Passeando por
entre as flores, cabelos amarelos e embaraçados, ouvindo a beleza dos cantos
dos pássaros, cantarolando alguma canção infantil, livre, alegre, sem
pensamentos que pudessem alterar o rumo das coisas, sem pensamentos que
penetrassem o corpo, aguçando uma doença, uma cobrança, apenas brincando,
ingenuamente, rodando, subindo em uma árvore, roubando uma fruta, sentindo
sabor, refinando os sentidos, sorrindo, gargalhadas ao vento, somente por ver dois
cachorros rolando, se mordendo.
Na vida é
inevitável: a gente cresce, fica diferente, enxerga coisas que os olhos meninos
não podem alcançar! Existem coisas boas, momentos bons, momentos mágicos, como
aqueles em que recebia cartinhas de desconhecidos, que me contavam suas vidas,
compartilhavam suas histórias, seus momentos, e eu desejava a felicidade de
cada um, mesmo sem olhar nos olhos, tocar na mão, ouvir a voz. E hoje me pego
com cartinhas amareladas, com adesivos intocados, com vidas em transformação,
amores platônicos, cartas com símbolos de uma adolescência de som, fúria,
ideologia, transformação, alias estas cartas retratam tão bem esta época,
torna-se incansável ler cada uma delas. Valdeci, por onde andará meu amigo de
confidências, de poesias, de zines, de banda? Como é bom saber que existiram
pessoas que compartilharam momentos históricos da sua vida, em meio às
turbulências punk rock, já li cartas anunciando a chegada de uma nova vida, de
novas esperanças e de novos rumos.
A vida passou,
e estou viva, recordando momentos, não com um pesar de querer voltar ao
passado, mas com a curiosidade de saber
como será o meu próximo presente, amanhã, acordando esfregando os olhos
marejados, com horário fixado, com a vida marcada.
Penso nos
amigos de ontem, de hoje e de sempre, penso. Inexiste o vazio quando se tem em
quer pensar, falar, a quem abraçar, mesmo que seja uma árvore, aquela de quando
eu era menina, que me emprestava seus “braços” para que eu deitasse quando
estava com preguiça, que me segurava quando resolvia brincar de vampiro. Nela eu
via o mundo de cima como se nada fizesse sentido no chão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário