segunda-feira, 29 de abril de 2013

MEMÓRIA


Jamais citarei autores e frases de cor!
Jamais direi a formação completa de uma banda, a não ser que sejam meus amigos.
Não me lembrarei de todas as formas que vi e nem de todas as histórias que ouvi.
Não saberei o álbum que deu origem a minha música favorita.
E não é porque não ache importante todas às questões acima, é apenas porque minha memória não permite.

O ORADOR

ANTON TCHEKHOV

Realizavam-se naquella manhã os funeraes do inspector municipal Kiril Vavilonov, fallecido em virtude de dois males muito frequentes: a esposa de mau genio e o alcoolismo.

Quando o cortejo funebre se poz em marcha da igreja para o cemiterio um dos gollegas do morto metteu-se num carro e fez-se conduzir apressadamente á casa do seu amigo Griogori Sapoikin, um homem de pouca idade ainda, mas que conquistara grande popularidade.

Dispunha esse moço do raro talento de improvisar discursos de casamento, orações funebres e brindes em banquetes, assim como qualquer fala de sessão solene.

Podia falar a qualquer hora: ao levantar da cama, em jejum, bebedo ou com febre. O seu discurso era sempre harmonico e prolixo; havia mais palavras piedosas no seu vocabulario do que pedras num caminho. Falava com elegancia e com tanto follego, que ás vezes era necessario recorrer á policia para o fazer parar.

- Venho buscar-te meu caro! - começou o amigo, logo que esteve na presença dele. Veste-se e anda depressa. Morreu um dos nossos amigos; vae agora a caminho do outro mundo, e é preciso dar-lhe as despedidas. Bastará que digas qualquer meia duzia de tolices... Confiamos em ti. Se tivesse morrido um dos empregados inferiores, não te incommodariamos; mas trata-se do inspector. E não se póde enterrar um cidadão assim sem discurso!

- Ah! - exclamou Sapoikin. Era aquelle inspector borrachão?

- Esse mesmo. Mas vamos, homem!

Sapoikin accedeu com todo o prazer. Alisou o cabello com as mãos, compoz a cara num gesto de profunda tristeza e sahiu para a rua.

Quando se achou entre os amigos do defunto, declarou muito ufano:

- Conheci esse homem. Era idiota como poucos. Paz à sua alma.

- Vamos ... observaram-lhe. Não fica bem insultar os mortos!

- Claro que não! Mas de qualquer maneira elle era um bom patife!

Alcançaram o cortejo, e acompanharam-no. O morto era levado muito vagorosamente, de modo que houve tempo, antes de chegar ao cemiterio, de entrar de fugida nas tabernas do caminho para beber uns copazios "a saude" do fallecido.

A sogra, a mulher e a cunhada do defunto choraram muito no campo santo, como é costume. Quando baixou o caixão á cova, a esposa gritou:

- Deixe-me segui-lo!

Mas pensando talvez na sua pensão de viuva, ficou prudentemente á beira da sepultura.

Quando tudo se acalmou, Sapoikin deu um passo á frente, abarcou com um olhar todos os presentes e principiou:

- Será possivel que os nossos olhos vêm e o que os nosso ouvidos ouvem? Não será um pesadelo este caixão, estes rostos lacrimejantes, estes soluços e estes gemidos... Ai de mim! Não é um sonho não... Os olhos não se enganam, e os ouvidos não nos mentem! Aquelle que ha pouco vimos tão forte, tão saudavel e tão alegre, aquelle que leva para os cofres municipaes, como a abelha obreira, o mel dos impostos, transformou-se num cadaver e todas as suas obras são agora um espelhismo. A morte, que desconhece a piedade, poz sobre elle a sua mão gelada no instante em que, apesar da avançada idade que tinha, sentia a plenitude de suas forças alimentando as melhores esperanças!... Que perda irremediavel! Quem ha de substituil-o. temos muito bons funccionarios, mas Prokopif Ossipitof era unico. Consagrou-se com toda a alma ao cumprimento do seu dever, e era inatacavel incorruptivel... Zeloso das suas obrigações, não conheceu os prazeres da vida e até privou da felicidade a propria familia... E quem o substituirá como amigo? Tenho ainda diante dos olhos o seu rosto sem barba, risonho... Ouço ainda a sua voz amiga, suave... Paz ao teu corpo e á tua alma, Prokopif Ossipitof! Descansa em paz, martyr da nobreza e da honestidade...

