Medo. Insônia. Câncer. Tsunamis. Depressão. Calvície. Efeito estufa. Impotência. Unha encravada. Stress. Aids. Guerra. Desemprego. Atropelamento. Miséria. Hemorróidas. Frustração. Demência. Hipertensão. Hérnia. Ressaca. Gangrena. Paralisia. Olheira. Dor de dente. Gripe. Neurose. Tétano. Tédio. Vômito. Bactérias. Cólica. Estigma. Inaptidão. Alcoolismo. Cegueira. Ejaculação precoce. Lesão. Overdose. Choque. Praga. Queratose. Obsessão. Amnésia. Divórcio. Caspa. Reumatismo. Seca. Úlcera. Infarto. Ansiedade. Descontrole. Repressão. Cárcere. Perda. Blenorragia. Febre. Psicose. Diabetes. Inconveniência. Enjôo. Bala perdida. Chantagem. Crise. Caquetismo. Inflamação. Nojo. Osteoporose. Timidez. Sequestro. Mágoa. Baratas... É impossível elencar todas as engenhosidades que podem afligir um único homem em sua infinitamente breve existência.
Sou um homem normal e sempre procuro evitar a dor e procurar prazer, o grande problema é relativizar as duas coisas e encontrar um equilíbrio entre dor e prazer. Outro problema é quando a busca pelo prazer nos torna tão obcecados que a satisfação de uma vontade nunca é o suficiente, transformando um suposto prazer em uma nova frustração, porém, não é sobre estas baboseiras que quero falar. Na verdade, quero contar uma história pessoal e não sei bem por onde começar.
Pelo Medo? Sempre fui muito medroso. Tinha medo de muitas coisas, embora não soubesse exatamente do quê. Às vezes acordava no meio da noite suado, ofegante, trêmulo, cheio de medo, realmente assustado, porém, não conseguia entender a causa dos meus temores, só tinha a certeza de que sentia medo.
Especialmente quando caminho solitário ou quando observo uma paisagem, fico pensando que cada centímetro quadrado que meu olhar toca ou cada metro cúbico que meus pés pisam tem um dono. A terra de ninguém se tornou apenas uma expressão arcaica e desprovida de sentido legítimo. Não existem mais territórios bravios esperando serem conquistados. Governos, empresas, pessoas, famílias. Patentes, direitos reservados, privilégios de exploração, escrituras... Tudo tem dono, isso me deixa meio emputecido, portanto, não gosto de pensar muito nisso. Eu também sou dono de algumas coisas, mas não me sinto dono de maneira integral porque tudo traz em si uma logomarca, uma tributação, um estilo, uma tendência.
Eu também tenho um dono. Tecnicamente não, é claro! A escravidão acabou. A qualquer momento posso chegar no meu patrão e gritar a plenos pulmões: “Vai tomar no cu seu filho-da-puta escroto!”. Entretanto, na prática não é bem assim que as coisas funcionam. Serei demitido e então, fatalmente, vagarei pelo mundo a procura de um novo dono pois como uma parcela do meu salário também já tem um dono - hipoteca, prestação, empréstimo - além de ficar sem dono, posso ficar também sem propriedade. É tudo muito complicado.
Quando os imigrantes chegaram para trabalhar no Brasil já estavam devendo as passagens que o patrão generosamente havia pagado para que os infelizes tivessem uma nova chance na vida. Trabalhariam e poderiam até alcançar a riqueza. Além da dívida inicial contraíam novas dividas pois eram obrigados a consumir na mercearia da fazenda carinhosamente chamada de barracão. Por mais que trabalhassem, nunca conseguiam pagar o patrão e embora não fossem escravos, não podiam abandonar o trabalho enquanto não quitassem suas dívidas. Às vezes também me sinto assim.
