Início de
inverno e minhas férias se aproximam. Este ano irei viajar para a Argentina.
Visitarei algumas províncias, mas Rosário é minha grande expectativa, a terra
de Che Guevara. Não vejo a hora de olhar as paisagens, respirar profundamente e
gritar: Hasta La Victoria Siempre! Só
de pensar me vem um frio na barriga, que percorre a espinha dorsal e me faz
suspirar.
Meus
pais sempre admiraram o comunismo e lembro-me da foto de Marx pendurado na
parede da sala, com aquela barba branca, barriga pomposa, postura firme,
olhando para mim, e eu pensava: Será que ele é o Papai Noel? Aliás, era um bom
velhinho: queria que todas as crianças e adultos tivessem as mesmas condições
sociais, que ninguém passasse fome no mundo, era assim que papai me explicava.
Quando cresci pude compreender muitas coisas a mais, e acredito que Freud foi
importante, mas em caso de dúvidas, sob o caos que está este mundo, é Marx quem
explica.
Enfim,
é muito complexo imaginar o mundo e isto me entristece um pouco, mas vou entrar
de férias e quero relaxar, pensar nos vinhos que irei beber, nas piadas sobre
futebol que irei fazer, penso no chouriço com papas fritas, nos alfajores e
doce de leite, passearei pelo caminito
e sentarei no banco da praça juntamente com a Mafalda, aliás meu sonho era
beijar a careca do Quino por ter inventado uma personagem que me reflete tanto.
Deu uma vontade de cantar: “Não chores por mim Argentina.”
Hoje
que pela manhã acordei com uma sensação estranha: eram pontadas que estremeciam
o corpo primeiro e chegavam até o cérebro. Latejava insistentemente, doía e me
dava uma sensação de que tudo estaria perdido. Realmente eu uivava, existem
muitas sensações ruins na vida, e dor de dente é uma delas. Primeiro pela dor
física, depois pela dor no bolso, porque os dentistas possuem a incrível mania
de transformar uma dor em 500 procedimentos odontológicos. Você sai sempre com
a sensação que está com a boca podre e que se você não fosse naquela semana,
estaria condenado a ficar banguelo antes da hora e teria que gastar uma fortuna
com uma prótese dentária, e que comer maças e pé de moleque seriam tarefas
quase impossíveis.
Revesti
meu espírito de coragem, peguei o telefone e liguei:
- Por favor, gostaria de agendar
uma consulta.
- Senhora, só temos para daqui duas semanas, pode ser?
- Querida, daqui duas semanas eu
já terei me matado, eu estou com uma dor extrema! Por acaso, você já passou por
isso?
- Posso tentar encaixar, senhora.
Qual o seu convênio?
- Não tenho convênio, sou contra
a saúde privada, esta deveria ser pública e de qualidade, então não alimento
esta indústria.
- É particular?
- Sim, é particular.
- Temos vaga hoje, senhora.
- Você me diz isto nesta cara de
pau? Depois dizem que é vantajoso ter convênios médicos e ainda reclamam quando
o SUS demora para atender.
-
Senhora, posso agendar às 14h?
- Sim, obrigada.
Começa
outra tarefa: passar fio dental cuidadosamente por todos os vãos possíveis,
escovar cuidadosamente cada dente, porque a pior coisa é ouvir do dentista: “Precisa
caprichar na escovação!”
Chego
ao consultório já com a certeza que serei vítima de um assalto, e lá vem a
doutora com seu jaleco branco, cabelo brilhante, dentes branquíssimo com um ar
de que saiu de uma propaganda de creme dental. Aliás, isto é uma grande
curiosidade, será que é um dentista muito chato que elabora todas as propagandas
de creme dental? Porque são extremamente irritantes!
-
Boa tarde, tudo bem?
-
Boa tarde. Doutora estou com muita dor.
-
Vamos ver o que aconteceu?
Nesta
hora já vem aquele frio na espinha, porque sempre aconteceram mais coisas do
que você imaginava. Mas deitamos naquela cadeira, escutamos o motorzinho, e a
cadeira deita! Colocam- nos o babador e ouvimos:
-
Abra bem a boca e mantenha, ok?!
Nesta
hora acontece uma coisa muito estranha. Na minha visão dentistas são carentes!
Eles adoram conversar com a gente, sobre coisas que não necessariamente dizem
respeito a sua dor.
-
Menina, você viu como anda a violência?
-
Você só consegue responder: aham!
-
Um absurdo, pagamos tantos impostos, e o governo não faz nada. O que você acha?
Como
vou responder? Com a boca aberta? Então a gente tenta;
-
É ...”om i a ooooo”, na tentativa de dizer: complicado.
Dentistas
adoram reclamar de impostos, pode reparar. Impostos sobre os salários, imposto
de renda e também adoram reclamar da secretária.
-
Você sente dor quando come coisa fria e coisa quente?
-
Ahãmm!
-
Esfriou hoje, não?
-
Ahãm!
-
Você não gosta muito de falar, né?! Mas vamos tirar uma radiografia só para
finalizar o seu diagnóstico.
Como
eu não gosto de conversar?! Quem conversa com alguém cutucando sua boca,
jogando água nela, falando para cuspir toda hora e de boca aberta?
-
Prontinho, é canal! Vamos demorar um mês para finalizar o tratamento.
Penso
nas minhas férias, viajar durante a um tratamento de canal pode não ser uma boa
ideia. Fico com uma cara confusa, triste e desolada.
-
Calma, não vai doer. Mas recomendo você a trocar suas quatro restaurações e a
fazer uma limpeza, pois será necessário para evitar outro problema deste.
Nesta
hora a gente quase sobe uma plaquinha de: “Eu já sabia!”
Então
você descobre que 1/3 das suas férias podem sem comprometidos por um tratamento
dentário e realmente só resta ficar de boca aberta!
Talvez
eu visite somente uma província e esqueça os alfajores.
escrito por: Paula Rizzutti Prestes
escrito por: Paula Rizzutti Prestes