Sempre gostei desses bairros, nem arrogantes demais, nem humildes demais. Parece haver mais equilíbrio no peso das coisas e pessoas, apesar da discrepância visível. Nem o silêncio asséptico e glacial enjaulado em meio a grades e cercas elétricas, nem as sonoridades híbridas, turbulentas, diretas e licenciosas. Um rapaz caminhava tranquilo pela rua, mais ou menos um metro fora da calçada. Parei o carro ao seu lado e perguntei onde ficava a rua são Simão, ele parou para pensar um pouco e aproximou-se da janela do carro, inclinando-se um pouco. Nesse momento, espantei-me com minha própria agilidade, segurei a faca que trazia em meu colo e cravei-a com uma eficiência cirúrgica na garganta do infeliz. Porém, nem tudo saiu perfeito como eu havia planejado, o sujeito soltou um grito que, naquele momento soou para mim como algo impossível de descrever. Um grito ou um simulacro de um urro quase mudo no momento em que eu retirava a faca de seu pescoço. Outro contratempo para o qual eu não havia me preparado foi o da intensidade do jorro de sangue que saltou enfurecido daquele pescoço. O sangue invadiu meu carro, respingou no meu rosto e sujou minha camisa de maneira impressionante.

Mal tive tempo para assimilar aquela surpresa e o sujeito iniciou uma corrida titubeante. Vivi um desses momentos em que as frações de segundo eternizam-se, afogado pelo odor acre do sangue fresco vivi momentos de extrema hesitação. Não havia mais a possibilidade de voltar atrás, o avanço sem vacilo era a única chance plausível. Desci do carro e observei o sujeito cair em sua corrida exasperada, assim o alcancei com certa facilidade. Felizmente ele caiu de bruços e eu fui muito rápido, talvez se eu tivesse visto seus olhos clamando pela vida me faltasse coragem para prosseguir. Desferi várias facadas consecutivas e ritmadas nas costas do sujeito, não sei quantas vezes realizei aquele movimento. Somente tempos depois descobri que foram dezessete vezes. Algumas luzes se acenderam na casa em frente à cena, um cachorro latiu. O latido de advertência tirou-me do transe no qual eu mergulhara, saí apressado do local. O plano não havia transcorrido tão bem como eu havia calculado. Entrei no carro, minhas mãos estavam trêmulas e eu suava como nunca. Lembrei-me de um momento da infância: eu tinha acabado de comprar um sorvete, na época um dos mais caros, eu havia juntado os trocados que minha mãe me dava para um lanche na escola durante toda a semana para poder comprá-lo. Desembrulhei o sorvete e minhas mãos estavam trêmulas de emoção. O sorvete, num salto ornamental, escapou das minhas mãos, realizou piruetas precisas quase em câmera lenta e espatifou-se no cimento quente da calçada. Fiquei sem reação. Só me restou observar a ação do sol forte sobre o sorvete até transformá-lo numa poça cremosa multicolorida. Prostrado, engoli a saliva seca com sabor de fracasso.

Enquanto dirigia em fuga, naquela noite, me incomodava o suor que serpenteava no meu rosto em espessas gotas ou percorria minha coluna causando arrepios, me senti como o sorvete da minha infância, mas eu não podia me transformar numa poça cremosa multicolorida. Tentava respirar fundo, mas ofegava como um cão exausto. Depois de algum tempo o suor foi parando de escorrer, a respiração voltou ao normal e as mãos e os braços executavam movimentos com destreza. Parei o carro próximo a um terreno baldio, limpei o rosto com uma flanela, depois limpei a faca, enrolei tudo em um pedaço de jornal e atirei numa boca de lobo, depois joguei a flanela também, retirei os pedaços de fita isolante da placa do carro que serviam para alterá-las, fiz uma bolinha e mais uma vez presenteei a boca-de-lobo. Depois, fui para casa. 

Cheguei em casa e verifiquei que as manchas de sangue eram imperceptíveis na roupa preta, para um olhar menos atento e a uma distância relativa. Entrei em casa e me senti mais confortável, minha mulher estava distraída assistindo televisão, a cumprimentei de uma certa distância, em seguida eu disse que estava morrendo de dor de cabeça e fui tomar banho. Meticulosamente, tirei a roupa e coloquei num saco de lixo preto, tomei banho, escovei os dentes, senti-me protegido no banheiro e resolvi prorrogar minha estadia ali. Fiz a barba também. Guardei o saco com as roupas dentro de uma mala e enfiei tudo no guarda-roupa, empilhei mais duas malas sobre a primeira e fui deitar.