O mundo ultramoderno, altamente tecnológico é engraçado. A cada dia surgem novos produtos para facilitar a nossa vida. Então, trabalhamos feito loucos para ter dinheiro para comprar mais produtos que facilitam nossa vida para podermos ter mais tempo para trabalhar ainda mais e assim comprarmos ainda mais produtos que facilitam ainda mais as nossas vidas. Quando vejo a quantidade de produtos dispostos dentro de minha casa com o objetivo de facilitar a minha vida fico pensando por que a minha vida não é fácil, quando possuo tantos facilitadores. Sinto-me aprisionado dentro de uma grande metáfora irônica. Mas tudo isso é apenas divagação, ajuda a não entrar de cabeça na loucura ou impede que se saia dela, é relativo. Quando não estamos mais aguentando o baque podemos tomar toneladas de prozacs, esquecer a dor e embriagar-nos de uma felicidade artificial; assim conseguimos seguir sempre trabalhando e buscando novas felicidades, percorrendo centenas de arco-íris até encontrarmos o pote de ouro ou ‘até que a morte nos separe’. Sempre haverá um caminho para chegarmos ao jardim das delícias.
Nicotina, aspirina, cafeína, açúcar, antidepressivos, ioga, pornografia, etc. Sempre há uma saída para a dor neste admirável mundo novo. Outro dia comi comida chinesa. Encaixotada, com nome inglês, comida rápida, brócolis com sabor de isopor, caixinhas jogadas, descartáveis globalizados, fiquei pensando se algum chinês havia participado de alguma etapa da confecção daquele alimento. Apenas divagação ou minutos de uma lucidez constrangedora, quem sabe? Bem vamos ao que interessa.
Houve uma época em que fiquei um tanto perdido em reflexões, as divagações mentais vinham com uma frequência cada vez maior e assaltavam meus pensamentos por mais tempo do que o normal. Não conseguia me concentrar no trabalho e até as coisas simples do dia a dia causavam algum embaraço. Esquecia senhas, compromissos, perdia papéis importantes, não percebia a abertura dos semáforos até que motoristas enfurecidos expressassem seu descontentamento com minha distração por meio de longas buzinadas. Uma piscada forte e prolongada, um café encorpado ou um belo par de peitos saltitando nos decotes já não eram mais suficientes para me trazer à realidade. Bastava eu olhar um objeto ou uma cena qualquer para as divagações apossarem-se de minha mente. Um dia saí de casa calçando meias com cores diferentes. Em outro cheguei atrasado no trabalho porque fiquei preso às minhas divagações sobre a arborização das cidades, acabei andando quase cinco quilômetros além do meu local de labuta. Meu chefe começou a me olhar de forma estranha, e o pior é que eu nem me importava. Às vezes eu queria ter um botão na cabeça, desses escritos ON-OFF, e desligar meus pensamentos por algum tempo. Dificilmente eu conseguia dormir, as olheiras avançavam em ritmo militar. Eu já não conseguia separar a realidade das divagações, tudo se embaralhava.
Embora eu me sentisse poderoso, inteligente e vivaz, capaz de extrair sutilezas filosóficas e claras de cada objeto ou situação que presenciava, as pessoas que me cercavam não eram capazes de enxergar as coisas sob este prisma. Pensava em Nietzche, na sua genialidade incompreendida pelos seus contemporâneos. De vez em quando, abandonava minha modéstia e me imaginava como Nietzche, um super-homem desgarrado no tempo, vivendo em uma era de superficialidades e reflexões fast-food. Tempos da pseudo-razão, afogado num mar de jabores, jôs soares, paulos coelhos e livros de auto-ajuda. Pensamentos efêmeros para consumo descartável, ninguém queria profundidade, muitas vezes nem eu queria, mas não tinha forças para evitar, era o descontrole em cutucar as próprias chagas pustulentas até não mais suportar a dor e, mesmo assim não conseguir parar.
