quinta-feira, 26 de setembro de 2013

AQUELES DOIS


Para Rofran Fernandes:
"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)

"A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia,La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram."

CAIO FERNANDO ABREU

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DIVAGAÇÕES

Medo. Insônia. Câncer. Tsunamis. Depressão. Calvície. Efeito estufa. Impotência. Unha encravada. Stress. Aids. Guerra. Desemprego. Atropelamento. Miséria. Hemorróidas. Frustração. Demência. Hipertensão. Hérnia. Ressaca. Gangrena. Paralisia. Olheira. Dor de dente. Gripe. Neurose. Tétano. Tédio. Vômito. Bactérias. Cólica. Estigma. Inaptidão. Alcoolismo. Cegueira. Ejaculação precoce. Lesão. Overdose. Choque. Praga. Queratose. Obsessão. Amnésia. Divórcio. Caspa. Reumatismo. Seca. Úlcera. Infarto. Ansiedade. Descontrole. Repressão. Cárcere. Perda. Blenorragia. Febre. Psicose. Diabetes. Inconveniência. Enjôo. Bala perdida. Chantagem. Crise. Caquetismo. Inflamação. Nojo. Osteoporose. Timidez. Sequestro. Mágoa. Baratas... É impossível elencar todas as engenhosidades que podem afligir um único homem em sua infinitamente breve existência.

Sou um homem normal e sempre procuro evitar a dor e procurar prazer, o grande problema é relativizar as duas coisas e encontrar um equilíbrio entre dor e prazer. Outro problema é quando a busca pelo prazer nos torna tão obcecados que a satisfação de uma vontade nunca é o suficiente, transformando um suposto prazer em uma nova frustração, porém, não é sobre estas baboseiras que quero falar. Na verdade, quero contar uma história pessoal e não sei bem por onde começar.

Pelo Medo? Sempre fui muito medroso. Tinha medo de muitas coisas, embora não soubesse exatamente do quê. Às vezes acordava no meio da noite suado, ofegante, trêmulo, cheio de medo, realmente assustado, porém, não conseguia entender a causa dos meus temores, só tinha a certeza de que sentia medo.

Especialmente quando caminho solitário ou quando observo uma paisagem, fico pensando que cada centímetro quadrado que meu olhar toca ou cada metro cúbico que meus pés pisam tem um dono. A terra de ninguém se tornou apenas uma expressão arcaica e desprovida de sentido legítimo. Não existem mais territórios bravios esperando serem conquistados. Governos, empresas, pessoas, famílias. Patentes, direitos reservados, privilégios de exploração, escrituras... Tudo tem dono, isso me deixa meio emputecido, portanto, não gosto de pensar muito nisso. Eu também sou dono de algumas coisas, mas não me sinto dono de maneira integral porque tudo traz em si uma logomarca, uma tributação, um estilo, uma tendência.

Eu também tenho um dono. Tecnicamente não, é claro! A escravidão acabou. A qualquer momento posso chegar no meu patrão e gritar a plenos pulmões: “Vai tomar no cu seu filho-da-puta escroto!”. Entretanto, na prática não é bem assim que as coisas funcionam. Serei demitido e então, fatalmente, vagarei pelo mundo a procura de um novo dono pois como uma parcela do meu salário também já tem um dono - hipoteca, prestação, empréstimo - além de ficar sem dono, posso ficar também sem propriedade. É tudo muito complicado. 

Quando os imigrantes chegaram para trabalhar no Brasil já estavam devendo as passagens que o patrão generosamente havia pagado para que os infelizes tivessem uma nova chance na vida. Trabalhariam e poderiam até alcançar a riqueza. Além da dívida inicial contraíam novas dividas pois eram obrigados a consumir na mercearia da fazenda carinhosamente chamada de barracão. Por mais que trabalhassem, nunca conseguiam pagar o patrão e embora não fossem escravos, não podiam abandonar o trabalho enquanto não quitassem suas dívidas. Às vezes também me sinto assim.

