domingo, 2 de junho de 2013

TOQUE


Abro e fecho a porta, confiro mais uma vez, não está totalmente fechada, abro e fecho a porta e sinto que agora está quase fechada, mas é melhor garantir, abro e fecho novamente. Agora sim, pronto, está tudo bem!
            Tomo banho seis vezes ao dia e sinto que ainda ficou alguma sujeirinha dentro do meu ser! Parece que há algo de errado, talvez seja a roupa ou o cheiro do perfume de alguém que impregnou em minhas narinas.
            Quando saio de casa me dá uma sensação angustiante de esquecimento, volto e confiro se não há nada que eu tenha olhar, levar ou lembrar. Há que se acordar horas antes do trabalho para que haja tempo para conferir tudo, para fechar tudo e seguir quase tranquilo.
            No trabalho, verifico e-mails de cinco em cinco minutos, há uma ansiedade em verificar mensagens e quando elas não chegam, parece que há algo de estranho. Telefono para o técnico de informática para verificar o problema e ele diz que está tudo funcionando perfeitamente. Então o que será que aconteceu? Meu trabalho não está o melhor possível? O que eu fiz de errado para não merecer um e-mail? Verificarei as minha metas, a avaliação de desempenho e o feedback do gerente. Parece que me esqueceram sem motivo aparente.
            Corto as unhas todos os dias, gosto delas bem rente, para que não grude nenhum coliforme fecal debaixo delas. Lixo as unhas também, há de ficarem perfeitamente lisas e limpas.
            Arrumo os quadros pendurados na parede, talvez não devesse haver quadros nas paredes. Eles sempre estão tortos! Não visito mais museu, ou qualquer exposição. Na última, comecei a passar mal: náuseas, vertigens, e tudo parecia uma loucura, eu no meio daqueles quadros tortos, um anjo torto tentando consertar a o desalinhamento da humanidade.
            Gosto de manter a rotina, tudo em seu devido lugar, hora para almoçar e jantar, para navegar na net, hora para fazer exercício e sexo, hora para jogar e beber, tudo no seu devido lugar. Não há como dar errado se cronometrarmos a vida.
            Uns me entendem e dizem que sou metódico, e outros não entendem nada, me criticam apenas. Perguntam se não quero ir a um profissional para me ajudar e digo que estou fisicamente e psicologicamente bem! Sinto desconforto ao ver que as pessoas não me compreendem e me advertem por isso. Queria um toque suave, sem transtorno, sem obsessão e compulsão! Queria ser menos escravo, porém um vinco em minha testa, sempre preocupado, sempre pensativo, sempre conformado.
            Às vezes, tento disfarçar as minhas aflições, sufoco-as para não afastar as pessoas de mim, não quero perdê-las por meus hábitos tão pouco comuns. O espelho reflete apenas o que não sou.
            Há alguém me espionando pela janela da frente, coloco cortinas, mas ela não vai embora, talvez seja porque ela esteja dentro de mim.
            Abro e fecho a porta, girei a chave para me trancar na escuridão.

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