Hoje está frio, e caminhando sou capaz de sentir o vento entupindo minhas narinas, a face congelando, as mãos petrificadas, e entra um assovio agudo em meu ouvido, me arrepia a alma e estremece o corpo todo, como um bambu quando tocado, tremendo sem cair. As ruas estão vazias, talvez o único que goste de ir ao cinema à noite com este frio sou eu, um verdadeiro andante gélido, sem alma, amante da arte e da beleza. Escolho a última sessão para não me deparar com o público adolescente e nem com casais que fazem barulho mastigando míseras pipocas e sugando até o fim aquela merda de refrigerante, e aqueles “combos” capazes de durar o filme inteiro, que engorduram a mão, o banco e alma. Se houvesse pombos haveria comida para a vida inteira, pois espalham porcamente, entre risos e assombros, as migalhas.
Assisto ao filme com imenso deleite e sufoco a vontade de chorar por várias vezes, adoro filmes árabes, conflitos do oriente médio me envolvem de uma maneira que me sinto ultrapassando a faixa de gaza com uma imensa faixa : Palestina Livre! Adoro também as músicas, as danças, o pão sírio e o tabule!
Quando saio do cinema já me vem o desespero do dia seguinte: dou aulas de português numa escola estadual, e tenho dores de cabeça só de pensar em todas as tentativas de ensinar e me frustrar na hora seguinte, mas a esperança freireana vai me empurrando nesta caminhada. Hoje houve uma confraternização entre os professores, eu fico indignado com meu salário, mas fico ainda mais indignado quando a confraternização tem frango com batata, e ainda por cima há professores escondendo cervejas por debaixo das mesas para não dividir, esta síndrome de cachorro vira lata, às vezes me assusta Tudo bem que ganhamos uma merreca por aula, mas poderíamos comer com mais dignidade. Saí revoltado e esbravejei e os professores ficaram revoltados com a minha postura e disseram que seu eu era tão mão aberta assim, por que eu não trocava de carro. O que há de mal em ter um Fiat 147? Só pode ser inveja, pois ter uma raridade dessas é para poucos.
Bem, vamos embora que já é hora, dormir após um dia estressante, um almoço frustrado, mas pelo menos o filme é bom. Sigo para o estacionamento, mas algo estranho dentro de mim começa a se manifestar. Ai! sinto uma pontada na barriga, um barulho se forma dentro dela. Continuo a andar, penso que não há de ser nada, mas está tudo comprimindo dentro de mim, não é possível, são cólicas intestinais? Puta que o pariu! Começo a suar e procurar desesperadamente um banheiro, mas não vejo nada ao redor, nenhuma padaria aberta, nenhum boteco. Tento equilibrar meus pensamentos, um banheiro é a coisa mais importante da minha vida neste momento. Suor correndo em minha testa faz me delirar, vejo uma porta azul com um homem desenhado na porta, vejo W.C em todos os muros e não posso mais suportar. Peço a Deus para encontrar algum lugar, mesmo sendo ateu. Porque será que não há um posto, um mercado, uma porra de lugar aberto nessas horas? Maldito frango com batata! Revertério dos diabos! Canto canções árabes: “aimkibesfirrãããããã, coalhadasecããããããã”. Me sinto um camelo no deserto. Nunca pensei que iria soltar tantas bombas e a única coisa que quero ver livre é um assento sanitário. Avisto uma vila, a entrada possui um vão e vai ser lá que vou aliviar minha pressão. Abaixo as calças e de repente uma luz se acende e sinto o calor da lâmpada tocar minha bunda, viro-me e há uma câmera! Saio correndo, porque não suportarei tanto tempo, penso no filme, dança do ventre, prisão de ventre e o meu ventre começa a dizer: está na hora! Vejo uma pracinha e minha salvação se aproxima, quando começo a me posicionar:
--- Não é possível, um casal no paraíso!
--- Cara não dá, saiam daqui agora porque não posso esperar.
--- Como? Você irá utilizar a praça, seu porco! Disse a namorada desesperada.
--- Não quero nem saber, a moita é minha e ninguém me tira dela. Se quiserem ver um frango com batata condensado, fiquem aí, mas me deixem aqui!
O casal saiu indignado com o meu desespero e eis que a vem uma voz do além e diz: Amém.
Eis que a velocidade da luz fica pequena perto dos alívios fisiológicos da vida. Esta história escatológica já pertenceu a você pelo menos uma vez na vida, e com certeza irá valorizar a cada minuto, pois eles são essenciais, principalmente na hora do desespero.
No dia seguinte, após a imensa noite árabe de terror, chego a escola com vontade de colocar laxante na comida do diretor. Ele veria o perrengue que uma pessoa passa, por uma decisão muquirana. Onde já se viu? Passarei um bom tempo longe de frango com batata. Pego meu material e vou para a sala de aula.
---- Bom dia.
A sala começa a rir e não entendo o porquê.
---- Está bem professor?
Notei um tamanho sarcasmo na voz daquela criatura.
---- Sim, por quê?
---- Porque o senhor estava ontem adubando as plantas da praça!
Os alunos começaram a rir e vozes apareceram no meu subconsciente: cagão, cagão, cagão!
Quando você pensa que se livrou de um sufoco, eis que outro aparece.
Hhahaha ja passei por isso!!!
ResponderExcluirQue fase!
ResponderExcluirIsso me lembra uma manifestação na Paulista hahahahaha
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