segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FILOS SOFIA


Na vida, sempre amei sem ser correspondido, é difícil acreditar em cara metade, em alma gêmea quando tudo dá errado na sua vida, mas sempre tento manter a esperança mesmo na minha descrença.

Sou músico, toco na noite e tenho um estúdio onde dou alas de percussão. Não é fácil ter dinheiro quando se escolhe essa vida, pois a grana é sempre curta. Porém, música é alma e ela me alimenta, independente dos míseros cachês . Infelizmente, os bares e casas pensam que não é um trabalho e sim uma diversão, e chega ser sofrível negociar cachê. E nesse mundo perverso conheci Lúcia. Uma morena, baixa, olhos castanhos e rasgados e foi na fila do banheiro. Ela me olhou profundamente e logo estávamos ali atacarracados por uma força maior, rolou química e tesão.

Ela no bar me puxou para o banheiro e logo me vi entregue e pensando que mulher seria aquela, tão determina em suas paixões. Creio que a fila aumentou nesse tempo, mas ninguém se atreveu a interromper nossos espasmos naquele banheiro sujo, tosco e fétido. Naquele momento me apaixonei! Era a mulher da minha vida! Porém, após o coito ela saiu sem falar nada e fiquei ali pensando no que tinha acontecido. E gritei Lúcia, aonde vai!?E ela disse adeus. Fiquei paralisado e logo desci as escadas atrás do amor da minha vida e não acreditei no que pude ver. Sim, lá estava Lúcia abraçada com uma mulher da sua altura e tão morena quanto. Eu perguntei o que era aquilo e ela disse:

- Tá louco, sai daqui!

- Você me deve uma explicação.

- Esse cara é louco amor! Que você quer?

- Quem é ela, Lúcia?

- Minha esposa e não te interessa. Vamos amor sair daqui.

Fiquei mais uma vez em choque e arrependido de ser tão fraquinho de não resistir a esse amor pueril, por ficar excitado tão rapidinho, por ter saído com uma mulher casada com outra mulher. Fui juntar meus instrumentos e meus cacos e descer Augusta, reflexivo em meio aos seus reflexos da madrugada. Chegar ao Anhangabaú demorou naquela noite.

É difícil pensar em amor se levar em conta os casos da vida noturna, pois são rápidos, passageiros e fugazes. Nem sempre existe uma pessoa disposta a falar sobre as coisas da vida e aprofundar a relação. Às vezes, pego telefones que não vou ligar e às vezes ligo e sou ignorado.

Geralmente, estudo um pouco de dia antes de receber meus alunos. Dou aulas à noite, pois prefiro as tardes durante a semana. A rotina de tocar em bar esgota um pouco, então prefiro ir ao cinema, teatro e às vezes passear pela Teodoro. Pena que os instrumentos no Brasil sejam tão caros. Gosto de instrumentos turcos, indianos e não consigo comprá-los tão imediatamente. Minha onda agora é tocar tabla indiana, o som me transporta para um outro universo, há uma conexão mística que transcende e o tempo inexiste naquele momento. Gosto de cantar alguns mantras e meditar e numa dessas eu conheci Sofia.

Sofia era uma menina meiga, loira, estatura média, corpo violão e que sabia tudo sobre meditação, ela podia doar energia. Ela falava do mundo com amor e do amor como único e ali estava eu, perdidamente apaixonado por aquela criatura doce e sexy ao mesmo tempo. Era conectada com a natureza. Depois de muitas conversas sobre óleos, florais, massagens e Deeksha, ela me deu um beijo e conheci sexo tântrico no mundo de Sofia. Passávamos as tardes juntos, parávamos para ver o pôr do sol, o canto dos pássaros e se perder em beijos molhados e demorados e foi num desses dias que a pedi em casamento. Ela disse sim e foi assim que decidimos construir nosso lar. Ela dizia que iríamos fazer uma casa sustentável e seus olhos brilhavam ao falar de sistema de captação de água da chuva, ela crescia junto com as plantinhas do nosso telhado vivo e deixava tudo mais colorido com nossas tintas orgânicas. Nós temperávamos nosso amor plantando temperos na nossa hortinha e transbordávamos em luz com nosso teto solar. Até que fui calcular as despesas desse nosso sonho e começou a bater um desespero profundo.

