quinta-feira, 18 de julho de 2013

COENTRO OU SALSINHA?

 --- Moça, pelo amor de Deus, você poderia me ajudar? Foi desta forma que fui abordada no supermercado há algumas semanas atrás.
--- Em que? Respondi prontamente.
--- Qual é o coentro e qual é a salsinha? Minha mulher me mata se eu levar errado de novo.
Senti pena daquele marido, desnorteado com dois pacotinhos na mão e por um instante passou tantas coisas pela minha cabeça. De certa forma a mulher estaria com razão, não há nada mais frustrante que esperar o último ingrediente para concluir seu prato e chegar o ingrediente errado. Neste caso, há um agravante ainda maior, o Coentro. A sua Mulher não iria simplesmente dar uma surra com o pacote de coentro em sua cabeça, e nem mesmo enfiar o coentro goela abaixo. Ela olharia o maço de coentro e ficaria com o rosto desolado e diria: - Não acredito! Isto é coentro! Eu pedi Salsinha! Mas você como sempre faz de tudo para me irritar, trouxe logo o Coentro. Ele com uma cara triste diria: - Desculpas, mas eu não vejo a diferença entre um e outro. E logo irritada e perplexa diria: Como não? - Não tem nada a ver coentro com salsinha. A cor é diferente, o cheiro é diferente e principalmente o sabor é diferente. É como se fosse as gêmeas Ruth e a Raquel de mulheres de areia, parecem iguais mas não são! Coentro é egocêntrico, ele quer aparecer mais que o prato principal! E de repente a Salsinha se tornaria o prato principal e o assunto para o resto da semana. Ela diria a familiares que a comida não estaria boa porque faltou salsinha, ela não perderia a chance de explicar inúmeras vezes quais as diferenças entre um ou outro, contaria para amigas e para os amigos e assim ele se sentiria constrangido com a proporção que a história tomaria.
Luiz Fernando Veríssimo não vê graça na salsinha, eu particularmente tenho pavor de coentro. A única criatura capaz de colocar o coentro egocêntrico no seu lugar é o Peixe. Por isso, que costumo utilizar esta erva somente em moquecas ou no peixe assado.
Então, me compadeci daquele pobre cidadão e disse: CLARO! E logo pedi para ele cheirar um e outro, mais de três vezes e ele aprendeu a não trocar mais as “inofensivas” folhas verdes! Logo a alegria encheu o seu rosto e me senti feliz por evitar um conflito que poderia a chegar a graves conseqüências.
E assim continuei as minhas compras, chegando em casa abracei o meu marido e disse: os complicadores da vida são os pequenos problemas. Ele respondeu: --- É verdade! O que teremos para o jantar? Eu respondi:- Pensei em peixe, mas deixa para lá!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

DEFINITIVO

" Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional..."
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 2 de julho de 2013

FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.


Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.


Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.


Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.


No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.


Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.


E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.


Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.


Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!


E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.


Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.


Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

BOCA ABERTA

Início de inverno e minhas férias se aproximam. Este ano irei viajar para a Argentina. Visitarei algumas províncias, mas Rosário é minha grande expectativa, a terra de Che Guevara. Não vejo a hora de olhar as paisagens, respirar profundamente e gritar: Hasta La Victoria Siempre! Só de pensar me vem um frio na barriga, que percorre a espinha dorsal e me faz suspirar.
            Meus pais sempre admiraram o comunismo e lembro-me da foto de Marx pendurado na parede da sala, com aquela barba branca, barriga pomposa, postura firme, olhando para mim, e eu pensava: Será que ele é o Papai Noel? Aliás, era um bom velhinho: queria que todas as crianças e adultos tivessem as mesmas condições sociais, que ninguém passasse fome no mundo, era assim que papai me explicava. Quando cresci pude compreender muitas coisas a mais, e acredito que Freud foi importante, mas em caso de dúvidas, sob o caos que está este mundo, é Marx quem explica.
            Enfim, é muito complexo imaginar o mundo e isto me entristece um pouco, mas vou entrar de férias e quero relaxar, pensar nos vinhos que irei beber, nas piadas sobre futebol que irei fazer, penso no chouriço com papas fritas, nos alfajores e doce de leite, passearei pelo caminito e sentarei no banco da praça juntamente com a Mafalda, aliás meu sonho era beijar a careca do Quino por ter inventado uma personagem que me reflete tanto. Deu uma vontade de cantar: “Não chores por mim Argentina.”
            Hoje que pela manhã acordei com uma sensação estranha: eram pontadas que estremeciam o corpo primeiro e chegavam até o cérebro. Latejava insistentemente, doía e me dava uma sensação de que tudo estaria perdido. Realmente eu uivava, existem muitas sensações ruins na vida, e dor de dente é uma delas. Primeiro pela dor física, depois pela dor no bolso, porque os dentistas possuem a incrível mania de transformar uma dor em 500 procedimentos odontológicos. Você sai sempre com a sensação que está com a boca podre e que se você não fosse naquela semana, estaria condenado a ficar banguelo antes da hora e teria que gastar uma fortuna com uma prótese dentária, e que comer maças e pé de moleque seriam tarefas quase impossíveis.
            Revesti meu espírito de coragem, peguei o telefone e liguei:
- Por favor, gostaria de agendar uma consulta.
- Senhora,  só temos para daqui duas semanas, pode ser?
- Querida, daqui duas semanas eu já terei me matado, eu estou com uma dor extrema! Por acaso, você já passou por isso?
- Posso tentar encaixar, senhora. Qual o seu convênio?
- Não tenho convênio, sou contra a saúde privada, esta deveria ser pública e de qualidade, então não alimento esta indústria.
- É particular?
- Sim, é particular.
- Temos vaga hoje, senhora.
- Você me diz isto nesta cara de pau? Depois dizem que é vantajoso ter convênios médicos e ainda reclamam quando o SUS demora para atender.
-  Senhora, posso agendar às 14h?
- Sim, obrigada.
            Começa outra tarefa: passar fio dental cuidadosamente por todos os vãos possíveis, escovar cuidadosamente cada dente, porque a pior coisa é ouvir do dentista: “Precisa caprichar na escovação!”
            Chego ao consultório já com a certeza que serei vítima de um assalto, e lá vem a doutora com seu jaleco branco, cabelo brilhante, dentes branquíssimo com um ar de que saiu de uma propaganda de creme dental. Aliás, isto é uma grande curiosidade, será que é um dentista muito chato que elabora todas as propagandas de creme dental? Porque são extremamente irritantes!
            - Boa tarde, tudo bem?
            - Boa tarde. Doutora estou com muita dor.
            - Vamos ver o que aconteceu?
            Nesta hora já vem aquele frio na espinha, porque sempre aconteceram mais coisas do que você imaginava. Mas deitamos naquela cadeira, escutamos o motorzinho, e a cadeira deita! Colocam- nos o babador e ouvimos:
            - Abra bem a boca e mantenha, ok?!
            Nesta hora acontece uma coisa muito estranha. Na minha visão dentistas são carentes! Eles adoram conversar com a gente, sobre coisas que não necessariamente dizem respeito a sua dor.
            - Menina, você viu como anda a violência?
            - Você só consegue responder: aham!
            - Um absurdo, pagamos tantos impostos, e o governo não faz nada. O que você acha?
            Como vou responder? Com a boca aberta? Então a gente tenta;
            - É ...”om i a ooooo”, na tentativa de dizer: complicado.
            Dentistas adoram reclamar de impostos, pode reparar. Impostos sobre os salários, imposto de renda e também adoram reclamar da secretária.
            - Você sente dor quando come coisa fria e coisa quente?
            - Ahãmm!
            - Esfriou hoje, não?
            - Ahãm!
            - Você não gosta muito de falar, né?! Mas vamos tirar uma radiografia só para finalizar o seu diagnóstico.
            Como eu não gosto de conversar?! Quem conversa com alguém cutucando sua boca, jogando água nela, falando para cuspir toda hora e de boca aberta?
            - Prontinho, é canal! Vamos demorar um mês para finalizar o tratamento.
            Penso nas minhas férias, viajar durante a um tratamento de canal pode não ser uma boa ideia. Fico com uma cara confusa, triste e desolada.
            - Calma, não vai doer. Mas recomendo você a trocar suas quatro restaurações e a fazer uma limpeza, pois será necessário para evitar outro problema deste.
            Nesta hora a gente quase sobe uma plaquinha de: “Eu já sabia!”
            Então você descobre que 1/3 das suas férias podem sem comprometidos por um tratamento dentário e realmente só resta ficar de boca aberta!

