domingo, 31 de março de 2013

Entre Rios



            Norte, sul, leste, oeste, não importa que direção, mas todos caminhamos, sem bússola, sem saber ao certo aonde iremos chegar. O que diferencia um caminho do outro é apenas aonde se quer chegar e nisso homens e mulheres se diferenciam muito.
            Os homens quando colocam planos em suas cabeças, eles focam, eles abraçam, fluem, se engajam, conquistam. Veja como eles sabem todas as camisas do seu time preferido, como diferenciam cervejas, como consomem livros e musicas que se interessam e como são fiéis aos seus amigos e convicções, porém às vezes se esquecem de uma coisa, sentimentos, com estes há dificuldades de foco, de conquista de atuação, quando passam da fase de adaptação, acomodam-se, sentem seguros, sentem aliviados de não ter mais que se preocupar com isto, engordam, e amam, mas talvez não demonstrem como gostaríamos, podem flertar, podem até desejar outra mulher, mas as vezes o cansaço e o risco de ter que administrar duas mulheres, dois conflitos, os desencorajam, os paralisam.
            A mulher já faz várias coisas ao mesmo tempo, sonha com família, sonha com a felicidade da vida profissional e pessoal em sintonia, desdobram-se em mil, faz da fidelidade sua glória, estuda, trabalha, cuida da casa, do cabelo, da roupa, da maquiagem e do amor, pensam que são insubstituíveis, criam expectativas e frustram-se quando aquele lá da frase anterior já está acomodado e pouco repara no seu novo corte. Você diz: oi amor não reparou nada e ele logo vai dizer que é o cabelo porque é o primeiro chute: Ah, o cabelo né? Bonito, mas ele não saber se você pintou, cortou, lavou, escovou e você sabe disso e pergunta: o que eu fiz? E ele vai dar o primeiro chute, cortou né? E você emburrada: Não e ele no segundo chute: Pintou? E você tem a certeza que ele não reparou. E você pensa: Ele percebe que mudou o uniforme do XV de Piracicaba, a temperatura da cerveja, e o meu cabelo nada. O mesmo acontece com  o desempenho profissional e suas promoções, você conta empolgada e ele diz: “Parabéns vão aumentar quanto o seu salário?” E você pensa em todos os brainstorms, prazos de relatórios cumpridos, elogios recebidos dos clientes e ele no seu salário. Neste sentido as mulheres frustram-se por achar que não são mais interessantes, desejadas e que eles podem a qualquer momento, se interessar por uma mulher qualquer, que seja menos bonita, que seja dada de mais, que queria acabar com a sua felicidade.
            Sem generalizações, mas é isto que percebo na maioria dos relacionamentos. As Mafaldas[1] em determinados momentos tornam-se Suzanitas, e os Filipes tornam-se Manolitos.
            Pergunto-me porque isto ocorre? E o que penso é que abrimos mão de nós mesmos, das nossas conexões com o mundo, com a comunidade, com o planeta, focando nossa energia apenas em uma pessoa, que é individual, que dever ser plena, que deve viver todos os seus elementos de liberdade, de felicidade, sem a condicionante de se viver para uma só pessoa, de forma fechada, restrita. Quando vivemos assim, fechamos nosso mundo, nosso cérebro parece que atrofia, e nossas frustrações são levadas para nossa vida, para a pessoa que está do nosso lado.
            Veja bem o que leva uma pessoa no inicio do relacionamento ligar de cinco em cinco minutos somente para dizer: “oi amor, o que você esta fazendo? Ah desliga você, você primeiro e passados anos depois você ligar: O que você quer? To trabalhando, puta que o pariu, você com esta história de novo? Pô, não pode nem mais beber uma cerveja? E quando tudo parece perdido as chantagens emocionais começam: estou doente, não como, não durmo, você não está nem aí, eu vou morrer sem você, minha vida é uma merda, porque não gosta mais de mim”.
            Nem sei o que me levou a escrever a história desta maneira, talvez seja porque João não quer mais saber de Maria depois que descobriram que estão com diabetes e não há mais doces, somente bruxas no seus caminhos. Talvez porque minha terapeuta disse que tenho que me arrumar, mesmo que seja para lavar banheiros no sábado a tarde, para que meu marido não perca o interesse ao me ver com uma calça de moletom desbotada. Talvez porque vi estes dias muitos conflitos e poucas resoluções, porque apenas as pessoas se sentiram egoístas por pensarem nelas em primeiro lugar.
            Penso no dia que o vazio suma de nossas vidas, que percebamos que somos únicos, que a vida é única, e que não há tempo para tantos desentendimentos, que estar com alguém dever ser somatória e não subtração. Que somos mais importantes para o universo do que simplesmente para uma pessoa.
           