O mundo ultramoderno, altamente tecnológico é engraçado. A cada dia surgem novos produtos para facilitar a nossa vida. Então, trabalhamos feito loucos para ter dinheiro para comprar mais produtos que facilitam nossa vida para podermos ter mais tempo para trabalhar ainda mais e assim comprarmos ainda mais produtos que facilitam ainda mais as nossas vidas. Quando vejo a quantidade de produtos dispostos dentro de minha casa com o objetivo de facilitar a minha vida fico pensando por que a minha vida não é fácil, quando possuo tantos facilitadores. Sinto-me aprisionado dentro de uma grande metáfora irônica. Mas tudo isso é apenas divagação, ajuda a não entrar de cabeça na loucura ou impede que se saia dela, é relativo. Quando não estamos mais aguentando o baque podemos tomar toneladas de prozacs, esquecer a dor e embriagar-nos de uma felicidade artificial; assim conseguimos seguir sempre trabalhando e buscando novas felicidades, percorrendo centenas de arco-íris até encontrarmos o pote de ouro ou ‘até que a morte nos separe’. Sempre haverá um caminho para chegarmos ao jardim das delícias.

Nicotina, aspirina, cafeína, açúcar, antidepressivos, ioga, pornografia, etc. Sempre há uma saída para a dor neste admirável mundo novo. Outro dia comi comida chinesa. Encaixotada, com nome inglês, comida rápida, brócolis com sabor de isopor, caixinhas jogadas, descartáveis globalizados, fiquei pensando se algum chinês havia participado de alguma etapa da confecção daquele alimento. Apenas divagação ou minutos de uma lucidez constrangedora, quem sabe? Bem vamos ao que interessa.

Houve uma época em que fiquei um tanto perdido em reflexões, as divagações mentais vinham com uma frequência cada vez maior e assaltavam meus pensamentos por mais tempo do que o normal. Não conseguia me concentrar no trabalho e até as coisas simples do dia a dia causavam algum embaraço. Esquecia senhas, compromissos, perdia papéis importantes, não percebia a abertura dos semáforos até que motoristas enfurecidos expressassem seu descontentamento com minha distração por meio de longas buzinadas. Uma piscada forte e prolongada, um café encorpado ou um belo par de peitos saltitando nos decotes já não eram mais suficientes para me trazer à realidade. Bastava eu olhar um objeto ou uma cena qualquer para as divagações apossarem-se de minha mente. Um dia saí de casa calçando meias com cores diferentes. Em outro cheguei atrasado no trabalho porque fiquei preso às minhas divagações sobre a arborização das cidades, acabei andando quase cinco quilômetros além do meu local de labuta. Meu chefe começou a me olhar de forma estranha, e o pior é que eu nem me importava. Às vezes eu queria ter um botão na cabeça, desses escritos ON-OFF, e desligar meus pensamentos por algum tempo. Dificilmente eu conseguia dormir, as olheiras avançavam em ritmo militar. Eu já não conseguia separar a realidade das divagações, tudo se embaralhava.

Embora eu me sentisse poderoso, inteligente e vivaz, capaz de extrair sutilezas filosóficas e claras de cada objeto ou situação que presenciava, as pessoas que me cercavam não eram capazes de enxergar as coisas sob este prisma. Pensava em Nietzche, na sua genialidade incompreendida pelos seus contemporâneos. De vez em quando, abandonava minha modéstia e me imaginava como Nietzche, um super-homem desgarrado no tempo, vivendo em uma era de superficialidades e reflexões fast-food. Tempos da pseudo-razão, afogado num mar de jabores, jôs soares, paulos coelhos e livros de auto-ajuda. Pensamentos efêmeros para consumo descartável, ninguém queria profundidade, muitas vezes nem eu queria, mas não tinha forças para evitar, era o descontrole em cutucar as próprias chagas pustulentas até não mais suportar a dor e, mesmo assim não conseguir parar.