Deitado na cama pensei que ia passar a noite em claro, mas pelo contrário senti uma fadiga serena e dormi o sono dos justos. Um sono repousante e ininterrupto como há tempos não conseguia ter.

Quando acordei, meus pensamentos estavam confusos, porém, fisicamente eu me sentia disposto e revigorado. Liguei para o trabalho, disse que não me sentia bem e faltaria naquele dia. Fui até a padaria, comprei todos os jornais do dia, voltei para casa e preparei o café da manhã. Minha esposa ficou espantada e feliz ao mesmo tempo. Inventei que recebi um dia de folga, conversamos sobre venalidades, eu procurava me manter concentrado na conversa para não levantar suspeitas, todavia, estava ansioso para que ela saísse logo de casa. Quando ela saiu, senti um grande alívio, liguei para a empregada dispensando-a naquele dia. Fiquei por mais uma hora tomando café, nunca imaginei que matar alguém abrisse tanto o apetite da gente. Realizei uma leitura atenta dos jornais, entretanto, não havia nenhuma notícia sobre o crime em questão.

Comecei a pensar em todas as brechas que deixei para uma investigação que deixei. O álibi não fora bem estabelecido, tinha planejado retornar a reunião dos neuróticos anônimos à surdina, para dar a impressão de que eu estive ali todo o tempo. Afinal, ter escolhido neuróticos anônimos como álibi também se revelava não ter sido uma escolha muito sensata. E se o sujeito ainda estivesse vivo? Recobrando os sentidos lentamente até ficar apto para me denunciar?! Eu também desci do carro e, com certeza, alguém na vizinhança poderia ter me visto. Aquilo tudo me atormentava e eu precisava agir, manter o controle da situação. O primeiro passo era eliminar as provas materiais que ainda restavam. Olhei para o pão sobre a mesa, o primeiro alimento elaborado pelas mãos humanas. E o primeiro crime quando ocorrera? Tentei relacionar pão com crime em vão. Senti-me feliz. As divagações da minha mente estavam enfraquecidas, um muro sólido de problemas objetivos formava uma barreira protetora nos recônditos do meu pensamento.

Peguei as roupas usadas na véspera, coloquei na churrasqueira, despejei álcool, joguei um palito de fósforo aceso e fiquei observando o fogo fazer sua parte na operação. Esperei paciente sem perder a concentração, sem pensar em nada além da conclusão daquela tarefa. Em seguida, recolhi os resíduos, coloquei no saco de lixo, misturei um pouco de lixo doméstico de um outro saco e chacoalhei o saco com o objetivo de misturar os conteúdos. Primeira etapa concluída.

Depois limpei cuidadosamente os bancos do carro e, em seguida, lavei o carro. Tomei um banho, preparei um café e fiquei pensando na próxima tarefa, desta vez mais complexa: elaborar uma história verossímil, caso a polícia batesse à porta de minha residência para um interrogatório.

Passei mais de duas horas ensaiando um depoimento coerente: “bem... saí do trabalho às dezessete horas, fui pra casa, tomei banho, jantei e fui a uma reunião dos NA...’ Esse era o ponto espinhoso. Somente naquele momento pude visualizar o tamanho da minha burrice. Em primeiro lugar, ser um neurótico podia ser comprometedor. Esses investigadores e sua psicologia de cartilha rapidamente traçariam um paralelo óbvio entre neurose e psicose. Omitiria este fato e diria que fui a uma missa noturna, mas primeiro teria que descobrir se existem missas noturnas e verificar em qual igreja. Não! Pensei em dizer que fiquei em casa toda a noite, se por acaso descobrissem que eu compareci a reunião dos neuróticos ainda existia a possibilidade de argumentar que a omissão desse fato foi por puro constrangimento. Comecei a sentir sono, apesar de ter ingerido quase um litro de café, resolvi dormir um pouco, descansado talvez conseguisse pensar melhor. Novamente adormeci como uma pedra e só acordei porque minha mulher me despertou. O dia já se retirava e cedia espaço para a noite, numa transição harmoniosamente sincronizada. Tive uma sensação boa, nenhum policial batera à minha porta, portanto havia mais tempo para pensar. Então, tive uma ideia não muito boa, mas coloquei em prática até que uma nova ideia brotasse.