Sofia não tinha um trabalho convencional, vivia de suas terapias e ela doava mais do que recebia, pois ela dizia que era missão. E eu músico, tocando em bares quase por merreca e com poucos alunos na escola. Bem, tenho meu estúdio e se eu der aulas somente de bateria e percussão. Sim, é o que mais gosto de fazer apesar de saber tocar instrumentos de corda. Vendo meu baixo, minha tabla, minhas caixas e meus pedais. Juntando tudo dará uma boa grana e foi assim que fiz. Vendi tudo que era possível e fui negociar terrenos. Sofia me ligava animada com nosso sonho.

Após anunciarnos sites de vendas, consegui pegar uma grana. Conversei no banco e consegui um empréstimo e eis que encontrei um imóvel com quintal e tudo, como havíamos sonhado. Conversei com o proprietário e dali seguimos para a imobiliária. Fechamos o contrato e paguei a primeira parte da casa. Havia um sorriso incontido e a vontade de ligar para Sofia, porém o dia tinha sido extremamente corrido e não havia dado tempo. Senti saudades da sua voz e cheguei a ficar preocupado, pois não havia nenhuma ligação dela no meu celular. Enfim, cheguei em casa e me deparei com o vazio do meu estúdio, mas era por uma boa causa, indiquei os alunos para alguns colegas e estava tudo certo. Casaria, amaria e viveria feliz para sempre ao lado daquela mulher. Pronto para contar a novidade para Sofia, porém a campainha tocou e era Roberto,que tocava violão em uma das bandas da noite.

- Apareceu um show agora num barzinho. Tá afim de tocar comigo?

Agora com o casamento não podia recusar trabalho e depois ligo contando as novidades para Sofia.

- Claro! Só pegar os instrumentos e já vou.

- Cara, o que você fez com seus equipamentos?

- Vendi, vou casar.

- Vendeu tudo?

-Sim, precisava comprar minha casa.

- Você é louco? A gente usava o equipamento para tocar e você alugava para gravar também.

- Cara, foi questão de urgência. Logo reponho tudo. Tenho que aumentar o número de alunos e seguir em frente. Vai dar tudo certo! Vou ser o cara mais feliz do mundo! Tenho a mulher mais incrível do universo.

- Cara, a vida é sua, mas você devia ter feito as coisas com calma.

- Um homem apaixonado faz qualquer coisa para ficar perto da mulher que ama!

- Tem doido para tudo, né? Bora tocar então, antes da forca descer.

Cheguei tão cansado aquele dia que não tive forças sequer para ligar para Sofia e ela também não havia me ligado e isto me intrigava. Talvez ela tenha ficado até mais tarde na Deeksha ou talvez ela tenha ficado cansada e dormido mais cedo. Talvez seja melhor ligar agora para Sofia.

- Oi Amor.

- Oi

- Tudo bem?

- Tudo.

-Você não sabe o que tenho para contar.

- O que?

- Comprei nossa casa

- Aé?

- Como assim? Aé? Ei, comprei nossa casa! Falta o sistema de captação, o teto solar, mas a gente vai fazendo isso aos poucos.

- Ahã

- Tudo bem? Você não me ligou e está estranha.

- É, passei o dia ocupada!

- Nossa, você nem me ligou hoje.

- E o que mais você tem para me dizer?

- Como assim? Eu disse que comprei nossa casa! Não é uma notícia para preencher um dia inteiro?

- E só isso?

- Fui tocar agora à noite para conseguir mais dinheiro e aquele site de vendas pela net funciona mesmo. Consegui vender inclusive a tabla em tempo recorde.

- Então se é só isso que tem para me dizer já está dito.

- Amor, o que houve? Eu não estou entendendo.