Sapoikin continuava e os circunstantes começaram a murmurar entre si. Todos gostavam do discurso que conseguira até provocar algumas lagrimas; tinha no entanto certas coisas muito estranhas...

Em primeiro lugar não se compreendia que o orador chamasse ao morto Prokopif Ossipifot quando na realidade o seu nome era Kiril Vavilonov; em segundo lugar sabia-se que o morto usara durante toda a sua vida uma barba espessa e comprida, que nunca a tinha cortado desde que nascera; e por fim era publico e notorio que elle fora sempre um carrasco para a esposa. Por que se referia então o orador ao rosto barbeado e á sua nobreza e honradez?... Os circunstantes olharam-se estupefactos, e encolheram os hombros...

- Prokopif Ossipitof! - continuou o orador, de olhos postos na sepultura aberta. O teu rosto era feio, talvez horrivel; era resmungão e maldizente, mas todos sabiamos que sob esse exterior batia um coração bello e bondoso...

Nesse momento, os presentes começaram a notar que se passava qualquer coisa estranha com o orador. Este olhou fixamente para um ponto determinado; as suas pupilas dilataram-se; começou a mover-se com inquietação, e a encolher os hombros tambem. De repente, calou-se, abriu a bocca assombrado e voltou-se para o amigo que o fora chamar.

- Escuta, meu velho... Elle está vivo! - gritou aterrorizado.

- Quem é que está vivo?

- Prokopif Ossipifot! Esta ali, junto daquelle tumulo! Olha... ali!

- Mas aquelle não é o morto! Este cadaver é de Kiril Vavilonov!

- Não me disseste que tinha morrido o inspetor municipal?

- Decerto! Kiril tambem era inspetor... Agora já sabes... Por que ficas assim?... Vamos continua... Que vae pensar essa gente?

Sapoikin voltou-se para a cova aberta, e proseguiu a sua oração funebre com a mesma eloquencia de antes.

Prokopif Ossipitof, que se approximara ao ouvir citar o seu nome, mostrava em silencio a sua cara iracunda...

Depois desse dia, nunca mais Sapoikin fez um discurso. O homem que elle enterrava vivo era um admirador da sua eloquencia, mas nunca lhe perdoou o ter dito que elle era incorruptivel e inatacavel. Allegava que, de uma pessoa viva, isso só se póde dizer com intenção ironica...