Resolvi seguir as orientações do chefe, da esposa, dos amigos e dos colegas de trabalho. Acupuntura, natação, psicotrópicos, estimulantes, manuais de auto-ajuda, cds de mantras pop, jardinagem, etc. Mas nada adiantava. Foi nesse momento de indecisão que a luz veio até mim e todas as contradições internas e externas dissolveram-se no ar até formar uma massa plana e agradável sob meus pés, pude compreender a palavra felicidade em toda a sua intensidade semântica, pude senti-la de maneira profunda. Abandonei todas as baboseiras pós-modernas e passei a elaborar um plano para colocar em prática algo tão puro que me livraria de todos os tormentos. Tudo ficou claro naquele momento.

Numa noite, eu tinha a reunião quinzenal dos neuróticos anônimos. O anonimato às vezes incomoda, o anonimato com neurose pode ser definido como um incômodo duplamente qualificado. Cumprimentei algumas pessoas, tomei um cafezinho e saí de fininho, eu tinha outros planos em mente. 

Fiquei dirigindo a esmo por mais de uma hora, procurando o local adequado para colocar meu plano em ação. Numa rua deserta, no meio fio da cidade, nem periferia, nem centro, um interstício urbano onde as contradições sociais expressavam-se na arquitetura, conviviam lado a lado, dividiam o mesmo quarteirão. Sempre gostei desses bairros, nem arrogantes demais, nem humildes demais. Parece haver mais equilíbrio no peso das coisas e pessoas, apesar da discrepância visível. Nem o silêncio asséptico e glacial enjaulado em meio a grades e cercas elétricas, nem as sonoridades híbridas, turbulentas, diretas e licenciosas. Um rapaz caminhava tranquilo pela rua, mais ou menos um metro fora da calçada. Parei o carro ao seu lado e perguntei onde ficava a rua são Simão, ele parou para pensar um pouco e aproximou-se da janela do carro, inclinando-se um pouco. Nesse momento, espantei-me com minha própria agilidade, segurei a faca que trazia em meu colo e cravei-a com uma eficiência cirúrgica na garganta do infeliz. Porém, nem tudo saiu perfeito como eu havia planejado, o sujeito soltou um grito que, naquele momento soou para mim como algo impossível de descrever. Um grito ou um simulacro de um urro quase mudo no momento em que eu retirava a faca de seu pescoço. Outro contratempo para o qual eu não havia me preparado foi o da intensidade do jorro de sangue que saltou enfurecido daquele pescoço. O sangue invadiu meu carro, respingou no meu rosto e sujou minha camisa de maneira impressionante.

Mal tive tempo para assimilar aquela surpresa e o sujeito iniciou uma corrida titubeante. Vivi um desses momentos em que as frações de segundo eternizam-se, afogado pelo odor acre do sangue fresco vivi momentos de extrema hesitação. Não havia mais a possibilidade de voltar atrás, o avanço sem vacilo era a única chance plausível. Desci do carro e observei o sujeito cair em sua corrida exasperada, assim o alcancei com certa facilidade. Felizmente ele caiu de bruços e eu fui muito rápido, talvez se eu tivesse visto seus olhos clamando pela vida me faltasse coragem para prosseguir. Desferi várias facadas consecutivas e ritmadas nas costas do sujeito, não sei quantas vezes realizei aquele movimento. Somente tempos depois descobri que foram dezessete vezes. Algumas luzes se acenderam na casa em frente à cena, um cachorro latiu. O latido de advertência tirou-me do transe no qual eu mergulhara, saí apressado do local. O plano não havia transcorrido tão bem como eu havia calculado. Entrei no carro, minhas mãos estavam trêmulas e eu suava como nunca. Lembrei-me de um momento da infância: eu tinha acabado de comprar um sorvete, na época um dos mais caros, eu havia juntado os trocados que minha mãe me dava para um lanche na escola durante toda a semana para poder comprá-lo. Desembrulhei o sorvete e minhas mãos estavam trêmulas de emoção. O sorvete, num salto ornamental, escapou das minhas mãos, realizou piruetas precisas quase em câmera lenta e espatifou-se no cimento quente da calçada. Fiquei sem reação. Só me restou observar a ação do sol forte sobre o sorvete até transformá-lo numa poça cremosa multicolorida. Prostrado, engoli a saliva seca com sabor de fracasso.

Enquanto dirigia em fuga, naquela noite, me incomodava o suor que serpenteava no meu rosto em espessas gotas ou percorria minha coluna causando arrepios, me senti como o sorvete da minha infância, mas eu não podia me transformar numa poça cremosa multicolorida. Tentava respirar fundo, mas ofegava como um cão exausto. Depois de algum tempo o suor foi parando de escorrer, a respiração voltou ao normal e as mãos e os braços executavam movimentos com destreza. Parei o carro próximo a um terreno baldio, limpei o rosto com uma flanela, depois limpei a faca, enrolei tudo em um pedaço de jornal e atirei numa boca de lobo, depois joguei a flanela também, retirei os pedaços de fita isolante da placa do carro que serviam para alterá-las, fiz uma bolinha e mais uma vez presenteei a boca-de-lobo. Depois, fui para casa. 

Cheguei em casa e verifiquei que as manchas de sangue eram imperceptíveis na roupa preta, para um olhar menos atento e a uma distância relativa. Entrei em casa e me senti mais confortável, minha mulher estava distraída assistindo televisão, a cumprimentei de uma certa distância, em seguida eu disse que estava morrendo de dor de cabeça e fui tomar banho. Meticulosamente, tirei a roupa e coloquei num saco de lixo preto, tomei banho, escovei os dentes, senti-me protegido no banheiro e resolvi prorrogar minha estadia ali. Fiz a barba também. Guardei o saco com as roupas dentro de uma mala e enfiei tudo no guarda-roupa, empilhei mais duas malas sobre a primeira e fui deitar.

Deitado na cama pensei que ia passar a noite em claro, mas pelo contrário senti uma fadiga serena e dormi o sono dos justos. Um sono repousante e ininterrupto como há tempos não conseguia ter.

Quando acordei, meus pensamentos estavam confusos, porém, fisicamente eu me sentia disposto e revigorado. Liguei para o trabalho, disse que não me sentia bem e faltaria naquele dia. Fui até a padaria, comprei todos os jornais do dia, voltei para casa e preparei o café da manhã. Minha esposa ficou espantada e feliz ao mesmo tempo. Inventei que recebi um dia de folga, conversamos sobre venalidades, eu procurava me manter concentrado na conversa para não levantar suspeitas, todavia, estava ansioso para que ela saísse logo de casa. Quando ela saiu, senti um grande alívio, liguei para a empregada dispensando-a naquele dia. Fiquei por mais uma hora tomando café, nunca imaginei que matar alguém abrisse tanto o apetite da gente. Realizei uma leitura atenta dos jornais, entretanto, não havia nenhuma notícia sobre o crime em questão.

Comecei a pensar em todas as brechas que deixei para uma investigação que deixei. O álibi não fora bem estabelecido, tinha planejado retornar a reunião dos neuróticos anônimos à surdina, para dar a impressão de que eu estive ali todo o tempo. Afinal, ter escolhido neuróticos anônimos como álibi também se revelava não ter sido uma escolha muito sensata. E se o sujeito ainda estivesse vivo? Recobrando os sentidos lentamente até ficar apto para me denunciar?! Eu também desci do carro e, com certeza, alguém na vizinhança poderia ter me visto. Aquilo tudo me atormentava e eu precisava agir, manter o controle da situação. O primeiro passo era eliminar as provas materiais que ainda restavam. Olhei para o pão sobre a mesa, o primeiro alimento elaborado pelas mãos humanas. E o primeiro crime quando ocorrera? Tentei relacionar pão com crime em vão. Senti-me feliz. As divagações da minha mente estavam enfraquecidas, um muro sólido de problemas objetivos formava uma barreira protetora nos recônditos do meu pensamento.

Peguei as roupas usadas na véspera, coloquei na churrasqueira, despejei álcool, joguei um palito de fósforo aceso e fiquei observando o fogo fazer sua parte na operação. Esperei paciente sem perder a concentração, sem pensar em nada além da conclusão daquela tarefa. Em seguida, recolhi os resíduos, coloquei no saco de lixo, misturei um pouco de lixo doméstico de um outro saco e chacoalhei o saco com o objetivo de misturar os conteúdos. Primeira etapa concluída.