- Márcio, não me chame mais de amor. Nós não nos casaremos mais.

- Isso só pode ser brincadeira, Sofia. Como assim? Acabei de comprar uma casa.

- Hoje é meu aniversário e você não se lembrou.

- Amor, meus parabéns! Nossa! Como eu poderia me esquecer! Me desculpe, mas é que o dia foi tão cheio e acabei esquecendo.

- Não caso com quem esquece meu aniversário.

- Sofia, para de ser boba.

- Márcio, foi bom te encontrar, mas é isso o que tenho a lhe dizer. Não me procure mais! Se você acha que a casa é mais importante do que eu, fique com ela.

- Amor, só pode ser brincadeira. Eu vendi meu estúdio, me endividei todo para comprar essa bendita casa, a gente ia casar, ter filhos e praticar yoga todas as manhãs.

- Adeus, Márcio.

Tu tu tu tu tu...

Eu não poderia acreditar no que estava acontecendo. Um súbito desespero tomou conta do meu ser. Olhei ao redor e minha casa praticamente vazia. Peguei o contrato no aparador e junto com ele contas e aluguel. E eu ali desolado e sem saber o que fazer.

Liguei para a Sofia novamente e nada. Amanhã vou na casa dela, não é possível uma coisa dessas.

Passei o dia cercando a porta e sua mãe disse que ela não estava.E montei uma barraca e nada de Sofia sair.

A mãe dela me levava água e comida e mandava eu ir embora. Disse que o aniversário era uma coisa muito importante para Sofia e que eu havia cometido o erro mais grave que um homem poderia cometer.

Depois de uma semana tentando, eu tive que admitir aquela máxima escrita por Pascal que todos conhecem: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

escrito por: Paula Rizzutti em 20/02/2015

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SEPARAÇÃO



Olha no relógio
Bate o pé
Milhares de pensamentos
Transitam insistentemente
Respira
Controla-se
E se...
Melhor não.
Remete-se ao passado
Vê coisas que jamais deveriam se apagadas
Olha para o telefone
Ligar ou não ligar?
Talvez uma mensagem
Bebe um copo d´agua
Orgulho, carências ou desilusão?
Medo do silencio do outro lado
Lágrimas
Acabou
Mas ...
É hora de mudar a direção
Comprime-se
Respira
Agoniza
Um suspiro
Olha para caixa de mensagens
Nada está lá
Não haverá
Perde-se nas horas
Indecisão
Uma tentativa?
O dia passa
Anoitece
Amanhece
E novamente olha para relógio
E novamente vem a vontade de buscar o que foi perdido
Mas perdido está.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

HORIZONTES

Não há nada de errado 
Apenas é uma condição
Às vezes rir e às vezes chorar
Às vezes acreditar e desacreditar
Porque nada é estático ou indivisível
Apenas somos uma confusão em nós mesmos
Porque o aprendizado é o se deve levar de uma discussão.
E que existam asas na nossa imaginação
Para aprumar o que sobra quando há uma perda ou desilusão
Para vislumbrar horizontes quando buscamos um caminho.

 Paula Prestes 02/05/2013.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A VOZ DO SILÊNCIO

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.

Martha Medeiros

sexta-feira, 14 de março de 2014

ENJAULADOS


Nasci comprometido
Já havia um destino previamente traçado
Na mente de criança a liberdade
A vontade de voar sem asas
Mas não havia tantas escolhas
Havia um destino pré-determinado
Blasfemei quando disse que escolhi
No entanto estava ali
Seguindo o mesmo caminho de todos
Estudar, trabalhar, sucumbir.

(Paula Prestes)

Ps:Radicalismo, talvez. Mas são poucos momentos que dedicamos a vontade do nosso corpo, o que ele pede e nos ensina. Porque nos cobramos o tempo todo para "ser alguém na vida", frase esta que detesto, pois eu como ser já nasci e já sou!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Obra de Arte

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 doMensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.

Anton Pavlovitch Tchecov

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

SONETO DE NATAL


Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901, pág. s/nº.