segunda-feira, 22 de abril de 2013

O REI


Sou percussionista, adoro minhas habilidades motoras, tenho ritmo e sempre ando como se fosse conduzido por uma batida de maracatu. É quase incontrolável, batuco tudo que vejo pela frente! No café da manhã as facas tornam-se baquetas, a margarina tambor e as xícaras pratos de condução e ataque, logo estou solando com meu pão com manteiga, inspirado pela fumaça do café que adentra minhas narinas como ópio.
            As pessoas em geral não visualizam a quantidade de som e ritmos que temos no mundo, fico pirado com instrumentos indianos, de frevo, maracatu, indígenas, africanos e qualquer um que me inspire e me tire da monotonia e da estagnação. Eu prefiro a inconsequência da loucura, que a estabilidade do medo de viver as coisas, as sensações, os momentos. Prefiro evitar os julgamentos supérfluos estabelecidos pela sociedade, eu quero enxergar as pessoas por dentro, como uma máquina de raios-X, que é capaz de entender o comportamento, as atitudes que as levaram a determinados passos, a determinadas escolhas. Adoro tocar e encontrar um olhar confuso em meio a minha música, um olhar que penetre e que seja por um instante somente meu, num transe musicalmente hipnótico, magneticamente subtraído por outro tempo e espaço. A música tem esta capacidade. Quando toco bateria sinto-me num tabuleiro de xadrez, onde os peões estão na frente e o rei atrás. Desculpem-me, mas às vezes me falha a modéstia, mas mesmo que não seja na banda, em casa  sou eu  que impero, eu sou o Rei!
            Além da música, adoro animais exóticos, principalmente cobras e lagartos. Não sei se é espírito rock´n´roll ou a vontade de ser diferente. Talvez tenha penetrado nos filmes hollywoodianos com jiboias gigantes cercando meu pescoço. Minha cobra é totalmente legalizada, odeio tráfico de animais silvestres! A vida deveria ser respeitada em todas as suas formas. Quando resolvi comprar minha cobra, procurei me informar sobre as condições que deveria mantê-la e a forma que ela pudesse não sofrer. Seria mais fácil ter comprado um cachorro!
            A minha cobra é da espécie Elaphe Guttata (cobra do milho), perfeita para iniciantes, pois é dócil e é resistente a cativeiro, deixo-a circulando livremente pela minha casa, às vezes solto-a no jardim, para roçar suas escamas na grama, mas sempre tenho medo dela fugir! Talvez no meu íntimo, gostaria que ela fugisse, viver livremente. No pet disseram-me que a vantagem era alimentá-la com ratos recentemente mortos. Eu tenho pânico da morte, sofro até vendo o Discovery Chanel, ou National Geografic, esta coisa de cadeia alimentar sempre me atormentou. Alias estes programas mostram o quão lindo são os animais, suas famílias e terminam com um predador arrancando as entranhas e destruindo famílias. Eu torço sempre pelas zebras, pelos antílopes, mas nem sempre é possível vencer os benditos leões! Mas na nossa sociedade também é assim, só que somos a mesma espécie em condições sociais diferentes, lutando pela sobrevivência.
            No pet comprei alguns ratos vivos. Adoro a brancura dos ratos, a cara de desconfiado, parece que eles estão sempre prontos para o que der e vier. Cheguei com eles em casa e falei com a minha cobra: ---Judite, trouxe comida fresquinha para você! Você não poderia ser vegetariana? Ah Judite! Seria mais fácil alimentá-la! Na próxima chuva vou te levar para a cidade e você pode comer aqueles ratos que nos fazem mal, que mijam na água para gente pegar leptospirose! Assim, você faz um bem para humanidade. Judite, minha querida, aprenda que a vida vai além deste aquário! E ela desliza vagarosamente , me mostrando sua língua pronta para o bote.
            Fiquei algumas horas olhando aqueles ratos e não tive coragem de colocá-los. Pensei de novo, porque você não comprou um cachorro? Até que fechei os olhos, apontei para um dos ratos e o escolhi. Peguei-o pelo rabo e pensei: vai lá companheiro, cumpra a sua missão na Terra, que Deus o abençoe, Amém!
            O rato ficou apavorado quando viu a Judite, e ela se preparou para o bote, talvez eu não devesse assistir esta cena, poderia não conseguir dormir a noite. Mas fiquei hipnotizado com a preparação da Judite e com o pânico do rato. Até que ela avança para cima dele e o extraordinário acontece. O rato não se dobrou perante a cobra, ele atacou a Judite! Foi para cima dela, soltando seus ruídos de raiva. Judite se encolheu, apavorada! E de repente o rato estava à vontade no aquário. Em toda tentativa da minha cobra, ele a atacava, ferozmente, e ela ficava acuada! Com medo! As horas passaram tão depressa que quando me dei conta já era o outro dia! O rato só faltava sentar e lixar suas unhas para provocar a Judite! Desdenhava sarcasticamente da cobra. Ela não se mexia, praticamente chorava com medo da sua presa. Subitamente ela se preparou para o bote novamente. Pensei: desta vez a cobra pega ele! ---Vai Judite, arrebenta! E eis que o rato, como mestre Splinter, voou e mordeu a Judite, a arranhou e novamente a venceu! Era inacreditável! Espetacular! Um rato com tamanha força de vontade de viver! Um verdadeiro Ninja!
            Chega de estresse para os três animais! Sim, eu me incluía nesta lista. Há situações que devemos reconhecer a nossa derrota. Judite já havia se rendido a criatura pequena, alva e corajosa! Feroz, este seria o nome do meu rato! Ele era o Rei da casa e não eu! Merecia todas as pompas e cordialidades de uma coroação. Ao som de um “hang drums” celebramos nossa nova majestade!