À noite fui a um bar que costumo frequentar. Conversei bastante com o dono do bar, paguei a conta com cheque e coloquei a data do dia anterior. Se a polícia demorasse alguns dias para me interrogar eu alegaria que na noite do crime permaneci no bar, dificilmente alguém conseguiria definir com precisão os dias exatos em que me viram no bar. Fiquei um pouco apreensivo quando o dono do bar pegou o cheque, receava que ele fizesse algum comentário sobre a data estar errada, isto chamaria a atenção e podia estragar meus planos, mas o detalhe passou despercebido.

No dia seguinte pela manhã tive uma produtividade além do normal no trabalho . Durante uma pausa para o café li o jornal e me senti leve como uma pluma. A matéria sobre o meu crime estava lá, tinha até foto! Senti uma sensação de orgulho e uma vontade de chamar o pessoal para mostrar a matéria e assumir a autoria da obra, infelizmente eu teria que conviver com essa euforia solitariamente. Li com atenção a matéria e um trecho em particular me tranquilizou: “... a polícia acredita em acerto de contas entre traficantes rivais embora não tenha pistas sobre a autoria do crime. O jovem tinha passagens pela polícia por porte de entorpecentes e pequenos furtos. Segundo testemunhas, nos últimos tempos ele também estava envolvido com traficantes da região.”. Na hora percebi que havia me preocupado à toa, afinal, como a polícia poderia chegar até mim? O passo inicial para uma investigação é a motivação do crime ou um elo de ligação entre a ponta e o cabo do chicote. Não existia nada disso! Tecnologia, fios de cabelo analisados por testes de DNA, etc. São coisas de filme policial americano, ou talvez sejam utilizadas somente para investigar crimes cometidos contra figurões da sociedade. No mundo cru e real das pessoas comuns como eu e você, com certeza não existe nada disso! Pensei em guardar o recorte do jornal, mas não podia ficar dando este tipo de rastro. Então escaneei a matéria e guardei em um e-mail que criei usando dados falsos. Não era lá grande coisa, mas foi a única lembrança concreta que eu poderia guardar. Se eu pudesse imaginar antes que as coisas seriam tão simples, teria guardado a faca.

Já assisti à filmes e li romances policiais mesmo sem gostar muito do gênero. Muito clichê. Também não me identifico com heróis. Na minha infância, quando eu ia ao cinema, sempre torcia para os vilões. Policiais sempre trazem algumas concepções clichês do tipo “o culpado é o mordomo e o assassino sempre retorna ao local do crime”. Eu sempre me perguntava por que o assassino sempre cometia esse erro crasso de retornar ao local do crime. Depois percebi que isso é uma verdade.

É difícil explicar esse impulso. Não sentia remorso, arrependimento, nenhum sentimento parecido com isso. Mas algo mais forte me fez retornar ao fatídico local. Tomei algumas precauções. Estacionei o carro a uma boa distância do local. Vestia roupas de ginástica e passei correndo pela rua. Quanto consegui identificar o local exato em que tudo aconteceu, parei com as mãos no joelho como se recobrasse o fôlego. Foi um momento de emoção intensa. Pude reviver a cena como se assistisse a um filme. Pude ouvir claramente o grito da vítima e o latido de advertência do cão. Até hoje, quando quero, consigo rememorar os sons daquele dia como se os ouvisse tocando em um CD. Consegui até cunhar uma definição para o grito do sujeito: “um urro sussurrante empapado com sangue”. Sempre gostei de cunhar expressões desse tipo, são pessoais e talvez só façam sentido para mim. Um dicionário do meu universo interior que pode definir o indefinível.

A partir do episódio relatado, minha vida mudou bastante. As divagações que me atormentavam desapareceram como ao toque da batuta de um mágico. Consegui me concentrar melhor no trabalho, minha relação com as outras pessoas ficou mais fácil. Tive até uma promoção no trabalho e as pessoas pararam de me lançar aqueles olhares de juiz me chamando de doidivano. Passei a ser um sujeito mais confiante e uma certa química mágica parecia exalar dos meus poros. De certa forma, as pessoas podiam sentir um poder invisível na vibração do meu olhar. Exprimiam um receio respeitoso pois pressentiam que eu era capaz de realizar feitos magníficos e engenhosos que elas não tinham coragem para copiar. A comunicação instintiva é sempre breve e eficiente.