           
           



[1] Personagens dos quadrinhos da MAFALDA, criado por Quino. 

MAIS UMA DOSE


Você é meu amigo! Frase mais ouvida em bares depois que passamos algumas horas regadas à cerveja e outros drinks.  Note as primeiras horas em um bar: possui certo ar de seriedade, mas, depois de algumas horas, ficam barulhentos, com risos completamente desenfreados, pessoas se abraçando e trocando confidencialidades na porta do banheiro.
            Aliás, para as mulheres a questão crucial é o banheiro. Há sempre filas e há sempre alguém falando: “Nossa, porque sempre tem fila no banheiro das mulheres?” Esta é uma questão muito complicada para se relatar em pequenas palavras, mas tem haver com higiene, vaidade, hepatite, concentração, equilíbrio e força. Mas não há problemas, porque apesar de apertadas sempre fazemos amizades na porta do banheiro, nem que seja para fazer piadinhas, com quem está demorando lá dentro, ou para avisarmos aos homens que o banheiro masculino está ocupado, porque homens não fecham a porta, mesmo sendo paranóicos. Quando pensam que outro homem pode estar olhando para sua bunda, balançam a cabeça e dizem: “Ei Fião! Tá me estranhando? Sai para lá!”
            Existem acontecimentos que são recorrentes em bares, somente faz-se necessária a observação. Há cenas que parecem as mesmas, mas acontecem em dias e momentos diferentes.
---“Ei,, este copo é meu! Disse ao amigo após perceber que seu copo estava sendo trocado.
--- É seu? Nãããõooo, é meu! Disse confuso ao amigo que o questionava.
--- Ah, então é o seu! Ou é o meu?! Cadê o meu se este copo é o seu? Confundiram-se após perceberem não havia dois copos sobre a mesa.
--- Nossa, adoro esta banda! Comentou um menino no balcão ao ouvir os primeiro riffs de guitarra que começam a sair da Jukie Box.
Ao seu lado, um camarada ruivo, daqueles que você só conhece pelo apelido, respondeu ao menino:
--- É um lixo, não suporto este vocalista, rockstar dos diabos no vocal!
O menino do balcão estava tão encantado que continuou a escutar a música, cada vez mais presente no ambiente, e disse ao ruivo carrancudo:
--- Eu gosto daquela música: Cuidado, Cuidado, senão você dança!
--- Canta direito! Disse o ruivo rindo.
Por um instante, alguns gritos ecoaram no recinto e uma pequena confusão:
--- Está olhando o que, “mermão”?
--- Quem? Eu?
--- É, você mesmo!
--- Eu não to olhando para você, tá loco?!
--- Agora não está?Seu covarde!
O dono do bar, logo acabou com a confusão:
--- Aqui não! Sai para lá!Aqui é um bar de família!
Subitamente, o homem com mania de perseguição levantou o copo que estava em sua mão e lançou abruptamente a cerveja no rosto do suposto perseguidor.
--- O que é isto?Está louco?
---  É que eu não vou com a sua cara! Disse com ar de deboche o perseguido.
--- Ah! Eu também não vou com a sua e nem por isso fico jogando cerveja na sua cara! Respondeu furiosamente o suposto perseguido. Pensando que o sujeito estava louco, optou por ignorar, levantou-se e foi embora. Passou pela sua cabeça se deveria ou não revidar, desejou que aquele sujeito não saísse com uma mulher por um ano, que contraísse qualquer doença venérea, mas só resmungou: “vai para o inferno você e sua cerveja quente!”
No bar tem sempre aquele que fala sem parar e aquele que não fala nada, tem o cara que pede tudo e o que faz questão de pagar tudo! A única coisa que é difícil ter em bar é limites quando o assunto é parar de beber. Na roda de amigos a conversa vai ficando cada vez mais animada.
--- Odeio a Lei Seca! Disse embriagado o amigo motorista.
--- Eu também, malditos políticos corruptos! Exclamou bravamente o anti-governista.