Escrito por: Paula Rizzutti Prestes







segunda-feira, 15 de abril de 2013

O ASSALTO


Há muitos anos tenho um bar, e a rotina é um pouco complicada, cansativa. Não há folga, não há férias e décimo terceiro. Quando perguntam minha profissão, respondo que sou gestor dos consumidores “psicosocialmente” alterados. Não é fácil ficar atrás de um balcão. E vendo um pouco de tudo: porções, pão, mortadela, doces e remédios que aliviam as dores da ressaca. Até montei um kit que consiste em água mineral, "Eno", “Engove” e Epocler! Se não der certo, é dedo na goela, banho frio e café. Mas  serviços, como estes, não oferecerei no meu bar! Ah, não senhor!
Fico cansado, porque trabalho de segunda a segunda, minha mulher reclama, mas só fecho quando dispenso o último cliente que é o cachorro e que geralmente acompanha o último a sair! Vejo homens saindo tão “lelé” que vão derrubando as compras ao longo do caminho, você consegue achar a casa do sujeito seguindo a trilha com tomates, limão, o pão, a batata, a única coisa que o sujeito não derruba é o Corote! Alguns saem em bandos e regam com suas urinas as primeiras plantinhas que vêem na frente, tentam disfarçar, mas seus reflexos estão tão alterados! Já vi muitas histórias no meu bar, já fui padrinho de casamento, já fui o ombro no divórcio, já vi pai brindando a chegada de filhos e já vi filhos chorando por causa do pai! Só que foi na minha vida que aconteceu a história mais estranha que já vi.
            O bairro aqui sempre foi tranquilo, todos me conhecem, nunca tive medo de assaltos, mas a vida anda violenta minha gente, todo mundo com medo, muita mãe no desespero! Parece que o povo endoidou, não dão mais valor às coisas que realmente importam. Pessoas com sonhos roubados pela droga, pelo apego às coisas materiais, pelo abandono, triste mesmo, minha gente.
            Eu moro atrás do meu bar e consigo ter uma visão privilegiada, nunca mudei daqui, o máximo que mudei foi os móveis da casa, deu uma ajeitada, a mulher reclama, mas eu fico feliz com a minha TV de Led 32``. Foi muitas garrafas de pinga, mas paguei à vista! É nela que vejo meu joguinho nas quartas-feiras. Mulher resmunga que só penso na TV, aliás, ela só reclama! Eu vou fingindo que não é comigo, porque entrar na briga com mulher não vale a pena, já aguento muito bêbado chato no meu bar! Chegando em casa eu só quero paz, pensar na vida, beber minha cerveja, colocar minha bermuda, meu chinelo de dedos, me afundar no sofá e ficar ausente. Mulher disse que vai separar, mas não separa não, embora penso que seria bom para ela, talvez eu não seja um bom marido, mas fazemos bodas de prata no próximo ano, e vai dando cada vez mais preguiça de mudar.
            Escutei, certa noite, um barulho vindo do meu bar. Pensei que fosse minha imaginação, virei para um lado da cama e tentei dormir novamente, o barulho continuou. Peguei minha espingarda de chumbo, coloquei minha bermuda e minha camiseta do “Clodoaldo do Açougue” que foi candidato a vereador, seu lema era: comerciante deve ajudar comerciante, e desci para o bar. Entrei pela porta que somente eu conheço. Devagar, cuidadosamente para não fazer barulho, e não vi nada, olhei atrás do balcão, nos banheiros, atrás dos engradados de cerveja e nada. De repente, ouvi barulho de sirene, era a polícia. Não era coisa da minha imaginação, havia alguém ali. Os vizinhos acionaram a polícia. Comecei a enxergar as luzes das sirenes, e logo me deu um alívio, se alguém estivesse por ali não escaparia. Escuto um barulho estrondoso, é a polícia abrindo a porta do meu bar. Fechei os olhos e quando abri, havia dois homens fardados, olhando e apontando o revolver para mim. Eu disse: --- ainda bem que vocês chegaram! E eles disseram: “Cale sua boca vagabundo, perdeu!” Não entendi nada, e falei: --- eu sou o dono do bar! Os policiais riram tão alto que me constrangeram! E disseram: --  Nós somos o Zeca Pagodinho e o Vampeta! ---Mãos para o alto e encosta na parede! Tentei dialogar, explicar e eles só falavam: Vagabundo! Falador! Cara de Pau! Tentei explicar porque não estava com os documentos e eles disseram que eu estava enquadrado no artigo 155 (furto) e que havia sido detido em flagrante.  Enfiaram-me no camburão e me levaram para delegacia. Logo liguei para meu pai que veio de bicicleta. Ele já está com 70 anos, mas não larga da magrela e pensou que eu estava bêbado quando contei que fui preso dentro do meu bar, mandou-me a merda por fazer brincadeiras deste tipo. Não era meu dia, nem meu pai acreditava em mim! Comecei a chorar e logo ele veio com documentos, explicou toda a confusão e pude ser liberado! Minha gente, a justiça tinha problemas comigo e não eu com a justiça! E foi assim que acabou esta noite. Fui preso assaltando meu próprio bar! Nunca duvide dos infortúnios da vida.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

