Morar
no interior traz inúmeras vantagens, por exemplo, conviver com árvores
frutíferas no quintal, admirar o canto dos pássaros livres, sentir a brisa
fresca de cada manhã, ver o céu à noite e toda sua intensidade e podemos ter
galinhas, como animais domésticos.
Talvez
ninguém se importe com o comportamento das galinhas, mas elas nos surpreendem,
pensamos que elas não pensam, mas talvez quem não pense somos nós e é por isso
que decidi relatar um “causo”
ocorrido aqui na minha casa em Maylasky, onde galinhas passaram de figurantes a
personagem principal.
Nós
sempre tivemos galinhas, e elas sempre fizeram o que todas as galinhas fazem,
ciscavam e botavam, até que um dia, meu tio ganhou quatro galinhas em uma loja
de móveis. Na chegada em casa, ele disse: como temos quatro galinhas elas irão
se chamar: “Marta (minha tia), Viviane (minha prima), Luiza (minha priminha de
oito anos) e Paulinha (a autora deste texto) e assim como num feitiço as
galinhas incorporam nossas almas e passaram a ter comportamentos estranhos.
Assim como a minha tia, a galinha Marta era extremamente organizada, e só
botava em cima de uma bandeja na cozinha caipira da minha mãe, em cima da
geladeira. A galinha Luiza voou para a casa da vizinha e não conseguimos mais
ela de volta, porque ela se tornou praticamente um cão de tão fiel e comportada,
a melhor amiga da Manu, uma menininha de cinco anos. A galinha Viviane está
sempre numa boa, sempre se divertindo no galinheiro e se dá bem com todas as
galinhas. A galinha Paulinha, se engraçou com o galo, depois botou 12 ovos na
minha lavanderia, e quando vimos era tarde demais para retirar os ovos e assim
nasceram oito pintinhos.
Pensando na
minha priminha Luiza, lembro-me que quando ela tinha dois anos e meio de idade,
fez perguntas que só crianças são capazes de fazer: Por que tem um galo para um monte de galinha? Você não acha que deveria
ter um galo para cada galinha? A minha mãe só namora com o meu pai, então não
está certo um galo ter várias namoradas, né?!. E foi num tom completo de
indignação! E a gente fica cara de boba, tentando explicar porque não existe
monogamia no mundo das galinhas. Mal sabia que depois desta pergunta, minhas
reflexões sobre os comportamentos das galinhas passariam incrivelmente por
Freud, Marx e George Orwell, embalados pela canção de Gonzaguinha: “eu prefiro a pureza da resposta das crianças
(...)”.
Voltando
ao causo: a galinha Paulinha começou a morar na minha lavanderia, não queria
saber de galinheiro coisa nenhuma, e não desgrudava de seus pintinhos de jeito
nenhum. Eles mal cabiam na caixa e ela lá em cima de cada um deles, cuidando,
olhando. Podemos chamar de síndrome da pós-modernidade, pois os pintos já
estavam frangos e não desgrudavam da mãe, mesmo estando prontos para seguir o
seu próprio caminho.
A
galinha Paulinha habitou até a gente não agüentar mais o fedor dentro da minha
lavanderia, eram nove bichos defecando o tempo todo e decidimos que eles
voltariam ao seu habitat natural. Só que ela não entendeu isto, ficou revoltada
e todos os dias subia para tentar entrar na lavanderia, e quando não conseguia,
voava para o nosso quarto. E vamos nós correndo atrás da galinha, e tentando
tirar ela de casa e popopoóóóóóóó´, popopóóóóóóóó´, até sua saída. Certa vez
fui pegar minha bolsa em uma mesinha onde deixávamos todas as nossas bolsas e
quem estava lá: a galinha Paulinha botando. Mais uma vez vamos lá tocar a
galinha e pópóóóóóóóó´, para cá, popopóóóóóóóóóó para lá, até ela sair. E com o
passar do tempo, ela foi espalhando a possibilidade da revolução no galinheiro,
e todas as galinhas começaram a subir para tentar invadir nossa casa e sempre é
a mesma coisa, você corre atrás da galinha e olééééé´, popóóó, galinha dá uma
canetinha, popóóó, galinhas dão dribles da vaca e freneticamente pópoóóóóóó,
popopóóóóóó, póóóóóóóóóóó, até descerem ao seu habitat natural. A última
galinha botou dentro do meu cesto de roupas e até agora estamos perplexos com
agilidade da dita cuja.
Então
nunca duvide da capacidade de um animal pensar, nós humanos somos prepotentes e
dominadores, somos nós os reis da natureza, mas são as demais criações da
natureza que acabam por nos surpreender. Então se alguém te chamar de cérebro
de galinha, sinta-se privilegiado.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirFiquei imaginando a corrida atrás das galinhas (Rachando).
ResponderExcluirNunca tinha pensado sobre galinhas (até mesmo por que morro de medo delas, RSRSR), mas refletir sobre as suas ações, se são racionais ou não, foi demais. Muito bom!