Sou
percussionista, adoro minhas habilidades motoras, tenho ritmo e sempre ando
como se fosse conduzido por uma batida de maracatu. É quase incontrolável,
batuco tudo que vejo pela frente! No café da manhã as facas tornam-se baquetas,
a margarina tambor e as xícaras pratos de condução e ataque, logo estou solando
com meu pão com manteiga, inspirado pela fumaça do café que adentra minhas
narinas como ópio.
As
pessoas em geral não visualizam a quantidade de som e ritmos que temos no mundo,
fico pirado com instrumentos indianos, de frevo, maracatu, indígenas, africanos
e qualquer um que me inspire e me tire da monotonia e da estagnação. Eu prefiro
a inconsequência da loucura, que a estabilidade do medo de viver as coisas, as
sensações, os momentos. Prefiro evitar os julgamentos supérfluos estabelecidos
pela sociedade, eu quero enxergar as pessoas por dentro, como uma máquina de raios-X,
que é capaz de entender o comportamento, as atitudes que as levaram a determinados
passos, a determinadas escolhas. Adoro tocar e encontrar um olhar confuso em meio
a minha música, um olhar que penetre e que seja por um instante somente meu, num
transe musicalmente hipnótico, magneticamente subtraído por outro tempo e
espaço. A música tem esta capacidade. Quando toco bateria sinto-me num
tabuleiro de xadrez, onde os peões estão na frente e o rei atrás. Desculpem-me,
mas às vezes me falha a modéstia, mas mesmo que não seja na banda, em casa sou eu que impero, eu sou o Rei!
Além
da música, adoro animais exóticos, principalmente cobras e lagartos. Não sei se
é espírito rock´n´roll ou a vontade de ser diferente. Talvez tenha penetrado
nos filmes hollywoodianos com jiboias gigantes cercando meu pescoço. Minha
cobra é totalmente legalizada, odeio tráfico de animais silvestres! A vida
deveria ser respeitada em todas as suas formas. Quando resolvi comprar minha
cobra, procurei me informar sobre as condições que deveria mantê-la e a forma
que ela pudesse não sofrer. Seria mais fácil ter comprado um cachorro!
A
minha cobra é da espécie Elaphe Guttata (cobra do milho), perfeita para
iniciantes, pois é dócil e é resistente a cativeiro, deixo-a circulando
livremente pela minha casa, às vezes solto-a no jardim, para roçar suas escamas
na grama, mas sempre tenho medo dela fugir! Talvez no meu íntimo, gostaria que
ela fugisse, viver livremente. No pet disseram-me que a vantagem era
alimentá-la com ratos recentemente mortos. Eu tenho pânico da morte, sofro até
vendo o Discovery Chanel, ou National Geografic, esta coisa de cadeia
alimentar sempre me atormentou. Alias estes programas mostram o quão lindo são
os animais, suas famílias e terminam com um predador arrancando as entranhas e
destruindo famílias. Eu torço sempre pelas zebras, pelos antílopes, mas nem
sempre é possível vencer os benditos leões! Mas na nossa sociedade também é
assim, só que somos a mesma espécie em condições sociais diferentes, lutando
pela sobrevivência.
No
pet comprei alguns ratos vivos. Adoro a brancura dos ratos, a cara de
desconfiado, parece que eles estão sempre prontos para o que der e vier. Cheguei
com eles em casa e falei com a minha cobra: ---Judite, trouxe comida fresquinha
para você! Você não poderia ser vegetariana? Ah Judite! Seria mais fácil
alimentá-la! Na próxima chuva vou te levar para a cidade e você pode comer
aqueles ratos que nos fazem mal, que mijam na água para gente pegar
leptospirose! Assim, você faz um bem para humanidade. Judite, minha querida,
aprenda que a vida vai além deste aquário! E ela desliza vagarosamente , me
mostrando sua língua pronta para o bote.
Fiquei
algumas horas olhando aqueles ratos e não tive coragem de colocá-los. Pensei de
novo, porque você não comprou um cachorro? Até que fechei os olhos, apontei
para um dos ratos e o escolhi. Peguei-o pelo rabo e pensei: vai lá companheiro,
cumpra a sua missão na Terra, que Deus o abençoe, Amém!
O
rato ficou apavorado quando viu a Judite, e ela se preparou para o bote, talvez
eu não devesse assistir esta cena, poderia não conseguir dormir a noite. Mas
fiquei hipnotizado com a preparação da Judite e com o pânico do rato. Até que
ela avança para cima dele e o extraordinário acontece. O rato não se dobrou
perante a cobra, ele atacou a Judite! Foi para cima dela, soltando seus ruídos
de raiva. Judite se encolheu, apavorada! E de repente o rato estava à vontade
no aquário. Em toda tentativa da minha cobra, ele a atacava, ferozmente, e ela
ficava acuada! Com medo! As horas passaram tão depressa que quando me dei conta
já era o outro dia! O rato só faltava sentar e lixar suas unhas para provocar a
Judite! Desdenhava sarcasticamente da cobra. Ela não se mexia, praticamente
chorava com medo da sua presa. Subitamente ela se preparou para o bote
novamente. Pensei: desta vez a cobra pega ele! ---Vai Judite, arrebenta! E eis
que o rato, como mestre Splinter,
voou e mordeu a Judite, a arranhou e novamente a venceu! Era inacreditável!
Espetacular! Um rato com tamanha força de vontade de viver! Um verdadeiro
Ninja!
Chega
de estresse para os três animais! Sim, eu me incluía nesta lista. Há situações
que devemos reconhecer a nossa derrota. Judite já havia se rendido a criatura
pequena, alva e corajosa! Feroz, este seria o nome do meu rato! Ele era o Rei
da casa e não eu! Merecia todas as pompas e cordialidades de uma coroação. Ao
som de um “hang drums” celebramos
nossa nova majestade!
Escrito por: Paula Rizzutti Prestes