quinta-feira, 28 de março de 2013

Cérebro de Galinha


            Morar no interior traz inúmeras vantagens, por exemplo, conviver com árvores frutíferas no quintal, admirar o canto dos pássaros livres, sentir a brisa fresca de cada manhã, ver o céu à noite e toda sua intensidade e podemos ter galinhas, como animais domésticos.
            Talvez ninguém se importe com o comportamento das galinhas, mas elas nos surpreendem, pensamos que elas não pensam, mas talvez quem não pense somos nós e é por isso que decidi relatar um “causo” ocorrido aqui na minha casa em Maylasky, onde galinhas passaram de figurantes a personagem principal.
            Nós sempre tivemos galinhas, e elas sempre fizeram o que todas as galinhas fazem, ciscavam e botavam, até que um dia, meu tio ganhou quatro galinhas em uma loja de móveis. Na chegada em casa, ele disse: como temos quatro galinhas elas irão se chamar: “Marta (minha tia), Viviane (minha prima), Luiza (minha priminha de oito anos) e Paulinha (a autora deste texto) e assim como num feitiço as galinhas incorporam nossas almas e passaram a ter comportamentos estranhos. Assim como a minha tia, a galinha Marta era extremamente organizada, e só botava em cima de uma bandeja na cozinha caipira da minha mãe, em cima da geladeira. A galinha Luiza voou para a casa da vizinha e não conseguimos mais ela de volta, porque ela se tornou praticamente um cão de tão fiel e comportada, a melhor amiga da Manu, uma menininha de cinco anos. A galinha Viviane está sempre numa boa, sempre se divertindo no galinheiro e se dá bem com todas as galinhas. A galinha Paulinha, se engraçou com o galo, depois botou 12 ovos na minha lavanderia, e quando vimos era tarde demais para retirar os ovos e assim nasceram oito pintinhos.
Pensando na minha priminha Luiza, lembro-me que quando ela tinha dois anos e meio de idade, fez perguntas que só crianças são capazes de fazer: Por que tem um galo para um monte de galinha? Você não acha que deveria ter um galo para cada galinha? A minha mãe só namora com o meu pai, então não está certo um galo ter várias namoradas, né?!. E foi num tom completo de indignação! E a gente fica cara de boba, tentando explicar porque não existe monogamia no mundo das galinhas. Mal sabia que depois desta pergunta, minhas reflexões sobre os comportamentos das galinhas passariam incrivelmente por Freud, Marx e George Orwell, embalados pela canção de Gonzaguinha: “eu prefiro a pureza da resposta das crianças (...)”.
            Voltando ao causo: a galinha Paulinha começou a morar na minha lavanderia, não queria saber de galinheiro coisa nenhuma, e não desgrudava de seus pintinhos de jeito nenhum. Eles mal cabiam na caixa e ela lá em cima de cada um deles, cuidando, olhando. Podemos chamar de síndrome da pós-modernidade, pois os pintos já estavam frangos e não desgrudavam da mãe, mesmo estando prontos para seguir o seu próprio caminho.
            A galinha Paulinha habitou até a gente não agüentar mais o fedor dentro da minha lavanderia, eram nove bichos defecando o tempo todo e decidimos que eles voltariam ao seu habitat natural. Só que ela não entendeu isto, ficou revoltada e todos os dias subia para tentar entrar na lavanderia, e quando não conseguia, voava para o nosso quarto. E vamos nós correndo atrás da galinha, e tentando tirar ela de casa e popopoóóóóóóó´, popopóóóóóóóó´, até sua saída. Certa vez fui pegar minha bolsa em uma mesinha onde deixávamos todas as nossas bolsas e quem estava lá: a galinha Paulinha botando. Mais uma vez vamos lá tocar a galinha e pópóóóóóóóó´, para cá, popopóóóóóóóóóó para lá, até ela sair. E com o passar do tempo, ela foi espalhando a possibilidade da revolução no galinheiro, e todas as galinhas começaram a subir para tentar invadir nossa casa e sempre é a mesma coisa, você corre atrás da galinha e olééééé´, popóóó, galinha dá uma canetinha, popóóó, galinhas dão dribles da vaca e freneticamente pópoóóóóóó, popopóóóóóó, póóóóóóóóóóó, até descerem ao seu habitat natural. A última galinha botou dentro do meu cesto de roupas e até agora estamos perplexos com agilidade da dita cuja.
            Então nunca duvide da capacidade de um animal pensar, nós humanos somos prepotentes e dominadores, somos nós os reis da natureza, mas são as demais criações da natureza que acabam por nos surpreender. Então se alguém te chamar de cérebro de galinha, sinta-se privilegiado.

                       

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Fiquei imaginando a corrida atrás das galinhas (Rachando).
    Nunca tinha pensado sobre galinhas (até mesmo por que morro de medo delas, RSRSR), mas refletir sobre as suas ações, se são racionais ou não, foi demais. Muito bom!

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