Resolvi seguir as orientações do chefe, da esposa, dos amigos e dos colegas de trabalho. Acupuntura, natação, psicotrópicos, estimulantes, manuais de auto-ajuda, cds de mantras pop, jardinagem, etc. Mas nada adiantava. Foi nesse momento de indecisão que a luz veio até mim e todas as contradições internas e externas dissolveram-se no ar até formar uma massa plana e agradável sob meus pés, pude compreender a palavra felicidade em toda a sua intensidade semântica, pude senti-la de maneira profunda. Abandonei todas as baboseiras pós-modernas e passei a elaborar um plano para colocar em prática algo tão puro que me livraria de todos os tormentos. Tudo ficou claro naquele momento.
Numa noite, eu tinha a reunião quinzenal dos neuróticos anônimos. O anonimato às vezes incomoda, o anonimato com neurose pode ser definido como um incômodo duplamente qualificado. Cumprimentei algumas pessoas, tomei um cafezinho e saí de fininho, eu tinha outros planos em mente.
Fiquei dirigindo a esmo por mais de uma hora, procurando o local adequado para colocar meu plano em ação. Numa rua deserta, no meio fio da cidade, nem periferia, nem centro, um interstício urbano onde as contradições sociais expressavam-se na arquitetura, conviviam lado a lado, dividiam o mesmo quarteirão. Sempre gostei desses bairros, nem arrogantes demais, nem humildes demais. Parece haver mais equilíbrio no peso das coisas e pessoas, apesar da discrepância visível. Nem o silêncio asséptico e glacial enjaulado em meio a grades e cercas elétricas, nem as sonoridades híbridas, turbulentas, diretas e licenciosas. Um rapaz caminhava tranquilo pela rua, mais ou menos um metro fora da calçada. Parei o carro ao seu lado e perguntei onde ficava a rua são Simão, ele parou para pensar um pouco e aproximou-se da janela do carro, inclinando-se um pouco. Nesse momento, espantei-me com minha própria agilidade, segurei a faca que trazia em meu colo e cravei-a com uma eficiência cirúrgica na garganta do infeliz. Porém, nem tudo saiu perfeito como eu havia planejado, o sujeito soltou um grito que, naquele momento soou para mim como algo impossível de descrever. Um grito ou um simulacro de um urro quase mudo no momento em que eu retirava a faca de seu pescoço. Outro contratempo para o qual eu não havia me preparado foi o da intensidade do jorro de sangue que saltou enfurecido daquele pescoço. O sangue invadiu meu carro, respingou no meu rosto e sujou minha camisa de maneira impressionante.
Mal tive tempo para assimilar aquela surpresa e o sujeito iniciou uma corrida titubeante. Vivi um desses momentos em que as frações de segundo eternizam-se, afogado pelo odor acre do sangue fresco vivi momentos de extrema hesitação. Não havia mais a possibilidade de voltar atrás, o avanço sem vacilo era a única chance plausível. Desci do carro e observei o sujeito cair em sua corrida exasperada, assim o alcancei com certa facilidade. Felizmente ele caiu de bruços e eu fui muito rápido, talvez se eu tivesse visto seus olhos clamando pela vida me faltasse coragem para prosseguir. Desferi várias facadas consecutivas e ritmadas nas costas do sujeito, não sei quantas vezes realizei aquele movimento. Somente tempos depois descobri que foram dezessete vezes. Algumas luzes se acenderam na casa em frente à cena, um cachorro latiu. O latido de advertência tirou-me do transe no qual eu mergulhara, saí apressado do local. O plano não havia transcorrido tão bem como eu havia calculado. Entrei no carro, minhas mãos estavam trêmulas e eu suava como nunca. Lembrei-me de um momento da infância: eu tinha acabado de comprar um sorvete, na época um dos mais caros, eu havia juntado os trocados que minha mãe me dava para um lanche na escola durante toda a semana para poder comprá-lo. Desembrulhei o sorvete e minhas mãos estavam trêmulas de emoção. O sorvete, num salto ornamental, escapou das minhas mãos, realizou piruetas precisas quase em câmera lenta e espatifou-se no cimento quente da calçada. Fiquei sem reação. Só me restou observar a ação do sol forte sobre o sorvete até transformá-lo numa poça cremosa multicolorida. Prostrado, engoli a saliva seca com sabor de fracasso.
