domingo, 6 de março de 2016

CONDUÇÃO



I - Trabalhador

Já era tarde e João voltava para casa depois de uma jornada intensa de trabalho. Na fábrica, os sons das máquinas ditavam o tempo e o seu movimento, não poderia deixar os seus pensamentos fluírem para não perder o tempo da máquina, que as suas ilusões fiquem para os dias de domingo onde não haverá supervisor, relógio, meta, pressão e talvez esteja cansado para pensar. Levanta-se, beija a mulher, leva o cachorro para passear, passa na padaria para comprar o pão e leva pão de queijo e mortadela, assusta-se com os preços estampados nas guloseimas, passa no caixa, deixa claro suas opiniões sobre os súbitos aumentos, o vendedor diz que é a crise, saca o vale refeição, saldo insuficiente, pede o saldo, complementa com suas moedas, deixa o cachorro e a compra em casa, vai para o futebol, joga até as onze, bebe até as doze e vai para casa fatigado, abre outra lata, vê programas de esporte, aguarda a hora do jogo, fica feliz com a vitória do seu time, toma banho, coloca o noticiário, cochila, vai para cama e amanhã é segunda e relógio de ponto o aguarda com a pontualidade excessiva, ônibus, trem, em levanta e senta, caminha, corre, segura a porta e vai. A história se repete aos longos dos dias, fica atento aos seus pertences, escuta surdamente: água, coca, tridente, fone de ouvido, bala de gengibre, chocolate e segue. Vai chegando aos destinos e levanta-se firmemente entre um cochilo e outro, não há escolha e de repente caem todas as coisas da sua carteira e espalham-se no chão: RG, bom, bilhete único, vale refeição. Conta com a ajuda da pessoa ao lado, recolhe seus pertences e segue o seu destino.



II – Bêbado

O ônibus para no ponto como de rotina, entram os passageiros para chegarem aos seus destinos e uma voz diz:

- Vai Zica, entra logo!

As pessoas cansadas do dia intenso olham com curiosidade:

-- Zica é o caralho! Diz uma voz embriagada e abafada por uma salsicha entre os dentes.

O casal entra discutindo e a mulher ajuda o homem a sentar em segurança, pois balança de um lado para o outro segurando sua sacola com pacote de salsichas.

Ela diz: --- E aí Josué, termina de contar sobre a obra.

Ele diz: A obra é da prefeitura e eu tenho parte disso, são meus parentes que ...que ...que...O vereador passou a mão no dinheiro...

Ela diz: Que? E o que tem haver com a obra

- Que obra?

- Você estava falando da obra

- Eu?

-- Você

--- Tá doida?

A mulher suspira e se incomoda com a embriaguez! Ele violentamente a xinga: sua vadia, não preciso de você para nada, não vou mais para sua casa, enfia seu apartamento no rabo. Os passageiros entram num certo pânico, alguns ficam prontos para maiores confusões! A mulher diz que ele que vá embora então para casa dele e ele pega seu saco de salsicha e dá sinal para o ônibus parar! Ela diz sorrindo: Tchau, Zica! Vá para Inferno! No seu olhar um medo, porém mantém a postura de que está tudo bem, passam 3 pontos e ela desse e reza para chegar logo ao seu destino.



III. Os bilheteiros

E todos os dias eles ocupam seus turnos na estação, vestem seus uniformes, contam moedas, pedem trocados, veem todos os tipos passando pela sua cabine! Alguns reclamam da demora, outro do valor das passagens, outros da qualidade do transporte, outro dos atrasados, outros da fila e ao passar do dia nem sabem quantas pessoas viram transitar pelos seus olhos. Estão cansados e vão para casa também de transporte público, são 11 horas da noite. E apesar de cansados, emanam um ar de felicidade e dirigem ao cobrador do ônibus de todos os dias:

- Tô sabendo que a China comprou o Itaquerão! E ri sozinho! Vai se chamar China in Box! E ri!

Ao mesmo tempo conversa sobre a rotina do trabalho, aliás fala o tempo inteiro e seu amigo ouve atentamente cada história de futebol, de chefes, da morena que compra bilhete às 16h todos os dias, da faxina de casa, das suas compras na 25, do churrasco do final de semana, fala com a moça do cara da salsicha: toma cuidado, esse cara é perigoso! Fala do fechamento de caixa, suas contas matemáticas e dos problemas de sindicato dentro da CPTM, fala do governo, do preço da gasolina, fala novamente com o cobrador: Vai chamar Itaquela! Ri sozinho! E seu amigo vai balança a cabeça a cada história e monossilabicamente diz: sim, ou não, pois é, complicado! E os assuntos vão se estendendo sobre o cachorro do vizinho, da violência, da política até chegarem ao seu destino.