Depois limpei cuidadosamente os bancos do carro e, em seguida, lavei o carro. Tomei um banho, preparei um café e fiquei pensando na próxima tarefa, desta vez mais complexa: elaborar uma história verossímil, caso a polícia batesse à porta de minha residência para um interrogatório.

Passei mais de duas horas ensaiando um depoimento coerente: “bem... saí do trabalho às dezessete horas, fui pra casa, tomei banho, jantei e fui a uma reunião dos NA...’ Esse era o ponto espinhoso. Somente naquele momento pude visualizar o tamanho da minha burrice. Em primeiro lugar, ser um neurótico podia ser comprometedor. Esses investigadores e sua psicologia de cartilha rapidamente traçariam um paralelo óbvio entre neurose e psicose. Omitiria este fato e diria que fui a uma missa noturna, mas primeiro teria que descobrir se existem missas noturnas e verificar em qual igreja. Não! Pensei em dizer que fiquei em casa toda a noite, se por acaso descobrissem que eu compareci a reunião dos neuróticos ainda existia a possibilidade de argumentar que a omissão desse fato foi por puro constrangimento. Comecei a sentir sono, apesar de ter ingerido quase um litro de café, resolvi dormir um pouco, descansado talvez conseguisse pensar melhor. Novamente adormeci como uma pedra e só acordei porque minha mulher me despertou. O dia já se retirava e cedia espaço para a noite, numa transição harmoniosamente sincronizada. Tive uma sensação boa, nenhum policial batera à minha porta, portanto havia mais tempo para pensar. Então, tive uma ideia não muito boa, mas coloquei em prática até que uma nova ideia brotasse.

À noite fui a um bar que costumo frequentar. Conversei bastante com o dono do bar, paguei a conta com cheque e coloquei a data do dia anterior. Se a polícia demorasse alguns dias para me interrogar eu alegaria que na noite do crime permaneci no bar, dificilmente alguém conseguiria definir com precisão os dias exatos em que me viram no bar. Fiquei um pouco apreensivo quando o dono do bar pegou o cheque, receava que ele fizesse algum comentário sobre a data estar errada, isto chamaria a atenção e podia estragar meus planos, mas o detalhe passou despercebido.

No dia seguinte pela manhã tive uma produtividade além do normal no trabalho . Durante uma pausa para o café li o jornal e me senti leve como uma pluma. A matéria sobre o meu crime estava lá, tinha até foto! Senti uma sensação de orgulho e uma vontade de chamar o pessoal para mostrar a matéria e assumir a autoria da obra, infelizmente eu teria que conviver com essa euforia solitariamente. Li com atenção a matéria e um trecho em particular me tranquilizou: “... a polícia acredita em acerto de contas entre traficantes rivais embora não tenha pistas sobre a autoria do crime. O jovem tinha passagens pela polícia por porte de entorpecentes e pequenos furtos. Segundo testemunhas, nos últimos tempos ele também estava envolvido com traficantes da região.”. Na hora percebi que havia me preocupado à toa, afinal, como a polícia poderia chegar até mim? O passo inicial para uma investigação é a motivação do crime ou um elo de ligação entre a ponta e o cabo do chicote. Não existia nada disso! Tecnologia, fios de cabelo analisados por testes de DNA, etc. São coisas de filme policial americano, ou talvez sejam utilizadas somente para investigar crimes cometidos contra figurões da sociedade. No mundo cru e real das pessoas comuns como eu e você, com certeza não existe nada disso! Pensei em guardar o recorte do jornal, mas não podia ficar dando este tipo de rastro. Então escaneei a matéria e guardei em um e-mail que criei usando dados falsos. Não era lá grande coisa, mas foi a única lembrança concreta que eu poderia guardar. Se eu pudesse imaginar antes que as coisas seriam tão simples, teria guardado a faca.