Isso aconteceu há cinco anos e creio que me tornou uma pessoa melhor. Minha vida seguiu tranquila como um pequeno barco que navega ao sabor do vento, ignorante da grandeza do oceano que o cerca, segue seu caminho sem saber qual será o ponto de chegada e sem amargurar-se em saber da impossibilidade de retornar ao ponto de partida. O barquinho segue sem se intimidar frente ao oceano que pode destroçá-lo pois tem coragem para enfrentar as tempestades e pode sempre contar com a ajuda do vento ou dos deuses, que controlam o rumo dos ventos. 

Entretanto, nem tudo na nossa vida é como desejamos. Há mais ou menos uns três meses as divagações retornaram, tímidas inicialmente, ganharam força pouco a pouco. Agora, já começam a me perturbar com intensidade crescente. Meu analista me recomendou a terapia da escrita como forma de exorcismo mental. Comprei um caderninho e todos os dias escrevo umas páginas. Escrever é muito complicado, cronologia, tempo verbal, concordância, etc. Os pensamentos surgem e passam tão rápidos que a coordenação motora é incapaz de acompanhá-los, como uma carroça tentando perseguir um trem. Sinto que esta tentativa está irremediavelmente fadada ao fracasso absoluto e que, em breve, terá um frustrante sepultamento. 

Na verdade, preciso de um novo plano, um novo projeto. Porém, dessa vez, precisa ser mais matizado, se possível com um grau de refinamento, com novos elementos. Ocultação de cadáver? Deixar uma marca registrada no local? Plantar pistas? Utilizar novos instrumentos? Procurar uma pessoa influente na sociedade para causar mais alarde? É preciso pensar. Estudar todos os detalhes com meticulosidade. Parar de escrever esta merda e iniciar o planejamento... 

Anderson Rizzutti Prestes

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Livro da Solidão

" Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens."

Cecília Meireles



(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mais uma de bar

Perfilou-se
Podia seguir
Mas não conseguia
A gravitação não deixava
ou as calçadas que não estavam alinhadas?
desde que decidiu entrar por aquela porta
não havia mais escapatória
perdeu-se no tempo
nos escárnios
acendeu um cigarro barato
suas mãos grudaram naquele copo mal lavado
havia cheiro de perfume barato
e de suor de uma jornada de trabalho
Não havia ócio melhor que aquele
Esqueceu-se do tempo
Da mágoas e riu com os amigos
Contou piadas e mentiras
Falou de sexo
De música e de futebol
Contou piadas previamente decoradas
Riu de suas próprias histórias
Riu de todas as outras
Filosofou sobre política e religião
Profetizou novos rumos para economia
Sobre amores só restou lhe o maldizer
O difícil era reconhecer o caminho de volta
Porque seguro ali estava
Rodeados de amigos, inimigos, conhecidos e desconhecidos
Fora de si sentia-se feliz
Porque a Embriaguez
Pode não ser o melhor remédio
Mas cura temporariamente a vida da gente.
Já era tarde ou cedo
Não sabia ao certo a noção do tempo
Pelas vielas seguirá não tão sozinho
Porque sempre há um cão para acompanhá-lo
Mas é preciso voltar casa e para vida
mas sempre haverá um imã que o atrairá
para um balcão.

PRESSA



UM PASSO DE CADA VEZ
ERA O QUE TODOS DIZIAM
E LÁ ELE SE IA
NA SUA TRISTE SOLIDÃO
PENSANDO NAS LACUNAS
QUE EM SUA HISTÓRIA DESENHARA
NÃO DIRIA QUE ESTAVA INFELIZ
MAS HAVIA UMA DOR INCONTIDA
UMA INSATISFAÇÃO CONCEBIDA
UMA FRUSTRAÇÃO ADORMECIDA
UMA PALAVRA NÃO DITA
UM SENTIMENTO NÃO REVELADO
UM DESEJO FATIGADO
UMA LÁGRIMA PETRIFICADA
E ASSIM ELE SEGUIA
PÉ POR PÉ
PORQUE AS VEZES QUE CORREU
CAMBALEOU
CAIU
FERIU -SE
ERGUEU-SE COM DIFICULDADES
E APRENDEU
QUE A PRESSA PODE MUDAR O CAMINHO.

