Somos tão carentes de espaços
culturais que ficamos eufóricos quando algum evento acontece. Ficamos ansiosos,
baixamos a programação, sonhamos com as atividades e com os show, ligamos para
os amigos, compartilhamos todas as curiosidades dos eventos via facebook. Foi
assim que começou a nossa Virada Cultural.
- Ei, galera, vamos ver Skatalites?
- Skatalites? Esta eu não perco
por nada!
- Adoro aquele som! Tô dentro!
- Vocês estão sabendo que o Misfits
também vai tocar?
- Nossa, que incrível! Skatalites
e Misfits na mesma noite!
Combinamos
o esquenta no bar do seu Júlio: cerveja, animação e caravana formada. Pegamos o ônibus até o
centro de Osasco e tomamos o trem para Julio Prestes! Encontramos alguns amigos
por lá e já estávamos como passarinhos, andando em bando! Seguimos para São
João, onde estava montado o palco da banda que criamos a maior expectativa. No
meio do caminho, pessoas bebendo pinga em uma tripinha de plástico, que nem sei
o nome, mas deixava a galera muito louca. Compramos um pastel numa barraca de
um chinês: “ canê, quesso ou flango? Coca
no tem!”. Comemos e seguimos o fluxo rumo ao nosso objetivo. Sem
brincadeira, me senti na marcha da maconha, seguíamos cartazes de Legalize Já,
seguíamos a fumaça, havia pessoas penduradas nas árvores, como frutas, viajando
no THC. Comecei a me sentir um gnomo louco perseguindo Shangri-lá! Quando percebemos, não havia mais espaço para
tantas pessoas, a música não chegava nem perto de nossos ouvidos e ficamos
vendo um filme mudo nos telões espalhados pela rua. Agora, me diga qual o
sentido de ter tantos telões e não ter som neles? Nem o efeito alucinógeno por
tabela nos fazia ouvir alguma coisa! O que fizemos? Desistimos e contra o fluxo
seguimos para Júlio Prestes. Afinal de contas, ainda tem o Misfits!
-
No caminho de volta passamos perto da Galeria do Rock, e havia alguns caras
pendurados como espetos, embalados em plástico filme. Disseram que era a
representação do casulo. Bem, não ficamos esperando eles virarem borboletas,
pois o negócio era extremamente angustiante!
-
Ei! Preciso de um banheiro! Falou uma das namoradas.
Paramos
perto do Viaduto do Chá, onde havia um show de Hip Hop. Eu e Ariane precisávamos
nos divertir depois de tanto stress, começamos a dançar e cantar, na verdade
era fácil levantar e baixar os braços, fazer cara de mal e gritar hei, ho, hei,
ho! Eu gosto de hip hop! Foi a coisa mais divertida da virada inteira!
Fomos
em direção a Julio Prestes, no caminho havia gente caída por todos os lados,
parecia que estávamos em um filme de terror, passando por um monte de zumbis, “grunhindo” algumas coisas que não
entendíamos e misturados aos usuários de craque tornavam a paisagem desoladora!
Havia muita gente para ver o show! Até que uma das namoradas disse:
- Ei! Preciso
ir ao banheiro!
- Agora
gatinha?!
Homens
não entendem que mulheres sempre vão precisar de um banheiro, não adianta
reclamar! É difícil estar de calça jeans, abaixar, pensar que tem alguém
olhando e principalmente não molhar a calça, além de ser incorreto fazer xixi
na rua!
Logo
avistamos uma plaquinha “hotel”: banheiro R$ 2,00. Meus olhos e de Ariane brilharam, afinal de contas era um lugar onde poderíamos fazer xixi com
dignidade! “Somewhere Over in the raibow!” Quando entramos por aquela porta, um
ambiente totalmente sinistro. Pegamos um corredor escuro e vários quartos cheio
de usuários de craque e na parte de cima subiam casais para o acasalamento, que
devia ser algo escatológico, porque naquele ambiente eu brocharia com certeza!
Ficamos apavorados.
- Cara, vamos ser assaltados!
O banheiro era
mais tosco que os banheiros químicos, não havia luz e a sensação de fazer xixi
com vários usuários de craque do lado do banheiro não é a das melhores!
-
Vai gatinha, vai gatinha!
-
Ai gatinho, não consigo!
-
Vai, vai, vai logo, vamos ser assaltados!
-
Pronto, gatinho, pronto!
Realmente, meu xixi sumiu e eu só
queria sair dali. Seria cômico se não fosse trágico! Eu já estava cansada, com
sono e com uma tromba de elefante! Falei que queria ir ver o cover dos Beatles,
mas todos obstinados pelo Misfits seguiram tentando chegar perto do palco.
Achamos um caminho, e o show já havia começado! Sinceramente, estava horrível!
Havia alguns andaimes, algumas pessoas subiram neles e começaram a pular,
dançar e gritar. Até que um com cara de psicopata começou a querer se jogar. Eu
até estava torcendo para que esta fosse sua intenção, pois ficamos com medo
dele meter bala lá de cima em todo mundo! Então convivíamos com suas fases
suicida e psicopata! Cara, e eu ainda ia ter que voltar para São Roque de trem
e por Itapevi! Que furada!
Já
estava tarde, os pés já estavam pedindo descanso e fomos comer mais pastel, e o
que já estava sinistro ficou mais ainda. Havia usurários de craques limpando as
ruas, eles esfregavam com tanta força o chão, com olhos esbugalhados, para
frente para trás, pra frente para trás, e assim eles não limpavam nada, os
papéis iam e voltavam na mesma velocidade. Eu não sabia se ria ou se chorava
com a cena. Um ofereceu cerveja e o um comprador perguntou:
- Quanto é a
latinha?
- A latinha é
R$ 4,00
- Caramba, faz
por R$ 3,00?
- Não posso,
não posso, por favor, não posso, vão brigar comigo, não posso. Disse chorando o
vendedor e usuário de craque.
Ao
redor, os aliciadores vigiavam toda aquela merda de exploração!
E
foi assim que finalizamos a nossa virada cultural que revirou minha cabeça e
meu estômago.
Não
fui mais a nenhuma, porque traumatizei geral! Talvez este ano eu compareça, mas
vou ver coisas mais alternativas.
Infelizmente os problemas como a miséria e as drogas continuarão pelas
ruas das cidades e a virada, por ser tão heterogenia, mistura tudo e todos.
Nossa, esse dia/noite, foi cruel demais hahaha, depois que vcs forma embora, Euler e eu ainda fomos ver o Beatles cover, deveríamos ter ido direto pra lá (quando chegamos)... acho que era o único palco que tudo funcionava perfeitamente!!
ResponderExcluirEu até curti minha primeira virada, mas agora só vou para shows light e de preferência durante o dia. As últimas estavam meio decadentes de fato.
ResponderExcluirOba, fui o 1001! Eu nunca fui a nenhuma, mas estou escalado pra participar no sábado, 19h, atrás da Biblioteca Mário de Andrade, de um debate sobre a democratização do livro. Ainda bem que é cedo, pois não gosto de ficar na rua até mais tarde.
ResponderExcluirEu fui nessa, vi o skatalites, roubaram meu boné, depois descobri que avia sido meus próprios amigos¬¬ , vi o Misfts junto com o Undertand, vi toda essa cena que você contou, eu lembro que fui embora com o Vgner de trem, pois o pessoal queria ficar, realmente o show do Misfts foi uma merda, agora o Skatalites foi demais, nunca vou esquecer.
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