            Talvez eu visite somente uma província e esqueça os alfajores.

escrito por: Paula Rizzutti Prestes

domingo, 2 de junho de 2013

TOQUE


Abro e fecho a porta, confiro mais uma vez, não está totalmente fechada, abro e fecho a porta e sinto que agora está quase fechada, mas é melhor garantir, abro e fecho novamente. Agora sim, pronto, está tudo bem!
            Tomo banho seis vezes ao dia e sinto que ainda ficou alguma sujeirinha dentro do meu ser! Parece que há algo de errado, talvez seja a roupa ou o cheiro do perfume de alguém que impregnou em minhas narinas.
            Quando saio de casa me dá uma sensação angustiante de esquecimento, volto e confiro se não há nada que eu tenha olhar, levar ou lembrar. Há que se acordar horas antes do trabalho para que haja tempo para conferir tudo, para fechar tudo e seguir quase tranquilo.
            No trabalho, verifico e-mails de cinco em cinco minutos, há uma ansiedade em verificar mensagens e quando elas não chegam, parece que há algo de estranho. Telefono para o técnico de informática para verificar o problema e ele diz que está tudo funcionando perfeitamente. Então o que será que aconteceu? Meu trabalho não está o melhor possível? O que eu fiz de errado para não merecer um e-mail? Verificarei as minha metas, a avaliação de desempenho e o feedback do gerente. Parece que me esqueceram sem motivo aparente.
            Corto as unhas todos os dias, gosto delas bem rente, para que não grude nenhum coliforme fecal debaixo delas. Lixo as unhas também, há de ficarem perfeitamente lisas e limpas.
            Arrumo os quadros pendurados na parede, talvez não devesse haver quadros nas paredes. Eles sempre estão tortos! Não visito mais museu, ou qualquer exposição. Na última, comecei a passar mal: náuseas, vertigens, e tudo parecia uma loucura, eu no meio daqueles quadros tortos, um anjo torto tentando consertar a o desalinhamento da humanidade.
            Gosto de manter a rotina, tudo em seu devido lugar, hora para almoçar e jantar, para navegar na net, hora para fazer exercício e sexo, hora para jogar e beber, tudo no seu devido lugar. Não há como dar errado se cronometrarmos a vida.
            Uns me entendem e dizem que sou metódico, e outros não entendem nada, me criticam apenas. Perguntam se não quero ir a um profissional para me ajudar e digo que estou fisicamente e psicologicamente bem! Sinto desconforto ao ver que as pessoas não me compreendem e me advertem por isso. Queria um toque suave, sem transtorno, sem obsessão e compulsão! Queria ser menos escravo, porém um vinco em minha testa, sempre preocupado, sempre pensativo, sempre conformado.
            Às vezes, tento disfarçar as minhas aflições, sufoco-as para não afastar as pessoas de mim, não quero perdê-las por meus hábitos tão pouco comuns. O espelho reflete apenas o que não sou.
            Há alguém me espionando pela janela da frente, coloco cortinas, mas ela não vai embora, talvez seja porque ela esteja dentro de mim.
            Abro e fecho a porta, girei a chave para me trancar na escuridão.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

NINHO


Hei de fazer um ninho
Com palha, galhos e algodão
É uma construção complexa
Mas definida, sem amarras
É redondo como o mundo
Quadradas serão apenas algumas idéias dentro dele
Lá ficarei por longas horas,
Adormecerei profundamente
E quando amanhecer
Voltarei a voar sem asas
Num espaço sem limites
Onde somente os meus sonhos alcançarão!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MÁ SORTE


