quinta-feira, 28 de março de 2013

Quando eu era uma menina


Passeando por entre as flores, cabelos amarelos e embaraçados, ouvindo a beleza dos cantos dos pássaros, cantarolando alguma canção infantil, livre, alegre, sem pensamentos que pudessem alterar o rumo das coisas, sem pensamentos que penetrassem o corpo, aguçando uma doença, uma cobrança, apenas brincando, ingenuamente, rodando, subindo em uma árvore, roubando uma fruta, sentindo sabor, refinando os sentidos, sorrindo, gargalhadas ao vento, somente por ver dois cachorros rolando, se mordendo.
Na vida é inevitável: a gente cresce, fica diferente, enxerga coisas que os olhos meninos não podem alcançar! Existem coisas boas, momentos bons, momentos mágicos, como aqueles em que recebia cartinhas de desconhecidos, que me contavam suas vidas, compartilhavam suas histórias, seus momentos, e eu desejava a felicidade de cada um, mesmo sem olhar nos olhos, tocar na mão, ouvir a voz. E hoje me pego com cartinhas amareladas, com adesivos intocados, com vidas em transformação, amores platônicos, cartas com símbolos de uma adolescência de som, fúria, ideologia, transformação, alias estas cartas retratam tão bem esta época, torna-se incansável ler cada uma delas. Valdeci, por onde andará meu amigo de confidências, de poesias, de zines, de banda? Como é bom saber que existiram pessoas que compartilharam momentos históricos da sua vida, em meio às turbulências punk rock, já li cartas anunciando a chegada de uma nova vida, de novas esperanças e de novos rumos.
A vida passou, e estou viva, recordando momentos, não com um pesar de querer voltar ao passado, mas com  a curiosidade de saber como será o meu próximo presente, amanhã, acordando esfregando os olhos marejados, com horário fixado, com a vida marcada.
Penso nos amigos de ontem, de hoje e de sempre, penso. Inexiste o vazio quando se tem em quer pensar, falar, a quem abraçar, mesmo que seja uma árvore, aquela de quando eu era menina, que me emprestava seus “braços” para que eu deitasse quando estava com preguiça, que me segurava quando resolvia brincar de vampiro. Nela eu via o mundo de cima como se nada fizesse sentido no chão. 

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