quinta-feira, 20 de junho de 2013

BOCA ABERTA

Início de inverno e minhas férias se aproximam. Este ano irei viajar para a Argentina. Visitarei algumas províncias, mas Rosário é minha grande expectativa, a terra de Che Guevara. Não vejo a hora de olhar as paisagens, respirar profundamente e gritar: Hasta La Victoria Siempre! Só de pensar me vem um frio na barriga, que percorre a espinha dorsal e me faz suspirar.
            Meus pais sempre admiraram o comunismo e lembro-me da foto de Marx pendurado na parede da sala, com aquela barba branca, barriga pomposa, postura firme, olhando para mim, e eu pensava: Será que ele é o Papai Noel? Aliás, era um bom velhinho: queria que todas as crianças e adultos tivessem as mesmas condições sociais, que ninguém passasse fome no mundo, era assim que papai me explicava. Quando cresci pude compreender muitas coisas a mais, e acredito que Freud foi importante, mas em caso de dúvidas, sob o caos que está este mundo, é Marx quem explica.
            Enfim, é muito complexo imaginar o mundo e isto me entristece um pouco, mas vou entrar de férias e quero relaxar, pensar nos vinhos que irei beber, nas piadas sobre futebol que irei fazer, penso no chouriço com papas fritas, nos alfajores e doce de leite, passearei pelo caminito e sentarei no banco da praça juntamente com a Mafalda, aliás meu sonho era beijar a careca do Quino por ter inventado uma personagem que me reflete tanto. Deu uma vontade de cantar: “Não chores por mim Argentina.”
            Hoje que pela manhã acordei com uma sensação estranha: eram pontadas que estremeciam o corpo primeiro e chegavam até o cérebro. Latejava insistentemente, doía e me dava uma sensação de que tudo estaria perdido. Realmente eu uivava, existem muitas sensações ruins na vida, e dor de dente é uma delas. Primeiro pela dor física, depois pela dor no bolso, porque os dentistas possuem a incrível mania de transformar uma dor em 500 procedimentos odontológicos. Você sai sempre com a sensação que está com a boca podre e que se você não fosse naquela semana, estaria condenado a ficar banguelo antes da hora e teria que gastar uma fortuna com uma prótese dentária, e que comer maças e pé de moleque seriam tarefas quase impossíveis.
            Revesti meu espírito de coragem, peguei o telefone e liguei:
- Por favor, gostaria de agendar uma consulta.
- Senhora,  só temos para daqui duas semanas, pode ser?
- Querida, daqui duas semanas eu já terei me matado, eu estou com uma dor extrema! Por acaso, você já passou por isso?
- Posso tentar encaixar, senhora. Qual o seu convênio?
- Não tenho convênio, sou contra a saúde privada, esta deveria ser pública e de qualidade, então não alimento esta indústria.
- É particular?
- Sim, é particular.
- Temos vaga hoje, senhora.
- Você me diz isto nesta cara de pau? Depois dizem que é vantajoso ter convênios médicos e ainda reclamam quando o SUS demora para atender.
-  Senhora, posso agendar às 14h?
- Sim, obrigada.
            Começa outra tarefa: passar fio dental cuidadosamente por todos os vãos possíveis, escovar cuidadosamente cada dente, porque a pior coisa é ouvir do dentista: “Precisa caprichar na escovação!”
            Chego ao consultório já com a certeza que serei vítima de um assalto, e lá vem a doutora com seu jaleco branco, cabelo brilhante, dentes branquíssimo com um ar de que saiu de uma propaganda de creme dental. Aliás, isto é uma grande curiosidade, será que é um dentista muito chato que elabora todas as propagandas de creme dental? Porque são extremamente irritantes!
            - Boa tarde, tudo bem?
            - Boa tarde. Doutora estou com muita dor.
            - Vamos ver o que aconteceu?
            Nesta hora já vem aquele frio na espinha, porque sempre aconteceram mais coisas do que você imaginava. Mas deitamos naquela cadeira, escutamos o motorzinho, e a cadeira deita! Colocam- nos o babador e ouvimos:
            - Abra bem a boca e mantenha, ok?!
            Nesta hora acontece uma coisa muito estranha. Na minha visão dentistas são carentes! Eles adoram conversar com a gente, sobre coisas que não necessariamente dizem respeito a sua dor.
            - Menina, você viu como anda a violência?
            - Você só consegue responder: aham!
            - Um absurdo, pagamos tantos impostos, e o governo não faz nada. O que você acha?
            Como vou responder? Com a boca aberta? Então a gente tenta;
            - É ...”om i a ooooo”, na tentativa de dizer: complicado.
            Dentistas adoram reclamar de impostos, pode reparar. Impostos sobre os salários, imposto de renda e também adoram reclamar da secretária.
            - Você sente dor quando come coisa fria e coisa quente?
            - Ahãmm!
            - Esfriou hoje, não?
            - Ahãm!
            - Você não gosta muito de falar, né?! Mas vamos tirar uma radiografia só para finalizar o seu diagnóstico.
            Como eu não gosto de conversar?! Quem conversa com alguém cutucando sua boca, jogando água nela, falando para cuspir toda hora e de boca aberta?
            - Prontinho, é canal! Vamos demorar um mês para finalizar o tratamento.
            Penso nas minhas férias, viajar durante a um tratamento de canal pode não ser uma boa ideia. Fico com uma cara confusa, triste e desolada.
            - Calma, não vai doer. Mas recomendo você a trocar suas quatro restaurações e a fazer uma limpeza, pois será necessário para evitar outro problema deste.
            Nesta hora a gente quase sobe uma plaquinha de: “Eu já sabia!”
            Então você descobre que 1/3 das suas férias podem sem comprometidos por um tratamento dentário e realmente só resta ficar de boca aberta!