Enquanto dirigia em fuga, naquela noite, me incomodava o suor que serpenteava no meu rosto em espessas gotas ou percorria minha coluna causando arrepios, me senti como o sorvete da minha infância, mas eu não podia me transformar numa poça cremosa multicolorida. Tentava respirar fundo, mas ofegava como um cão exausto. Depois de algum tempo o suor foi parando de escorrer, a respiração voltou ao normal e as mãos e os braços executavam movimentos com destreza. Parei o carro próximo a um terreno baldio, limpei o rosto com uma flanela, depois limpei a faca, enrolei tudo em um pedaço de jornal e atirei numa boca de lobo, depois joguei a flanela também, retirei os pedaços de fita isolante da placa do carro que serviam para alterá-las, fiz uma bolinha e mais uma vez presenteei a boca-de-lobo. Depois, fui para casa.
Cheguei em casa e verifiquei que as manchas de sangue eram imperceptíveis na roupa preta, para um olhar menos atento e a uma distância relativa. Entrei em casa e me senti mais confortável, minha mulher estava distraída assistindo televisão, a cumprimentei de uma certa distância, em seguida eu disse que estava morrendo de dor de cabeça e fui tomar banho. Meticulosamente, tirei a roupa e coloquei num saco de lixo preto, tomei banho, escovei os dentes, senti-me protegido no banheiro e resolvi prorrogar minha estadia ali. Fiz a barba também. Guardei o saco com as roupas dentro de uma mala e enfiei tudo no guarda-roupa, empilhei mais duas malas sobre a primeira e fui deitar.
Deitado na cama pensei que ia passar a noite em claro, mas pelo contrário senti uma fadiga serena e dormi o sono dos justos. Um sono repousante e ininterrupto como há tempos não conseguia ter.
Quando acordei, meus pensamentos estavam confusos, porém, fisicamente eu me sentia disposto e revigorado. Liguei para o trabalho, disse que não me sentia bem e faltaria naquele dia. Fui até a padaria, comprei todos os jornais do dia, voltei para casa e preparei o café da manhã. Minha esposa ficou espantada e feliz ao mesmo tempo. Inventei que recebi um dia de folga, conversamos sobre venalidades, eu procurava me manter concentrado na conversa para não levantar suspeitas, todavia, estava ansioso para que ela saísse logo de casa. Quando ela saiu, senti um grande alívio, liguei para a empregada dispensando-a naquele dia. Fiquei por mais uma hora tomando café, nunca imaginei que matar alguém abrisse tanto o apetite da gente. Realizei uma leitura atenta dos jornais, entretanto, não havia nenhuma notícia sobre o crime em questão.
Comecei a pensar em todas as brechas que deixei para uma investigação que deixei. O álibi não fora bem estabelecido, tinha planejado retornar a reunião dos neuróticos anônimos à surdina, para dar a impressão de que eu estive ali todo o tempo. Afinal, ter escolhido neuróticos anônimos como álibi também se revelava não ter sido uma escolha muito sensata. E se o sujeito ainda estivesse vivo? Recobrando os sentidos lentamente até ficar apto para me denunciar?! Eu também desci do carro e, com certeza, alguém na vizinhança poderia ter me visto. Aquilo tudo me atormentava e eu precisava agir, manter o controle da situação. O primeiro passo era eliminar as provas materiais que ainda restavam. Olhei para o pão sobre a mesa, o primeiro alimento elaborado pelas mãos humanas. E o primeiro crime quando ocorrera? Tentei relacionar pão com crime em vão. Senti-me feliz. As divagações da minha mente estavam enfraquecidas, um muro sólido de problemas objetivos formava uma barreira protetora nos recônditos do meu pensamento.
Peguei as roupas usadas na véspera, coloquei na churrasqueira, despejei álcool, joguei um palito de fósforo aceso e fiquei observando o fogo fazer sua parte na operação. Esperei paciente sem perder a concentração, sem pensar em nada além da conclusão daquela tarefa. Em seguida, recolhi os resíduos, coloquei no saco de lixo, misturei um pouco de lixo doméstico de um outro saco e chacoalhei o saco com o objetivo de misturar os conteúdos. Primeira etapa concluída.