BISCOITO

Hoje, como em outros dias, acordei para trabalhar. Adoro me espreguiçar antes de levantar da cama, me traz a sensação de ser elástico e flexível. Preciso de alguma coisa no café da manhã. Não sou muito saudável, prefiro um pacote de biscoitos recheados à mamão e leitinho. Pego logo o biscoito de chocolate, o mais intenso, o mais escuro, aquele que me dá a sensação de 70% cacau, mas com 90% de açúcar. Penso, como a indústria consegue transformar, trigo, açúcar, aroma de cacau, leite, gordura vegetal hidrogenada em um biscoito tão crocante, tão delicioso? Meu médico diz que preciso me alimentar melhor, que preciso de vitaminas. Com certeza ele não lê a parte de ingredientes dos rótulos de biscoitos, tem vitamina B9 e ácido Fólico! Perguntei a ele se comia alface hidropônica, e ele disse que sim, então eu disse a ele para tomar cuidado, pois quimicamente falando, estamos empatados, só que meu biscoito é mais gostoso que a sua alface! Começo a mastigar. Sensação fenomenal! Vejo o ônibus se aproximando, torço para que tenha um lugarzinho. Logo vejo duas meninas me olhando, rindo, e são lindas! Meu ego parece não se controlar. Retribuo largamente o sorriso. Elas passam por mim, mais um sorriso de canto de boca e vão para o fundo do ônibus. Outro dia estava lendo uma reportagem sobre saúde e bem estar e ela dizia que a troca de energia através do sexo é tão intensa, que é capaz de transformar o universo. Logo pensei, duas meninas daria o Big Bang. Estava louco por uma explosão cósmica em minha vida! Agora passa por mim uma senhora e sorri. Penso, hoje realmente estou iluminado! Olho para trás e as meninas sorriem novamente! Comecei a cantarolar: “quando era neném não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim”. Acho que vou descer do ônibus, emendar uma conversa, será que elas são do tipo “moderninhas”? A senhora na frente continua sorrindo. 
Estou atrasado para romances, vou seguir em frente, salto do ônibus e sigo caminhando para o prédio em que trabalho. Entro, vou até o elevador, a ascensorista diz: bom dia! E fica me olhando e começo a desconfiar, será que a propaganda estava certa? Este novo desodorante atrai tantos olhares assim? Talvez se eu tivesse usado a pasta de dentes e alguém teria me beijado! De repente, olho para o espelho! Meu Deus! Meus lábios possuíam uma aureola cor marrom. Sem maquiagem alguma, consegui uma boca circense “negrescamente” manchada. Corei! Peguei um papel toalha que guardo dentro do bolso, totalmente amarrotado e não havia mais tempo, limpei rapidamente. Recolhi meu ego rapidamente e a sensação de vergonha se intensificou. Eis que sonhos podem esfarelar-se como biscoitos.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

ANSIEDADE



Não deu tempo.
Quando vi já havia comprado, usado, guardado.
Quando vi já havia olhado, comido, engordado.
Quando vi já havia gritado, me estressado, chorado.
Quando vi já havia ligado, escrito, enviado.
Não há tempo de  medir  conseqüências.
Se houver a  chance de mudar o mundo, espero não tropeçar na minha ansiedade.


Paula Rizzutti