--- É culpa daquela mulher da rede globo e agora vou preso r igual bandido? Indignou-se o anti-mídia golpista.
--- Tá certo cara, você não está em condições de dirigir! Tá bêbado! A lei está certa! Protestou o amigo a favor da Lei Seca.
-Eu não sou bandido, eu pago meus impostos! Continuou esbravejando o motorista.
Logo começou com ar de discurso o amigo economista:
--- A solução é pontual e não estrutural. Precisamos transporte público, porque o trabalhador labuta o dia inteiro e só quer beber sua cerveja com os camaradas em paz! E o que ele faz? Não pode mais beber? Não é justo, precisamos de condução e condição.
Surge mais um companheiro de bar e diz:
--- Na Europa tem transporte público a noite toda, o cara bebe e tem como voltar para casa.
--- Vai pagar pau para gringo para lá!Vá! Na Europa! Aqui é Brasil.
De repente, no meio da conversa tão intensa e inspiradora, surge desnorteado o amigo enólogo:
--- Ei, vocês preferem vinho Cabernet ou Merlot? Será que Cabernet harmoniza com torcida pimenta mexicana?
--- Eu prefiro o que tiver!Que frescurada é esta?
--- Ei Fião, quantas cervejas já bebemos?
--- Vixi, to guardando as tampinhas, mas não sei aonde foram parar.
No meio da conversa, o amigo que não resiste a uma piada perguntou:
--- Ei, sabe qual é o cara mais feio do mundo?
--- Não, qual? Diz o amigo dentro da lei.
--- Pergunta para sua mãe! Hahahaha.
Animado e cantando entra mais um amigo no bar:
--- Now I Wanna be your dog! Desce mais uma, please, thank you!
Telefone toca, e o amigo economista atente, é a sua esposa. Ele se locomove rapidamente para fora do bar, enquanto os amigos gritam e riem: “é a polícia!”
--- Oi amor! Estou com meus amigos. Só com os amigos. Juro, só tem homem aqui. Voz de mulher? É que estou na rua. O que você quer que eu faça, que proíba as mulheres de andarem na rua? Eu to indo embora logo mais, falta a saidera. Só a saidera amor, e a cortesia da casa, mas esta eu nem sei se vou beber. Daqui trinta minutos, talvez quarenta. Claro que não tô bêbado. Não estou falando mole, é que a ligação está ruim.Sim, estou lembrando do aniversário da sua mãe, como poderia esquecer? Só a saidera. Eu juro! Beijos...
 Como todos sabem, a saidera nunca termina, a cortesia é sempre os amigos que pedem, e  ele jamais se lembraria do aniversário da sogra.
 De repente, o som começa a tocar e alguém grita “Eeeeeeeeeeee!” E todo mundo “Eeeeeeeee!” É uma música que todos conhecem, e começam a dançar e abraços e pulos e você é meu amigo!
            Quando chega a hora de ir embora, melhor ir de táxi. O condutor do veículo, apesar de um desconhecido, também será o seu melhor amigo e a conversa flui sem muito nexo.
--- Este ponto de taxi que você ficou esperando é perigoso, tem sempre uns nóias aí, melhor ir para outro ponto, por acaso eu estava passando e parei. E o cara responde: --- é perigoso mesmo, você tem que tomar cuidado, a vida de taxista está ficando perigosa. E aí, muita corrida?
--- Agora está melhorando.
--- É lei seca né? Huuummmm!Tá faturando!.
--- Aonde é que você vai ficar?
---Ah é fácil, esquerda, depois direita, desceu e chegouuu, entendeu? Vamos de novo: esquerda, depois direita, desceu e chegouuuu...uhhhh...é fácil!
--- Pelo jeito, a noite foi boa, hein?
--- É, está quente, eu gosto de frio! Olha aí, o taxista toca rock no carro dele!
--- Eu gosto de música!
 Quando se está bêbado tudo é motivo de riso, e o carro morre.
--- Morreu? Ainda bem que não fui eu! Esquerda, direita, desceu e chegôôôuuu, é muito fácil!
O taxista ri e vê que a conversa não irá fluir, segue o caminho, pois logo o seu melhor amigo irá descer e se preparar para a próxima dose.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Quando eu era uma menina