domingo, 11 de agosto de 2013

ITINERÁRIO

O relógio desperta, eu o desafio por alguns segundos, soneca cinco minutos, soneca cinco minutos e ele toca sem parar. O som é um jazz sampleado, que vai aumentando a cada toque e vejo que ele é mais forte que a minha própria vontade de levantar. Levanto correndo, subo as escadas, bebo café, como pão, desço as escadas, banho, roupa e luz, uma resmungada, escuro, ronronadas, luz, resmungadas. Peço desculpas ao parceiro por tamanha confusão, foi culpa do relógio, mandei que ele me acordasse às 5h20min e ele só despertou com força quinze minutos depois. Subo as escadas, e lembro-me das chaves, estão em outra bolsa, desço as escadas, pego a chave e subo as escadas: meu Deus, meus passes! Desço as escadas, escuto uma voz baixa dizendo: --desorganizada! Subo as escadas, agora vai, e lembro, chave do cadeado, volto, abro a porta, chavinha e abro o cadeado. Penso, espero que não tenha esquecido nada. Lembro que minhas bananas ficaram, mas deixa para lá, como outra coisa durante o dia. Sigo, pensando, dormindo, pensando, desvio do carro e assusto-me com a moto que estaciona ao meu lado, sigo novamente. Às vezes surge alguma música na cabeça, às vezes um poema: “Mundo, Mundo, Vasto Mundo, Se eu me Chamasse Raimundo” e logo me vejo rindo: Poxa eu não seria uma menina! Que besta, está tão besta que vou postar no facebook.

Subir até o ponto é quase uma aventura: desvio de buraco, desvio do mato, desvio do barro, pulo os trilhos, enfim, e com a música do Indiana Jones na cabeça finalizo o trajeto.

Sento no ponto, ligo o rádio, escuto as notícias, e logo quero ouvir um rock. Quando me dou conta, o ônibus está olhando para mim, e penso: como pude me distrair tanto assim, o ônibus imponente passa por mim e sinto que ele ri da minha própria desgraça. Perder o ônibus no ponto é a pior coisa que pode acontecer, ainda mais quando ele vem de uma em uma hora. Penso no Chapolin: “Calma, Calma, não criemos pânico”. Vou de trem. Circular, cheio, pessoas rindo, pessoas caindo, pessoas roncando. Nossa, liberou um lugar! Sento, não há como dormir, cabeça na janela e bate, cabeça para trás e torcicolo. Quarenta minutos, e chego ao primeiro destino, e vou correndo pelas escadas, bilhete único na mão, ruído, sem saldo. Hoje não é meu dia, fila, bilhete, passei. O trem não demora, mas está cheio, pessoas conversam, pessoas entram, pessoas saem, pessoas rezam, pessoas leem, pessoas te olham. Ainda bem que não há mais ambulantes (chicletes, balas, mapas). Estação Osasco! Desço e pasmo, muita gente, mas vamos para o próximo trem. Quase não consigo entrar, muita gente, sufoco e um tiozinho falando para caramba no meu ouvido: “Chegando no serviço vou comer, como três pães senhora, como bem mesmo, dois copos de leite com café, como mesmo, no almoço é dois pratos”. Pânico, ele ergueu o braço! Duas, três, quatro estações e cheguei ao meu destino. Saio correndo. Havia saído da minha lembrança a quantidade de pessoas que transitam no transporte público. Penso: aonde elas irão? O que elas fazem? Elas existem?



Ainda me resta uma caminhada, e ao longo do caminho estão obras, carros, o sol ardendo, mas chegarei ao meu destino.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A PIPOCA


"A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu"."






Rubem Alves
O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

EGO


Transcendeu
Por um instante pensei que fosse a única
Entonteceu-me com palavras
Mas nada pensava a não ser no seu eu
Nas suas vontades, nas suas necessidades
Mas eu acreditei
Perdi-me completamente porque sou escrava de mim
E porque me fazia inflar
Afagamos-nos com mentiras violáveis
Porque nossos corpos se ardiam de desejo
Porque nossas mentes estavam carentes de paixões
Insensatos prosseguimos
E as injurias que profetizamos
Só foram possíveis
Porque envaidecidos, alimentamos nossos egos