Depois limpei cuidadosamente os bancos do carro e, em seguida, lavei o carro. Tomei um banho, preparei um café e fiquei pensando na próxima tarefa, desta vez mais complexa: elaborar uma história verossímil, caso a polícia batesse à porta de minha residência para um interrogatório.
Passei mais de duas horas ensaiando um depoimento coerente: “bem... saí do trabalho às dezessete horas, fui pra casa, tomei banho, jantei e fui a uma reunião dos NA...’ Esse era o ponto espinhoso. Somente naquele momento pude visualizar o tamanho da minha burrice. Em primeiro lugar, ser um neurótico podia ser comprometedor. Esses investigadores e sua psicologia de cartilha rapidamente traçariam um paralelo óbvio entre neurose e psicose. Omitiria este fato e diria que fui a uma missa noturna, mas primeiro teria que descobrir se existem missas noturnas e verificar em qual igreja. Não! Pensei em dizer que fiquei em casa toda a noite, se por acaso descobrissem que eu compareci a reunião dos neuróticos ainda existia a possibilidade de argumentar que a omissão desse fato foi por puro constrangimento. Comecei a sentir sono, apesar de ter ingerido quase um litro de café, resolvi dormir um pouco, descansado talvez conseguisse pensar melhor. Novamente adormeci como uma pedra e só acordei porque minha mulher me despertou. O dia já se retirava e cedia espaço para a noite, numa transição harmoniosamente sincronizada. Tive uma sensação boa, nenhum policial batera à minha porta, portanto havia mais tempo para pensar. Então, tive uma ideia não muito boa, mas coloquei em prática até que uma nova ideia brotasse.
À noite fui a um bar que costumo frequentar. Conversei bastante com o dono do bar, paguei a conta com cheque e coloquei a data do dia anterior. Se a polícia demorasse alguns dias para me interrogar eu alegaria que na noite do crime permaneci no bar, dificilmente alguém conseguiria definir com precisão os dias exatos em que me viram no bar. Fiquei um pouco apreensivo quando o dono do bar pegou o cheque, receava que ele fizesse algum comentário sobre a data estar errada, isto chamaria a atenção e podia estragar meus planos, mas o detalhe passou despercebido.
No dia seguinte pela manhã tive uma produtividade além do normal no trabalho . Durante uma pausa para o café li o jornal e me senti leve como uma pluma. A matéria sobre o meu crime estava lá, tinha até foto! Senti uma sensação de orgulho e uma vontade de chamar o pessoal para mostrar a matéria e assumir a autoria da obra, infelizmente eu teria que conviver com essa euforia solitariamente. Li com atenção a matéria e um trecho em particular me tranquilizou: “... a polícia acredita em acerto de contas entre traficantes rivais embora não tenha pistas sobre a autoria do crime. O jovem tinha passagens pela polícia por porte de entorpecentes e pequenos furtos. Segundo testemunhas, nos últimos tempos ele também estava envolvido com traficantes da região.”. Na hora percebi que havia me preocupado à toa, afinal, como a polícia poderia chegar até mim? O passo inicial para uma investigação é a motivação do crime ou um elo de ligação entre a ponta e o cabo do chicote. Não existia nada disso! Tecnologia, fios de cabelo analisados por testes de DNA, etc. São coisas de filme policial americano, ou talvez sejam utilizadas somente para investigar crimes cometidos contra figurões da sociedade. No mundo cru e real das pessoas comuns como eu e você, com certeza não existe nada disso! Pensei em guardar o recorte do jornal, mas não podia ficar dando este tipo de rastro. Então escaneei a matéria e guardei em um e-mail que criei usando dados falsos. Não era lá grande coisa, mas foi a única lembrança concreta que eu poderia guardar. Se eu pudesse imaginar antes que as coisas seriam tão simples, teria guardado a faca.