Passeando por entre as flores, cabelos amarelos e embaraçados, ouvindo a beleza dos cantos dos pássaros, cantarolando alguma canção infantil, livre, alegre, sem pensamentos que pudessem alterar o rumo das coisas, sem pensamentos que penetrassem o corpo, aguçando uma doença, uma cobrança, apenas brincando, ingenuamente, rodando, subindo em uma árvore, roubando uma fruta, sentindo sabor, refinando os sentidos, sorrindo, gargalhadas ao vento, somente por ver dois cachorros rolando, se mordendo.
Na vida é inevitável: a gente cresce, fica diferente, enxerga coisas que os olhos meninos não podem alcançar! Existem coisas boas, momentos bons, momentos mágicos, como aqueles em que recebia cartinhas de desconhecidos, que me contavam suas vidas, compartilhavam suas histórias, seus momentos, e eu desejava a felicidade de cada um, mesmo sem olhar nos olhos, tocar na mão, ouvir a voz. E hoje me pego com cartinhas amareladas, com adesivos intocados, com vidas em transformação, amores platônicos, cartas com símbolos de uma adolescência de som, fúria, ideologia, transformação, alias estas cartas retratam tão bem esta época, torna-se incansável ler cada uma delas. Valdeci, por onde andará meu amigo de confidências, de poesias, de zines, de banda? Como é bom saber que existiram pessoas que compartilharam momentos históricos da sua vida, em meio às turbulências punk rock, já li cartas anunciando a chegada de uma nova vida, de novas esperanças e de novos rumos.
A vida passou, e estou viva, recordando momentos, não com um pesar de querer voltar ao passado, mas com  a curiosidade de saber como será o meu próximo presente, amanhã, acordando esfregando os olhos marejados, com horário fixado, com a vida marcada.
Penso nos amigos de ontem, de hoje e de sempre, penso. Inexiste o vazio quando se tem em quer pensar, falar, a quem abraçar, mesmo que seja uma árvore, aquela de quando eu era menina, que me emprestava seus “braços” para que eu deitasse quando estava com preguiça, que me segurava quando resolvia brincar de vampiro. Nela eu via o mundo de cima como se nada fizesse sentido no chão. 