PAI



Não há dia e nem noite
Que no mais profundo da minha alma
Revolvam-se lembranças de quando criança
Brincava com os seus cabelos e com toda a paciência
Elogiava os penteados exóticos em sua cabeça eu fazia
Vem a saudade
A agonia de não poder estar perto,
O arrependimento por não ter lhe dado dias melhores,
A incapacidade diante de minhas mãos,
As lágrimas que escorrem escondidas em meu rosto
A fortaleza é destruída por eu não poder ser tão forte,
É tudo tão vazio
É tão inexplicável
É o tremor, a ternura, nas lembranças de seus abraços
No afago, quando eu permanecia em seu colo,
É o orgulho de vê-lo tão forte e corajoso
Esquecer até que ponto?
És meu pai e eu sua filha
É a ti que agradeço por tudo, pela vida,
Pelo seu exemplo de coragem, força e fé
Que não entregou tua vida tão fácil ao inesperado.
Não sei se tudo acaba como a matéria
Ou eleva-se como alma
Mas se puder, olhe por mim
Que no meu incondicional amor sempre estarei perto de ti.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Estranho




Acordei de forma errada
Havia algo diferente em mim
A cabeça tomada por
pensamentos que pareciam vazios
Havia algo inexplicável
Incoerente com aquilo que acreditava até a noite outrora
Sentia uma angustia
Que logo se transformaria
Na sensação feliz de ser mutável.



"Desde a infância não fui
Como os outros foram; não vi
Como os outros viram; não pude
apaixonar-me numa primavera comum.
Da mesma fonte não sorvi
Minha tristeza; não pude despertar
Meu coração à alegria no mesmo dó;
E o que amei, amei só.

Então- na minha infância, no madrugar
Da mais turva vida – fez-se retirar
De todo o bom e mal profundos
O mistério que ainda me põe sem mundo;
Da torrente, ou da fonte,
Do cume escarlate do monte,
Do sol que me entornou, rodado,
Em seu outonal tom dourado
Do raio no céu
A atravessar-me em seu véu
Do trovão e o temporal
E a nuvem corporal
(A contradizer o céu azul)
Fez-se demônio em meu vitral."