Já assisti à filmes e li romances policiais mesmo sem gostar muito do gênero. Muito clichê. Também não me identifico com heróis. Na minha infância, quando eu ia ao cinema, sempre torcia para os vilões. Policiais sempre trazem algumas concepções clichês do tipo “o culpado é o mordomo e o assassino sempre retorna ao local do crime”. Eu sempre me perguntava por que o assassino sempre cometia esse erro crasso de retornar ao local do crime. Depois percebi que isso é uma verdade.

É difícil explicar esse impulso. Não sentia remorso, arrependimento, nenhum sentimento parecido com isso. Mas algo mais forte me fez retornar ao fatídico local. Tomei algumas precauções. Estacionei o carro a uma boa distância do local. Vestia roupas de ginástica e passei correndo pela rua. Quanto consegui identificar o local exato em que tudo aconteceu, parei com as mãos no joelho como se recobrasse o fôlego. Foi um momento de emoção intensa. Pude reviver a cena como se assistisse a um filme. Pude ouvir claramente o grito da vítima e o latido de advertência do cão. Até hoje, quando quero, consigo rememorar os sons daquele dia como se os ouvisse tocando em um CD. Consegui até cunhar uma definição para o grito do sujeito: “um urro sussurrante empapado com sangue”. Sempre gostei de cunhar expressões desse tipo, são pessoais e talvez só façam sentido para mim. Um dicionário do meu universo interior que pode definir o indefinível.

A partir do episódio relatado, minha vida mudou bastante. As divagações que me atormentavam desapareceram como ao toque da batuta de um mágico. Consegui me concentrar melhor no trabalho, minha relação com as outras pessoas ficou mais fácil. Tive até uma promoção no trabalho e as pessoas pararam de me lançar aqueles olhares de juiz me chamando de doidivano. Passei a ser um sujeito mais confiante e uma certa química mágica parecia exalar dos meus poros. De certa forma, as pessoas podiam sentir um poder invisível na vibração do meu olhar. Exprimiam um receio respeitoso pois pressentiam que eu era capaz de realizar feitos magníficos e engenhosos que elas não tinham coragem para copiar. A comunicação instintiva é sempre breve e eficiente.

Isso aconteceu há cinco anos e creio que me tornou uma pessoa melhor. Minha vida seguiu tranquila como um pequeno barco que navega ao sabor do vento, ignorante da grandeza do oceano que o cerca, segue seu caminho sem saber qual será o ponto de chegada e sem amargurar-se em saber da impossibilidade de retornar ao ponto de partida. O barquinho segue sem se intimidar frente ao oceano que pode destroçá-lo pois tem coragem para enfrentar as tempestades e pode sempre contar com a ajuda do vento ou dos deuses, que controlam o rumo dos ventos. 

Entretanto, nem tudo na nossa vida é como desejamos. Há mais ou menos uns três meses as divagações retornaram, tímidas inicialmente, ganharam força pouco a pouco. Agora, já começam a me perturbar com intensidade crescente. Meu analista me recomendou a terapia da escrita como forma de exorcismo mental. Comprei um caderninho e todos os dias escrevo umas páginas. Escrever é muito complicado, cronologia, tempo verbal, concordância, etc. Os pensamentos surgem e passam tão rápidos que a coordenação motora é incapaz de acompanhá-los, como uma carroça tentando perseguir um trem. Sinto que esta tentativa está irremediavelmente fadada ao fracasso absoluto e que, em breve, terá um frustrante sepultamento. 

Na verdade, preciso de um novo plano, um novo projeto. Porém, dessa vez, precisa ser mais matizado, se possível com um grau de refinamento, com novos elementos. Ocultação de cadáver? Deixar uma marca registrada no local? Plantar pistas? Utilizar novos instrumentos? Procurar uma pessoa influente na sociedade para causar mais alarde? É preciso pensar. Estudar todos os detalhes com meticulosidade. Parar de escrever esta merda e iniciar o planejamento... 

Anderson Rizzutti Prestes

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O Livro da Solidão

" Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens."

Cecília Meireles



(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)