            Talvez eu visite somente uma província e esqueça os alfajores.

escrito por: Paula Rizzutti Prestes

domingo, 2 de junho de 2013

TOQUE


Abro e fecho a porta, confiro mais uma vez, não está totalmente fechada, abro e fecho a porta e sinto que agora está quase fechada, mas é melhor garantir, abro e fecho novamente. Agora sim, pronto, está tudo bem!
            Tomo banho seis vezes ao dia e sinto que ainda ficou alguma sujeirinha dentro do meu ser! Parece que há algo de errado, talvez seja a roupa ou o cheiro do perfume de alguém que impregnou em minhas narinas.
            Quando saio de casa me dá uma sensação angustiante de esquecimento, volto e confiro se não há nada que eu tenha olhar, levar ou lembrar. Há que se acordar horas antes do trabalho para que haja tempo para conferir tudo, para fechar tudo e seguir quase tranquilo.
            No trabalho, verifico e-mails de cinco em cinco minutos, há uma ansiedade em verificar mensagens e quando elas não chegam, parece que há algo de estranho. Telefono para o técnico de informática para verificar o problema e ele diz que está tudo funcionando perfeitamente. Então o que será que aconteceu? Meu trabalho não está o melhor possível? O que eu fiz de errado para não merecer um e-mail? Verificarei as minha metas, a avaliação de desempenho e o feedback do gerente. Parece que me esqueceram sem motivo aparente.
            Corto as unhas todos os dias, gosto delas bem rente, para que não grude nenhum coliforme fecal debaixo delas. Lixo as unhas também, há de ficarem perfeitamente lisas e limpas.
            Arrumo os quadros pendurados na parede, talvez não devesse haver quadros nas paredes. Eles sempre estão tortos! Não visito mais museu, ou qualquer exposição. Na última, comecei a passar mal: náuseas, vertigens, e tudo parecia uma loucura, eu no meio daqueles quadros tortos, um anjo torto tentando consertar a o desalinhamento da humanidade.
            Gosto de manter a rotina, tudo em seu devido lugar, hora para almoçar e jantar, para navegar na net, hora para fazer exercício e sexo, hora para jogar e beber, tudo no seu devido lugar. Não há como dar errado se cronometrarmos a vida.
            Uns me entendem e dizem que sou metódico, e outros não entendem nada, me criticam apenas. Perguntam se não quero ir a um profissional para me ajudar e digo que estou fisicamente e psicologicamente bem! Sinto desconforto ao ver que as pessoas não me compreendem e me advertem por isso. Queria um toque suave, sem transtorno, sem obsessão e compulsão! Queria ser menos escravo, porém um vinco em minha testa, sempre preocupado, sempre pensativo, sempre conformado.
            Às vezes, tento disfarçar as minhas aflições, sufoco-as para não afastar as pessoas de mim, não quero perdê-las por meus hábitos tão pouco comuns. O espelho reflete apenas o que não sou.
            Há alguém me espionando pela janela da frente, coloco cortinas, mas ela não vai embora, talvez seja porque ela esteja dentro de mim.
            Abro e fecho a porta, girei a chave para me trancar na escuridão.