Edgar Allan Poe

quinta-feira, 25 de julho de 2013

SUFOCO



Hoje está frio, e caminhando sou capaz de sentir o vento entupindo minhas narinas, a face congelando, as mãos petrificadas, e entra um assovio agudo em meu ouvido, me arrepia a alma e estremece o corpo todo, como um bambu quando tocado, tremendo sem cair. As ruas estão vazias, talvez o único que goste de ir ao cinema à noite com este frio sou eu, um verdadeiro andante gélido, sem alma, amante da arte e da beleza. Escolho a última sessão para não me deparar com o público adolescente e nem com casais que fazem barulho mastigando míseras pipocas e sugando até o fim aquela merda de refrigerante, e aqueles “combos” capazes de durar o filme inteiro, que engorduram a mão, o banco e alma. Se houvesse pombos haveria comida para a vida inteira, pois espalham porcamente, entre risos e assombros, as migalhas.
Assisto ao filme com imenso deleite e sufoco a vontade de chorar por várias vezes, adoro filmes árabes, conflitos do oriente médio me envolvem de uma maneira que me sinto ultrapassando a faixa de gaza com uma imensa faixa : Palestina Livre! Adoro também as músicas, as danças, o pão sírio e o tabule!
Quando saio do cinema já me vem o desespero do dia seguinte: dou aulas de português numa escola estadual, e tenho dores de cabeça só de pensar em todas as tentativas de ensinar e me frustrar na hora seguinte, mas a esperança freireana vai me empurrando nesta caminhada. Hoje houve uma confraternização entre os professores, eu fico indignado com meu salário, mas fico ainda mais indignado quando a confraternização tem frango com batata, e ainda por cima há professores escondendo cervejas por debaixo das mesas para não dividir, esta síndrome de cachorro vira lata, às vezes me assusta Tudo bem que ganhamos uma merreca por aula, mas poderíamos comer com mais dignidade. Saí revoltado e esbravejei e os professores ficaram revoltados com a minha postura e disseram que seu eu era tão mão aberta assim, por que eu não trocava de carro. O que há de mal em ter um Fiat 147? Só pode ser inveja, pois ter uma raridade dessas é para poucos.
Bem, vamos embora que já é hora, dormir após um dia estressante, um almoço frustrado, mas pelo menos o filme é bom. Sigo para o estacionamento, mas algo estranho dentro de mim começa a se manifestar. Ai! sinto uma pontada na barriga, um barulho se forma dentro dela. Continuo a andar, penso que não há de ser nada, mas está tudo comprimindo dentro de mim, não é possível, são cólicas intestinais? Puta que o pariu! Começo a suar e procurar desesperadamente um banheiro, mas não vejo nada ao redor, nenhuma padaria aberta, nenhum boteco. Tento equilibrar meus pensamentos, um banheiro é a coisa mais importante da minha vida neste momento. Suor correndo em minha testa faz me delirar, vejo uma porta azul com um homem desenhado na porta, vejo W.C em todos os muros e não posso mais suportar. Peço a Deus para encontrar algum lugar, mesmo sendo ateu. Porque será que não há um posto, um mercado, uma porra de lugar aberto nessas horas? Maldito frango com batata! Revertério dos diabos! Canto canções árabes: “aimkibesfirrãããããã, coalhadasecããããããã”. Me sinto um camelo no deserto. Nunca pensei que iria soltar tantas bombas e a única coisa que quero ver livre é um assento sanitário. Avisto uma vila, a entrada possui um vão e vai ser lá que vou aliviar minha pressão. Abaixo as calças e de repente uma luz se acende e sinto o calor da lâmpada tocar minha bunda, viro-me e há uma câmera! Saio correndo, porque não suportarei tanto tempo, penso no filme, dança do ventre, prisão de ventre e o meu ventre começa a dizer: está na hora! Vejo uma pracinha e minha salvação se aproxima, quando começo a me posicionar:
--- Não é possível, um casal no paraíso!
--- Cara não dá, saiam daqui agora porque não posso esperar.
--- Como? Você irá utilizar a praça, seu porco! Disse a namorada desesperada.
--- Não quero nem saber, a moita é minha e ninguém me tira dela. Se quiserem ver um frango com batata condensado, fiquem aí, mas me deixem aqui!
O casal saiu indignado com o meu desespero e eis que a vem uma voz do além e diz: Amém.
Eis que a velocidade da luz fica pequena perto dos alívios fisiológicos da vida. Esta história escatológica já pertenceu a você pelo menos uma vez na vida, e com certeza irá valorizar a cada minuto, pois eles são essenciais, principalmente na hora do desespero.
No dia seguinte, após a imensa noite árabe de terror, chego a escola com vontade de colocar laxante na comida do diretor. Ele veria o perrengue que uma pessoa passa, por uma decisão muquirana. Onde já se viu? Passarei um bom tempo longe de frango com batata. Pego meu material e vou para a sala de aula.
---- Bom dia.
A sala começa a rir e não entendo o porquê.
---- Está bem professor?
Notei um tamanho sarcasmo na voz daquela criatura.
---- Sim, por quê?
---- Porque o senhor estava ontem adubando as plantas da praça!
Os alunos começaram a rir e vozes apareceram no meu subconsciente: cagão, cagão, cagão!
Quando você pensa que se livrou de um sufoco, eis que outro aparece.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PIPOQUEIRO




João era um sujeito robusto, mediano, cara amarrada, provavelmente marcada por sofrimentos e álcool. Ninguém diria que Pipoqueiro é a sua profissão, porque esta representa alegria, crianças, cinema e fuga das refeições politicamente corretas. E ele, com sua cara carrancuda, olhar distante e esquizofrênico, poderia deixar distante qualquer cliente apavorado. Talvez ele transborde de simpatia no trabalho e nos engane temporariamente, nos convencendo a comer o milho, bacon, sal, manteiga, aroma inconfundível durante os estouros inquietantes. Há também as adoráveis pipocas doces, em São Paulo elas são vermelhas e no Rio Caramelo, mas ambas lambuzadas pelo açúcar que vicia!

O que haveria de errado com João? Talvez sofra de transtorno antissocial da personalidade, ou seja, psicopatia, mas pode ser confundido com um bêbado normal dentro de um bar, e foi assim que o conhecemos.

Em uma noite típica de inverno, as pessoas tendem a se retrair para não sair de seus aposentos, tendem a ser dominadas pelo pecado da preguiça, mas sempre existem os que resistem às rajadas de vento e ao frio descomunal e saem a procura de diversão, de risos, cervejas e conversa.

João naquela noite resolvera beber umas “biritas” para aquecer-se do frio, escolheu um bar, estacionou o seu carrinho e entrou.

Ao avistar o bar, vimos a primeira cena estranha e nada convencional: um carrinho de pipoca parado em frente a um bar de rock, o que é no mínimo engraçado.