Cérebro de Galinha


            Morar no interior traz inúmeras vantagens, por exemplo, conviver com árvores frutíferas no quintal, admirar o canto dos pássaros livres, sentir a brisa fresca de cada manhã, ver o céu à noite e toda sua intensidade e podemos ter galinhas, como animais domésticos.
            Talvez ninguém se importe com o comportamento das galinhas, mas elas nos surpreendem, pensamos que elas não pensam, mas talvez quem não pense somos nós e é por isso que decidi relatar um “causo” ocorrido aqui na minha casa em Maylasky, onde galinhas passaram de figurantes a personagem principal.
            Nós sempre tivemos galinhas, e elas sempre fizeram o que todas as galinhas fazem, ciscavam e botavam, até que um dia, meu tio ganhou quatro galinhas em uma loja de móveis. Na chegada em casa, ele disse: como temos quatro galinhas elas irão se chamar: “Marta (minha tia), Viviane (minha prima), Luiza (minha priminha de oito anos) e Paulinha (a autora deste texto) e assim como num feitiço as galinhas incorporam nossas almas e passaram a ter comportamentos estranhos. Assim como a minha tia, a galinha Marta era extremamente organizada, e só botava em cima de uma bandeja na cozinha caipira da minha mãe, em cima da geladeira. A galinha Luiza voou para a casa da vizinha e não conseguimos mais ela de volta, porque ela se tornou praticamente um cão de tão fiel e comportada, a melhor amiga da Manu, uma menininha de cinco anos. A galinha Viviane está sempre numa boa, sempre se divertindo no galinheiro e se dá bem com todas as galinhas. A galinha Paulinha, se engraçou com o galo, depois botou 12 ovos na minha lavanderia, e quando vimos era tarde demais para retirar os ovos e assim nasceram oito pintinhos.
Pensando na minha priminha Luiza, lembro-me que quando ela tinha dois anos e meio de idade, fez perguntas que só crianças são capazes de fazer: Por que tem um galo para um monte de galinha? Você não acha que deveria ter um galo para cada galinha? A minha mãe só namora com o meu pai, então não está certo um galo ter várias namoradas, né?!. E foi num tom completo de indignação! E a gente fica cara de boba, tentando explicar porque não existe monogamia no mundo das galinhas. Mal sabia que depois desta pergunta, minhas reflexões sobre os comportamentos das galinhas passariam incrivelmente por Freud, Marx e George Orwell, embalados pela canção de Gonzaguinha: “eu prefiro a pureza da resposta das crianças (...)”.
            Voltando ao causo: a galinha Paulinha começou a morar na minha lavanderia, não queria saber de galinheiro coisa nenhuma, e não desgrudava de seus pintinhos de jeito nenhum. Eles mal cabiam na caixa e ela lá em cima de cada um deles, cuidando, olhando. Podemos chamar de síndrome da pós-modernidade, pois os pintos já estavam frangos e não desgrudavam da mãe, mesmo estando prontos para seguir o seu próprio caminho.
            A galinha Paulinha habitou até a gente não agüentar mais o fedor dentro da minha lavanderia, eram nove bichos defecando o tempo todo e decidimos que eles voltariam ao seu habitat natural. Só que ela não entendeu isto, ficou revoltada e todos os dias subia para tentar entrar na lavanderia, e quando não conseguia, voava para o nosso quarto. E vamos nós correndo atrás da galinha, e tentando tirar ela de casa e popopoóóóóóóó´, popopóóóóóóóó´, até sua saída. Certa vez fui pegar minha bolsa em uma mesinha onde deixávamos todas as nossas bolsas e quem estava lá: a galinha Paulinha botando. Mais uma vez vamos lá tocar a galinha e pópóóóóóóóó´, para cá, popopóóóóóóóóóó para lá, até ela sair. E com o passar do tempo, ela foi espalhando a possibilidade da revolução no galinheiro, e todas as galinhas começaram a subir para tentar invadir nossa casa e sempre é a mesma coisa, você corre atrás da galinha e olééééé´, popóóó, galinha dá uma canetinha, popóóó, galinhas dão dribles da vaca e freneticamente pópoóóóóóó, popopóóóóóó, póóóóóóóóóóó, até descerem ao seu habitat natural. A última galinha botou dentro do meu cesto de roupas e até agora estamos perplexos com agilidade da dita cuja.
            Então nunca duvide da capacidade de um animal pensar, nós humanos somos prepotentes e dominadores, somos nós os reis da natureza, mas são as demais criações da natureza que acabam por nos surpreender. Então se alguém te chamar de cérebro de galinha, sinta-se privilegiado.