“Carpe Diem”, lema da palestra motivacional hoje aqui na empresa. Nunca entendi porque o setor de RH insiste tanto em nos deixar motivados com frases impactantes, histórias de sucessos e vídeos com aquelas músicas de fundo para nos comover. Eu fico possesso quando ficam idolatrando o poderoso Abílio Diniz e ou a coisa fofa da Luiza (a do magazine) como exemplos de sucesso que devo seguir, como se minha pessoa pudesse ficar rica e famosa trabalhando como assistente administrativo neste lugar! Assisto a tudo, debocho às vezes, porque daqui a duas horas vou seguir a minha vida de peão, entrando às 8h e saindo às 18h, com míseras 1 hora de almoço, cumprindo minha jornada de 44 horas semanais, gastando 02 horas no trânsito e recebendo o contracheque com todos os descontos possíveis. Vivo enrolado com empréstimos consignados, descontado diretamente na folha. Agora eu sou assalariado, não detenho os meios de produção, logo não ficarei rico trabalhando!
            Dizem que sou pessimista e que atraio coisas ruins decorrentes de meu padrão de pensamento. É puro deboche isto, não?! As coisas acontecem porque eu penso negativo? É o seguinte, se o meu time vai mal no campeonato não é porque pensei negativo, e sim porque o Juvenal Juvêncio é o dirigente! Quando o clima tempo mostra que irá fazer máxima de 30 graus e o tempo fica chuvoso e frio, não é porque eu pensei negativo, e sim, porque fui enganado!  Agora eu tenho direito de reclamar e esbravejar sobre estas coisas! E isto não me faz um cara pessimista, mas realista.
            Nesta semana, eu resolvi provar para as pessoas que vou pensar somente positivo, não irei reclamar, não direi palavras de baixo calão e não perderei a paciência.
Hoje me inscrevi nas aulas de yoga e meditação, comprei um livro do Augusto Cury, baixei algumas frases do Roberto Shinyashiki, emprestei um livro do Osho, decorei alguns mantras, comprei um cd de “new age” e agora marcarei mensagens relaxantes semanalmente. Rumo à elevação espiritual, à descoberta do meu verdadeiro Eu!  Deixarão de me ver como o Pedro de Lara e passarão a me ver como o Brad Pitt. Embora este último seja egocêntrico demais, e tenho que me libertar do ego e da vaidade.
            Olha, lendo meu livro e aprendendo a manter a calma, estou me sentindo bem melhor com esta minha vida nova, até parece que o sol está mais amarelo, que a lua está mais redonda e que tem árvores na cidade.  Hoje tem reunião e estarei tranquilo para traçar as metas. Preciso chegar mais cedo, organizar o data-show, as pastas e a pauta. Roupa, cabelo, sapato, está tudo certo.  
            - Bom dia, universo! Que esteja conspirando a meu favor nesta manhã calma, serena e tranquila!
Saio de casa, entro no ônibus e digo: --- bom dia a todos! Ninguém responde. Pessoal mal educado! Digo um mantra para dissipar o mau humor. Abro o livro, leio duas folhas e durmo. Acordo e estamos praticamente no mesmo lugar.
--- Trânsito maldito! Mantra para acalmar!
Duas horas e nada de andar o ônibus, o que eu faço? As pernas começam a ficar inquietas, me viro para um lado, me viro para o outro. Ouço um estrondo. Caramba!  Será que este povo pensa que estão em casa para roncar feito um porco dentro do ônibus? Mantra para cultivar as amizades! Ligo meu aparelho de MP3 e começo a ouvir as canções da Enya e pensar num jardim, passeio com os pés descalços, vejo as flores, os pássaros, as frutas e adormeço.
- Ei! Chegamos, ponto final! Não vai descer?
- Puta que o pariu! Ponto final?! Como assim?! Porque não me acordou? Eu tenho reunião!
--- Meu irmão, ta me achando com cara de despertador de marmanjo? Não vou ficar cuidando de adulto babão! Só estava dando um confere antes de ir para garagem, senão você iria para lá! Quase três horas nesse trânsito e malandro ainda vem tirar uma com a minha cara. Se ele me pega de veneta, iria logo gritar com este sacripanta! Meu salário a donzela não quer pagar! A gente faz um favor e a pessoa critica. Que mundo é este? Está tudo perdido. Saiu esbravejando o motorista!
            Desço correndo, e pego um circular, destes articulados para voltar três pontos! Sigo chacoalhando, está lotado, vou passar pela sanfona e ela me joga para cima de uma senhora, e quase sento em seu colo.
            - Desculpa, me perdoe! Machucou, senhora?
---- Não presta atenção?! Disse mal humorada.
---- Vá para o inferno, então! Fia do capeta!
---- Vá você seu grosso, mal educado!
 --- Cadê a porra do mantra da tolerância?! Saio e deixo a mulher falando sozinha! Puxo a cordinha e desço.
Quando olho para rua penso: pelo amor de Deus, tenho que passar pela feira livre, é hoje! Foco, pensamento positivo! Eu sou aquilo que penso! Eu sou aquilo que como!
--- E aí senhor, banana, caqui e pêra! Vamos experimentar? Docinha Senhor.
--- Não, muito obrigado!
--- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Puta que o Pariu! Só sinto a barraca despencando na minha orelha! Que dor, que raiva! Quem não amarrou esta porra direito? Desgraça pelada!
--- Ai, Meu Deus, o Senhor está bem?!
--- Como estou bem? Eu estou fazendo de tudo, mas vocês não me ajudam! Estão todos contra mim! Isto é uma sabotagem para que eu não mude de vida! 
--- Senhor, Calma! Machucou?
--- Calma, porque não foi na sua orelha que a porra desta barraca despencou!
--- Senhor! O que posso fazer? Quer uma pêra ou uma maçã? Maçã acalma.
--- Enfia a porra destas frutas no teu ..., respiro fundo para não dizer o que estou pensando, mas está quase impossível de segurar.
            Uma coisa insana tomou conta do meu ser, uma vontade de chutar todo mundo e abrir meu caderno com todos os palavrões possíveis e necessários para humanidade. Vontade de aliviar a minha ira no primeiro vagabundo que passasse na minha frente. Dobro a esquina transtornado, será que a má sorte me pega novamente?
--- Puta que o pariu, um pombo acabou de cagar na minha roupa!