Há muitos anos tenho um bar, e a
rotina é um pouco complicada, cansativa. Não há folga, não há férias e décimo
terceiro. Quando perguntam minha profissão, respondo que sou gestor dos
consumidores “psicosocialmente” alterados. Não é fácil ficar atrás de um balcão.
E vendo um pouco de tudo: porções, pão, mortadela, doces e remédios que aliviam
as dores da ressaca. Até montei um kit que consiste em água mineral, "Eno", “Engove” e Epocler! Se não der certo, é dedo na goela, banho frio e café. Mas serviços, como estes, não oferecerei no meu
bar! Ah, não senhor!
Fico cansado, porque trabalho de
segunda a segunda, minha mulher reclama, mas só fecho quando dispenso o último cliente
que é o cachorro e que geralmente acompanha o último a sair! Vejo homens saindo
tão “lelé” que vão derrubando as
compras ao longo do caminho, você consegue achar a casa do sujeito seguindo a
trilha com tomates, limão, o pão, a batata, a única coisa que o sujeito não
derruba é o Corote! Alguns saem em bandos e regam com suas urinas as primeiras
plantinhas que vêem na frente, tentam disfarçar, mas seus reflexos estão tão
alterados! Já vi muitas histórias no meu bar, já fui padrinho de casamento, já
fui o ombro no divórcio, já vi pai brindando a chegada de filhos e já vi filhos
chorando por causa do pai! Só que foi na minha vida que aconteceu a história
mais estranha que já vi.
O
bairro aqui sempre foi tranquilo, todos me conhecem, nunca tive medo de
assaltos, mas a vida anda violenta minha gente, todo mundo com medo, muita mãe
no desespero! Parece que o povo endoidou, não dão mais valor às coisas que
realmente importam. Pessoas com sonhos roubados pela droga, pelo apego às
coisas materiais, pelo abandono, triste mesmo, minha gente.
Eu
moro atrás do meu bar e consigo ter uma visão privilegiada, nunca mudei daqui,
o máximo que mudei foi os móveis da casa, deu uma ajeitada, a mulher reclama,
mas eu fico feliz com a minha TV de Led 32``. Foi muitas garrafas de pinga, mas
paguei à vista! É nela que vejo meu joguinho nas quartas-feiras. Mulher
resmunga que só penso na TV, aliás, ela só reclama! Eu vou fingindo que não é
comigo, porque entrar na briga com mulher não vale a pena, já aguento muito
bêbado chato no meu bar! Chegando em casa eu só quero paz, pensar na vida,
beber minha cerveja, colocar minha bermuda, meu chinelo de dedos, me afundar no
sofá e ficar ausente. Mulher disse que vai separar, mas não separa não, embora
penso que seria bom para ela, talvez eu não seja um bom marido, mas fazemos
bodas de prata no próximo ano, e vai dando cada vez mais preguiça de mudar.
Escutei,
certa noite, um barulho vindo do meu bar. Pensei que fosse minha imaginação,
virei para um lado da cama e tentei dormir novamente, o barulho continuou.
Peguei minha espingarda de chumbo, coloquei minha bermuda e minha camiseta do
“Clodoaldo do Açougue” que foi candidato a vereador, seu lema era: comerciante
deve ajudar comerciante, e desci para o bar. Entrei pela porta que somente eu
conheço. Devagar, cuidadosamente para não fazer barulho, e não vi nada, olhei
atrás do balcão, nos banheiros, atrás dos engradados de cerveja e nada. De
repente, ouvi barulho de sirene, era a polícia. Não era coisa da minha
imaginação, havia alguém ali. Os vizinhos acionaram a polícia. Comecei a
enxergar as luzes das sirenes, e logo me deu um alívio, se alguém estivesse por
ali não escaparia. Escuto um barulho estrondoso, é a polícia abrindo a porta do
meu bar. Fechei os olhos e quando abri, havia dois homens fardados, olhando e
apontando o revolver para mim. Eu disse: --- ainda bem que vocês chegaram! E
eles disseram: “Cale sua boca vagabundo, perdeu!” Não entendi nada, e falei:
--- eu sou o dono do bar! Os policiais riram tão alto que me constrangeram! E
disseram: -- Nós somos o Zeca Pagodinho e o Vampeta! ---Mãos para o
alto e encosta na parede! Tentei dialogar, explicar e eles só falavam:
Vagabundo! Falador! Cara de Pau! Tentei explicar porque não estava com os
documentos e eles disseram que eu estava enquadrado no artigo 155 (furto) e que
havia sido detido em flagrante. Enfiaram-me
no camburão e me levaram para delegacia. Logo liguei para meu pai que veio de
bicicleta. Ele já está com 70 anos, mas não larga da magrela e pensou que eu
estava bêbado quando contei que fui preso dentro do meu bar, mandou-me a merda
por fazer brincadeiras deste tipo. Não era meu dia, nem meu pai acreditava em
mim! Comecei a chorar e logo ele veio com documentos, explicou toda a confusão
e pude ser liberado! Minha gente, a justiça tinha problemas comigo e não eu com
a justiça! E foi assim que acabou esta noite. Fui preso assaltando meu próprio
bar! Nunca duvide dos infortúnios da vida.
Vida de dono de bar não é mole não hahaha...
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