segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PIPOQUEIRO




João era um sujeito robusto, mediano, cara amarrada, provavelmente marcada por sofrimentos e álcool. Ninguém diria que Pipoqueiro é a sua profissão, porque esta representa alegria, crianças, cinema e fuga das refeições politicamente corretas. E ele, com sua cara carrancuda, olhar distante e esquizofrênico, poderia deixar distante qualquer cliente apavorado. Talvez ele transborde de simpatia no trabalho e nos engane temporariamente, nos convencendo a comer o milho, bacon, sal, manteiga, aroma inconfundível durante os estouros inquietantes. Há também as adoráveis pipocas doces, em São Paulo elas são vermelhas e no Rio Caramelo, mas ambas lambuzadas pelo açúcar que vicia!

O que haveria de errado com João? Talvez sofra de transtorno antissocial da personalidade, ou seja, psicopatia, mas pode ser confundido com um bêbado normal dentro de um bar, e foi assim que o conhecemos.

Em uma noite típica de inverno, as pessoas tendem a se retrair para não sair de seus aposentos, tendem a ser dominadas pelo pecado da preguiça, mas sempre existem os que resistem às rajadas de vento e ao frio descomunal e saem a procura de diversão, de risos, cervejas e conversa.

João naquela noite resolvera beber umas “biritas” para aquecer-se do frio, escolheu um bar, estacionou o seu carrinho e entrou.

Ao avistar o bar, vimos a primeira cena estranha e nada convencional: um carrinho de pipoca parado em frente a um bar de rock, o que é no mínimo engraçado.

- Marcos está vendendo pipoca? Perguntamos ao nosso amigo que estava parado atrás do carrinho.

- Eu não, o pipoqueiro foi ao banheiro e já volta!

Entramos e percebemos aquele senhor esquisito, nos olhando com um ar desconfiado e ao mesmo tempo dopado, havia acabado de sair do banheiro.

Com um olhar estranho começou a prestar atenção na conversa. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, apenas saberia dizer que havia uma preocupação eminente, ele acabara de utilizar o sanitário do bar, haveria ele lavado ou não a mão? Afinal, manipulava as pipocas e elas poderiam ser invadidas por coliformes fecais e possíveis distúrbios gastrointestinais poderiam surtir em quem as comesse.

--- Marcos, com um ar preocupado, perguntou:

--- Ei, John, é real este negócio de golpe comunista em 2014?

--- Sim, é real Marcos, estamos todos juntos, tomaremos o poder.

Nisto João virou-se assustado, e num movimento de vai e vem nos encarava como se fôssemos inimigos.

Marcos nos olhou preocupado e ficou com medo do que poderia acontecer depois do golpe.

João tentava puxar assunto com um ou outro no balcão, andava pelo bar, num vai e vem de gastar o chão, e sempre que passava, parava e nos olhava desconfiado.

Rimos e víamos que realmente existiam pessoas preocupadas com o golpe comunista em 2014, até que fomos interrompidos por uma voz:

- Golpe, eu estou dentro! Sou contra tudo o que está aí!

E realmente ele era negro, pobre e contra todas as políticas sociais e inclusivas, Tim Maia tinha razão: “O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita”.

Percebemos novamente um olhar estranho sobre a conversa, era João. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, mas estava nos intrigando. Será que estava bêbado, será que era o golpe, será que era um bandido? Será que estaria condenado a beber vodka russa ao invés da sua velha cachaça brasileira?

Eis que Marcos decide divulgar o Golpe para o dono do bar.

- Após o golpe estatizaremos o bar, e cerveja será distribuída de forma igualitária e justa aos frequentadores do estabelecimento.

João, após a notícia, ficou mais inquieto ainda e ficou totalmente descontrolado com a possibilidade da tomada do bar, afinal de contas era ali que ele tomava sua aguardente, deixava suas mágoas, buscava amigos e tentava, naquele momento, estabelecer diálogo com os bebedores ao som gótico estridente rolando no bar. Talvez ele quisesse dançar e pensar na vingança para aqueles comunistas de plantão, talvez pensasse o que duas mulheres estavam fazendo aquela hora no bar com barbados ruivos que decidiam qual o nome da cerveja após o golpe.

Realmente as passadas, o zigue-zague, as encaradas nos deixaram tensos, pois o pipoqueiro com aquele olhar psicopata transmitia a vontade de nos transformar em milhos para estourar!

Quando saímos do bar para ir embora, nos despedimos do dono e ficamos intrigados com toda aquela criatura que tomava esporro dos clientes e do dono do bar.

Após a nossa saída, um ar de bravura atingiu aquele homem e ele diz ao dono do bar:

- Ninguém vai tomar o seu bar! Me dê uma faca, porque eu sou é cabra macho!

-- Você quer um faca para quê? Pega seu carrinho e vai embora! Pare de encher o saco, por hoje já deu.

--- Me dá a faca, eu pego, eu mato!

--- Já falei para ir embora, ou vou ter que tira-lo a força!

--- Ninguém vai acabar com o bar, ninguém! Aqui é cabra macho.

--- Vai embora do meu bar agora! Não quero mais você aqui dentro. Pegue sua bebedeira e vai dormir. Não tem faca nenhuma aqui e mesmo se tivesse não ia te dar! Vai, vai, vai e me deixa em paz!

João, junto ao seu carrinho de pipoca já murchas e envelhecidas pelo sereno da noite não se conformava com o golpe e pensou em gravar um vídeo para colocar no facebook dizendo que era contra tudo aquilo e que as pessoas iriam se arrepender se continuassem, pois ele haveria de incrementar sua vingança com pimenta e Ajinomoto.

Haveria alguém mais sórdido que um pipoqueiro alcoólico psicopata na face da terra? Quando sair da igreja após receber a sua comunhão dominical, pense duas vezes antes de comprar sua pipoca, ele poderá estar a sua espera.



Escute o ranger dos pneus e o cheiro exalando nas praças, algo irresistível o espera.

6 comentários:

  1. Mais uma noite maluca que só um boteco pode proporcionar hahahaha

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    1. No final de tudo, haverá um livro com histórias de boteco.

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  2. um milhão de kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk's
    to rindo tanto que a barriga tá doendo lol lol lol

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  3. Eu conheço um pipoqueiro, que vai a um bar de rock com uma garrafa de iorgute e enche de cerveja, pra tomar escondido, ele deve se sentir bem, ou menos mal!

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    1. Deve encher várias vezes, né?! Isto que eu posso chamar de Cerveja Aromatizada...hehehe

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