Já assisti à filmes e li romances policiais mesmo sem gostar muito do gênero. Muito clichê. Também não me identifico com heróis. Na minha infância, quando eu ia ao cinema, sempre torcia para os vilões. Policiais sempre trazem algumas concepções clichês do tipo “o culpado é o mordomo e o assassino sempre retorna ao local do crime”. Eu sempre me perguntava por que o assassino sempre cometia esse erro crasso de retornar ao local do crime. Depois percebi que isso é uma verdade.
É difícil explicar esse impulso. Não sentia remorso, arrependimento, nenhum sentimento parecido com isso. Mas algo mais forte me fez retornar ao fatídico local. Tomei algumas precauções. Estacionei o carro a uma boa distância do local. Vestia roupas de ginástica e passei correndo pela rua. Quanto consegui identificar o local exato em que tudo aconteceu, parei com as mãos no joelho como se recobrasse o fôlego. Foi um momento de emoção intensa. Pude reviver a cena como se assistisse a um filme. Pude ouvir claramente o grito da vítima e o latido de advertência do cão. Até hoje, quando quero, consigo rememorar os sons daquele dia como se os ouvisse tocando em um CD. Consegui até cunhar uma definição para o grito do sujeito: “um urro sussurrante empapado com sangue”. Sempre gostei de cunhar expressões desse tipo, são pessoais e talvez só façam sentido para mim. Um dicionário do meu universo interior que pode definir o indefinível.
A partir do episódio relatado, minha vida mudou bastante. As divagações que me atormentavam desapareceram como ao toque da batuta de um mágico. Consegui me concentrar melhor no trabalho, minha relação com as outras pessoas ficou mais fácil. Tive até uma promoção no trabalho e as pessoas pararam de me lançar aqueles olhares de juiz me chamando de doidivano. Passei a ser um sujeito mais confiante e uma certa química mágica parecia exalar dos meus poros. De certa forma, as pessoas podiam sentir um poder invisível na vibração do meu olhar. Exprimiam um receio respeitoso pois pressentiam que eu era capaz de realizar feitos magníficos e engenhosos que elas não tinham coragem para copiar. A comunicação instintiva é sempre breve e eficiente.
Isso aconteceu há cinco anos e creio que me tornou uma pessoa melhor. Minha vida seguiu tranquila como um pequeno barco que navega ao sabor do vento, ignorante da grandeza do oceano que o cerca, segue seu caminho sem saber qual será o ponto de chegada e sem amargurar-se em saber da impossibilidade de retornar ao ponto de partida. O barquinho segue sem se intimidar frente ao oceano que pode destroçá-lo pois tem coragem para enfrentar as tempestades e pode sempre contar com a ajuda do vento ou dos deuses, que controlam o rumo dos ventos.
Entretanto, nem tudo na nossa vida é como desejamos. Há mais ou menos uns três meses as divagações retornaram, tímidas inicialmente, ganharam força pouco a pouco. Agora, já começam a me perturbar com intensidade crescente. Meu analista me recomendou a terapia da escrita como forma de exorcismo mental. Comprei um caderninho e todos os dias escrevo umas páginas. Escrever é muito complicado, cronologia, tempo verbal, concordância, etc. Os pensamentos surgem e passam tão rápidos que a coordenação motora é incapaz de acompanhá-los, como uma carroça tentando perseguir um trem. Sinto que esta tentativa está irremediavelmente fadada ao fracasso absoluto e que, em breve, terá um frustrante sepultamento.
Na verdade, preciso de um novo plano, um novo projeto. Porém, dessa vez, precisa ser mais matizado, se possível com um grau de refinamento, com novos elementos. Ocultação de cadáver? Deixar uma marca registrada no local? Plantar pistas? Utilizar novos instrumentos? Procurar uma pessoa influente na sociedade para causar mais alarde? É preciso pensar. Estudar todos os detalhes com meticulosidade. Parar de escrever esta merda e iniciar o planejamento...
Anderson Rizzutti Prestes
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