segunda-feira, 15 de abril de 2013

O ASSALTO


Há muitos anos tenho um bar, e a rotina é um pouco complicada, cansativa. Não há folga, não há férias e décimo terceiro. Quando perguntam minha profissão, respondo que sou gestor dos consumidores “psicosocialmente” alterados. Não é fácil ficar atrás de um balcão. E vendo um pouco de tudo: porções, pão, mortadela, doces e remédios que aliviam as dores da ressaca. Até montei um kit que consiste em água mineral, "Eno", “Engove” e Epocler! Se não der certo, é dedo na goela, banho frio e café. Mas  serviços, como estes, não oferecerei no meu bar! Ah, não senhor!
Fico cansado, porque trabalho de segunda a segunda, minha mulher reclama, mas só fecho quando dispenso o último cliente que é o cachorro e que geralmente acompanha o último a sair! Vejo homens saindo tão “lelé” que vão derrubando as compras ao longo do caminho, você consegue achar a casa do sujeito seguindo a trilha com tomates, limão, o pão, a batata, a única coisa que o sujeito não derruba é o Corote! Alguns saem em bandos e regam com suas urinas as primeiras plantinhas que vêem na frente, tentam disfarçar, mas seus reflexos estão tão alterados! Já vi muitas histórias no meu bar, já fui padrinho de casamento, já fui o ombro no divórcio, já vi pai brindando a chegada de filhos e já vi filhos chorando por causa do pai! Só que foi na minha vida que aconteceu a história mais estranha que já vi.
            O bairro aqui sempre foi tranquilo, todos me conhecem, nunca tive medo de assaltos, mas a vida anda violenta minha gente, todo mundo com medo, muita mãe no desespero! Parece que o povo endoidou, não dão mais valor às coisas que realmente importam. Pessoas com sonhos roubados pela droga, pelo apego às coisas materiais, pelo abandono, triste mesmo, minha gente.
            Eu moro atrás do meu bar e consigo ter uma visão privilegiada, nunca mudei daqui, o máximo que mudei foi os móveis da casa, deu uma ajeitada, a mulher reclama, mas eu fico feliz com a minha TV de Led 32``. Foi muitas garrafas de pinga, mas paguei à vista! É nela que vejo meu joguinho nas quartas-feiras. Mulher resmunga que só penso na TV, aliás, ela só reclama! Eu vou fingindo que não é comigo, porque entrar na briga com mulher não vale a pena, já aguento muito bêbado chato no meu bar! Chegando em casa eu só quero paz, pensar na vida, beber minha cerveja, colocar minha bermuda, meu chinelo de dedos, me afundar no sofá e ficar ausente. Mulher disse que vai separar, mas não separa não, embora penso que seria bom para ela, talvez eu não seja um bom marido, mas fazemos bodas de prata no próximo ano, e vai dando cada vez mais preguiça de mudar.
            Escutei, certa noite, um barulho vindo do meu bar. Pensei que fosse minha imaginação, virei para um lado da cama e tentei dormir novamente, o barulho continuou. Peguei minha espingarda de chumbo, coloquei minha bermuda e minha camiseta do “Clodoaldo do Açougue” que foi candidato a vereador, seu lema era: comerciante deve ajudar comerciante, e desci para o bar. Entrei pela porta que somente eu conheço. Devagar, cuidadosamente para não fazer barulho, e não vi nada, olhei atrás do balcão, nos banheiros, atrás dos engradados de cerveja e nada. De repente, ouvi barulho de sirene, era a polícia. Não era coisa da minha imaginação, havia alguém ali. Os vizinhos acionaram a polícia. Comecei a enxergar as luzes das sirenes, e logo me deu um alívio, se alguém estivesse por ali não escaparia. Escuto um barulho estrondoso, é a polícia abrindo a porta do meu bar. Fechei os olhos e quando abri, havia dois homens fardados, olhando e apontando o revolver para mim. Eu disse: --- ainda bem que vocês chegaram! E eles disseram: “Cale sua boca vagabundo, perdeu!” Não entendi nada, e falei: --- eu sou o dono do bar! Os policiais riram tão alto que me constrangeram! E disseram: --  Nós somos o Zeca Pagodinho e o Vampeta! ---Mãos para o alto e encosta na parede! Tentei dialogar, explicar e eles só falavam: Vagabundo! Falador! Cara de Pau! Tentei explicar porque não estava com os documentos e eles disseram que eu estava enquadrado no artigo 155 (furto) e que havia sido detido em flagrante.  Enfiaram-me no camburão e me levaram para delegacia. Logo liguei para meu pai que veio de bicicleta. Ele já está com 70 anos, mas não larga da magrela e pensou que eu estava bêbado quando contei que fui preso dentro do meu bar, mandou-me a merda por fazer brincadeiras deste tipo. Não era meu dia, nem meu pai acreditava em mim! Comecei a chorar e logo ele veio com documentos, explicou toda a confusão e pude ser liberado! Minha gente, a justiça tinha problemas comigo e não eu com a justiça! E foi assim que acabou esta noite. Fui preso assaltando meu próprio bar! Nunca duvide dos infortúnios da vida.

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