- Marcos está vendendo pipoca? Perguntamos ao nosso amigo que estava parado atrás do carrinho.

- Eu não, o pipoqueiro foi ao banheiro e já volta!

Entramos e percebemos aquele senhor esquisito, nos olhando com um ar desconfiado e ao mesmo tempo dopado, havia acabado de sair do banheiro.

Com um olhar estranho começou a prestar atenção na conversa. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, apenas saberia dizer que havia uma preocupação eminente, ele acabara de utilizar o sanitário do bar, haveria ele lavado ou não a mão? Afinal, manipulava as pipocas e elas poderiam ser invadidas por coliformes fecais e possíveis distúrbios gastrointestinais poderiam surtir em quem as comesse.

--- Marcos, com um ar preocupado, perguntou:

--- Ei, John, é real este negócio de golpe comunista em 2014?

--- Sim, é real Marcos, estamos todos juntos, tomaremos o poder.

Nisto João virou-se assustado, e num movimento de vai e vem nos encarava como se fôssemos inimigos.

Marcos nos olhou preocupado e ficou com medo do que poderia acontecer depois do golpe.

João tentava puxar assunto com um ou outro no balcão, andava pelo bar, num vai e vem de gastar o chão, e sempre que passava, parava e nos olhava desconfiado.

Rimos e víamos que realmente existiam pessoas preocupadas com o golpe comunista em 2014, até que fomos interrompidos por uma voz:

- Golpe, eu estou dentro! Sou contra tudo o que está aí!

E realmente ele era negro, pobre e contra todas as políticas sociais e inclusivas, Tim Maia tinha razão: “O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita”.

Percebemos novamente um olhar estranho sobre a conversa, era João. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, mas estava nos intrigando. Será que estava bêbado, será que era o golpe, será que era um bandido? Será que estaria condenado a beber vodka russa ao invés da sua velha cachaça brasileira?

Eis que Marcos decide divulgar o Golpe para o dono do bar.

- Após o golpe estatizaremos o bar, e cerveja será distribuída de forma igualitária e justa aos frequentadores do estabelecimento.

João, após a notícia, ficou mais inquieto ainda e ficou totalmente descontrolado com a possibilidade da tomada do bar, afinal de contas era ali que ele tomava sua aguardente, deixava suas mágoas, buscava amigos e tentava, naquele momento, estabelecer diálogo com os bebedores ao som gótico estridente rolando no bar. Talvez ele quisesse dançar e pensar na vingança para aqueles comunistas de plantão, talvez pensasse o que duas mulheres estavam fazendo aquela hora no bar com barbados ruivos que decidiam qual o nome da cerveja após o golpe.

Realmente as passadas, o zigue-zague, as encaradas nos deixaram tensos, pois o pipoqueiro com aquele olhar psicopata transmitia a vontade de nos transformar em milhos para estourar!

Quando saímos do bar para ir embora, nos despedimos do dono e ficamos intrigados com toda aquela criatura que tomava esporro dos clientes e do dono do bar.

Após a nossa saída, um ar de bravura atingiu aquele homem e ele diz ao dono do bar:

- Ninguém vai tomar o seu bar! Me dê uma faca, porque eu sou é cabra macho!

-- Você quer um faca para quê? Pega seu carrinho e vai embora! Pare de encher o saco, por hoje já deu.

--- Me dá a faca, eu pego, eu mato!

--- Já falei para ir embora, ou vou ter que tira-lo a força!

--- Ninguém vai acabar com o bar, ninguém! Aqui é cabra macho.

--- Vai embora do meu bar agora! Não quero mais você aqui dentro. Pegue sua bebedeira e vai dormir. Não tem faca nenhuma aqui e mesmo se tivesse não ia te dar! Vai, vai, vai e me deixa em paz!

João, junto ao seu carrinho de pipoca já murchas e envelhecidas pelo sereno da noite não se conformava com o golpe e pensou em gravar um vídeo para colocar no facebook dizendo que era contra tudo aquilo e que as pessoas iriam se arrepender se continuassem, pois ele haveria de incrementar sua vingança com pimenta e Ajinomoto.

Haveria alguém mais sórdido que um pipoqueiro alcoólico psicopata na face da terra? Quando sair da igreja após receber a sua comunhão dominical, pense duas vezes antes de comprar sua pipoca, ele poderá estar a sua espera.



Escute o ranger dos pneus e o cheiro exalando nas praças, algo irresistível o espera.