                       

segunda-feira, 25 de março de 2013

HIPOCONDRÍACO

Não sei o que acontece comigo, mas sempre me interesso por programas que falam sobre doenças. É como se fosse um vício, me entreter com cada sintoma, com cada profilaxia!
Hoje na hora do almoço havia um programa falando sobre diabetes. Um médico de 50 anos, jaleco branco, grisalho, 1,75m, e é japonês, o que me passa a sensação de que tudo que ele falar será milenar, preciso. Na maioria das vezes, Japoneses me intimidam. Penso no que o Senhor Miyagi fez com o Daniel San, e concluo que eles realmente sabem o que fazem.
O médico começou a falar com ar inquisidor:
- A maioria das pessoas que tem diabetes tipo 2 não sabe, pois ela é pouco sintomática, disse o doutor.
O apresentador:
- A alimentação interfere nos níveis de diabetes, doutor?
- Sim. A alimentação interfere não só na diabetes, mas outras doenças podem ser causadas pela má alimentação, hoje em dia as pessoas comem alimentos muito gordurosos, industrializados e com muito açúcar e sal na composição.
Senti um calafrio na espinha. Eu poderia ser atingido, afinal de contas era jovem, e havia acabo de comer uma lasanha quatro queijos de microondas e havia sorvete para a sobremesa.
O apresentador continuou a perguntar.
- Quais os sintomas doutor?
- Cansaço
Logo lembrei que havia estado mais cansado nestes últimos dias. Comentei ontem com os colegas de trabalho, que não achava normal sentir tanto sono. Comecei a ficar ofegante.
- Manchas pelo corpo, disse o médico.
Comecei a olhar para os meus braços, pernas e costa e logo percebi que havia algumas manchas, pensei: Será?
- Sede excessiva.
Projetei meus olhos para o copo de suco e realmente havia uma coisa diferente, eu havia bebido mais água nos últimos tempos, já não almoçava sem líquidos, e minha boca por um instante começou a ressecar.
- Aumento excessivo do apetite.
Não! Ele deve estar falando comigo! Não é possível, estou comendo muito ultimamente, alias só penso em comer!
- Perda de Peso
Ufa! Ainda bem que não emagreci, ou emagreci? Não sei. Há quanto tempo não me peso? Será que tenho uma balança em casa? Não! Não! Não perdi! Não perdi! Olhei para minha barriga, para minha calça, sinto-me um pouco mais magro! Cadê a balança?
- Visão turva, embaçada.
Parece que a TV está embaçada, mas não está. Deve ser porque estou nervoso, chorando. Ontem peguei o ônibus errado porque estava distraído, o letreiro não estava embaçado, não estava. Respiro fundo, tento manter a calma. Qual será o próximo sintoma doutor?
- Urinar várias vezes, principalmente durante a noite.
Estou desesperado: sou eu, sou eu, doutor! Acordei três vezes para fazer xixi, pensei que fosse a cerveja, mas é diabetes. Verifico se o programa é ao vivo, se tem um canal para perguntas. Vou mandar um e-mail, talvez um torpedo, existe fax ainda? Estou em pânico.
- É importante que o dignóstico seja feito o quanto antes!
- Mãããããããe, estou com diabetes, por favor, me ajude! Gritei desesperado!
- Quem te disse isto meu filho?
- O doutor Sakamura ao vivo para todo o Brasil.
No fundo a TV continuava ligada e o apresentador dizia:
- Falaremos agora sobre glaucoma.
- Quais os sintomas doutor?