segunda-feira, 22 de abril de 2013

O REI


Sou percussionista, adoro minhas habilidades motoras, tenho ritmo e sempre ando como se fosse conduzido por uma batida de maracatu. É quase incontrolável, batuco tudo que vejo pela frente! No café da manhã as facas tornam-se baquetas, a margarina tambor e as xícaras pratos de condução e ataque, logo estou solando com meu pão com manteiga, inspirado pela fumaça do café que adentra minhas narinas como ópio.
            As pessoas em geral não visualizam a quantidade de som e ritmos que temos no mundo, fico pirado com instrumentos indianos, de frevo, maracatu, indígenas, africanos e qualquer um que me inspire e me tire da monotonia e da estagnação. Eu prefiro a inconsequência da loucura, que a estabilidade do medo de viver as coisas, as sensações, os momentos. Prefiro evitar os julgamentos supérfluos estabelecidos pela sociedade, eu quero enxergar as pessoas por dentro, como uma máquina de raios-X, que é capaz de entender o comportamento, as atitudes que as levaram a determinados passos, a determinadas escolhas. Adoro tocar e encontrar um olhar confuso em meio a minha música, um olhar que penetre e que seja por um instante somente meu, num transe musicalmente hipnótico, magneticamente subtraído por outro tempo e espaço. A música tem esta capacidade. Quando toco bateria sinto-me num tabuleiro de xadrez, onde os peões estão na frente e o rei atrás. Desculpem-me, mas às vezes me falha a modéstia, mas mesmo que não seja na banda, em casa  sou eu  que impero, eu sou o Rei!
            Além da música, adoro animais exóticos, principalmente cobras e lagartos. Não sei se é espírito rock´n´roll ou a vontade de ser diferente. Talvez tenha penetrado nos filmes hollywoodianos com jiboias gigantes cercando meu pescoço. Minha cobra é totalmente legalizada, odeio tráfico de animais silvestres! A vida deveria ser respeitada em todas as suas formas. Quando resolvi comprar minha cobra, procurei me informar sobre as condições que deveria mantê-la e a forma que ela pudesse não sofrer. Seria mais fácil ter comprado um cachorro!
            A minha cobra é da espécie Elaphe Guttata (cobra do milho), perfeita para iniciantes, pois é dócil e é resistente a cativeiro, deixo-a circulando livremente pela minha casa, às vezes solto-a no jardim, para roçar suas escamas na grama, mas sempre tenho medo dela fugir! Talvez no meu íntimo, gostaria que ela fugisse, viver livremente. No pet disseram-me que a vantagem era alimentá-la com ratos recentemente mortos. Eu tenho pânico da morte, sofro até vendo o Discovery Chanel, ou National Geografic, esta coisa de cadeia alimentar sempre me atormentou. Alias estes programas mostram o quão lindo são os animais, suas famílias e terminam com um predador arrancando as entranhas e destruindo famílias. Eu torço sempre pelas zebras, pelos antílopes, mas nem sempre é possível vencer os benditos leões! Mas na nossa sociedade também é assim, só que somos a mesma espécie em condições sociais diferentes, lutando pela sobrevivência.
            No pet comprei alguns ratos vivos. Adoro a brancura dos ratos, a cara de desconfiado, parece que eles estão sempre prontos para o que der e vier. Cheguei com eles em casa e falei com a minha cobra: ---Judite, trouxe comida fresquinha para você! Você não poderia ser vegetariana? Ah Judite! Seria mais fácil alimentá-la! Na próxima chuva vou te levar para a cidade e você pode comer aqueles ratos que nos fazem mal, que mijam na água para gente pegar leptospirose! Assim, você faz um bem para humanidade. Judite, minha querida, aprenda que a vida vai além deste aquário! E ela desliza vagarosamente , me mostrando sua língua pronta para o bote.
            Fiquei algumas horas olhando aqueles ratos e não tive coragem de colocá-los. Pensei de novo, porque você não comprou um cachorro? Até que fechei os olhos, apontei para um dos ratos e o escolhi. Peguei-o pelo rabo e pensei: vai lá companheiro, cumpra a sua missão na Terra, que Deus o abençoe, Amém!
            O rato ficou apavorado quando viu a Judite, e ela se preparou para o bote, talvez eu não devesse assistir esta cena, poderia não conseguir dormir a noite. Mas fiquei hipnotizado com a preparação da Judite e com o pânico do rato. Até que ela avança para cima dele e o extraordinário acontece. O rato não se dobrou perante a cobra, ele atacou a Judite! Foi para cima dela, soltando seus ruídos de raiva. Judite se encolheu, apavorada! E de repente o rato estava à vontade no aquário. Em toda tentativa da minha cobra, ele a atacava, ferozmente, e ela ficava acuada! Com medo! As horas passaram tão depressa que quando me dei conta já era o outro dia! O rato só faltava sentar e lixar suas unhas para provocar a Judite! Desdenhava sarcasticamente da cobra. Ela não se mexia, praticamente chorava com medo da sua presa. Subitamente ela se preparou para o bote novamente. Pensei: desta vez a cobra pega ele! ---Vai Judite, arrebenta! E eis que o rato, como mestre Splinter, voou e mordeu a Judite, a arranhou e novamente a venceu! Era inacreditável! Espetacular! Um rato com tamanha força de vontade de viver! Um verdadeiro Ninja!
            Chega de estresse para os três animais! Sim, eu me incluía nesta lista. Há situações que devemos reconhecer a nossa derrota. Judite já havia se rendido a criatura pequena, alva e corajosa! Feroz, este seria o nome do meu rato! Ele era o Rei da casa e não eu! Merecia todas as pompas e cordialidades de uma coroação. Ao som de um “hang drums” celebramos nossa nova majestade!

Escrito por: Paula Rizzutti Prestes







2 comentários:

  1. Eu vivo batucando nas coisas, toco bateria em duas bandas, toco bateria em casa, e cara, é verdade eu ando na rua como se estivesse em uma levada meio rap meio punk hahahaha, e eu sou apaixonado por gatos, queria ter um lagarto, e uma aranha...mas enfim estou longe de ser o rei, pois como ja disse, prefiro o anonimato hahahaha
    Ótimo conto. ;)

    ResponderExcluir