IV. A Mulher

Ela acorda às 6h, deixa as crianças no colégio, vai para o trabalho, é faxineira em São Paulo, possui apenas ensino fundamental, sofre de problemas na bexiga, o que faz ela exalar um cheiro forte, sempre se afasta das pessoas, senta sozinha, observa taciturnamente a cada movimento, fica assustada com a discussão e não consegue acompanhar o diálogo do seu vizinho e pensa: como fala! Jesus! Está cansada nesse horário, sua jornada não é fácil, trabalha mais de doze horas, precisa dar conta do café, do almoço e do jantar dos patrões, é sua obrigação, mal vê seus filhos, o marido foi embora, tem um olhar triste, sente-se invisível aos olhos da multidão, não consegue reconhecer sua fortaleza, são 3 conduções diárias, 3 horas para ir para o trabalho e 3 para voltar, ela só queria dormir um pouco, mas ainda precisa preparar a comida do dia seguinte para seus filhos, um deles está complicado, não aprende direito, pensa que ele tem algum problema, mas não sabe qual, queria conversar com a professora, mas o horário não bate, ela diz todos os dias para ele estudar para ser alguém na vida, para arrumar um emprego bom, o menino mal consegue escutar, no horário da chegada apenas beija e abraça a sua mãe, já não consegue vencer o sono, esperou o dia todo, sonha em encontrar o pai. A menina já está com o pijama e diz: mamãe quero leite e ela vai fazer a vontade de sua menina.



V. A Estudante

É seu segundo ano na universidade, sua mãe disse que não havia recursos para faculdade privada, ela se esforçou para ir bem no ENEM e nos vestibulares. Passou! Apesar de nunca ter passado fome, ela também é da periferia! Seus pais são professores no Estado! Trabalham em diversas escolas para cumprir a carga horária, estão cansados, já buscaram licença médica algumas vezes, estão desmotivados! Ela por sua vez escolheu o mesmo caminho, o ensinar, e Letras é o que ela faz, adora literatura, principalmente Clarisse Lispector! Encontra-se em cada texto que lê, viaja, reflete! Segura um exemplar nas mãos de Água Viva e mentalmente lê várias vezes um trecho que lhe chama atenção: “ Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”. Distrai-se por um instante com a confusão do bêbado, pensa em Pitágoras: “Cala-te ou diga coisas que valham mais que o silêncio. ” E logo em seguida, há uma mescla de raiva pelo sujeito, medo pela mulher, toma suas dores como se fossem as suas, tenta acalmar seus pensamentos, os homens atrás não param de falar um minuto, o cobrador conversa às gargalhadas com um passageiro, eles ignoram a violência. Respira e pensa numa frase que leu outro dia: “A violência é o último refúgio do incompetente. ” A sua mente está barulhenta e confusa, ainda há trabalhos para fazer, há coisas para ler, está com fome, tem economizado com alimentação fora de casa, leva sempre um lanche e hoje esqueceu, e a ansiedade aumenta a sua vontade, não presta atenção na mulher quieta e sua história, talvez aquela mulher de Clarisse pudesse acalmá-la com seu olhar solidário, o ônibus para e o bêbado desce, não se conforma com a cena toda, há um disparar no seu coração, qual seria o destino daquela mulher? Ela ficaria bem? Acalma-se, respira fundo e volta a ler : “ O que te direi? Te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver assim? Ai de mim, que tanto morro”.

Escrito por Paula Rizzutti

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

NAMORANDO- SE

E num dia de sol ela decidiu que iria se namorar
Espreguiçou-se lentamente
E levantou com o pé direito
Escolheu a melhor toalha
A melhor roupa
Os melhores sais de banho
Banhou-se lentamente
Perfumou-se
Olhou se no espelho e sorriu
Disse a si mesma
Quão linda era
Escolheu o melhor penteado
A melhor roupa
Seduziu-se
Escolheu um livro,
Um filme, um passeio, ouviu a música
Olhou pela infinidade da sua janela
Acolheu o silencio
Vivenciou as vontades de seu coração
Comeu a melhor comida
Fez aquele curso sobre o café
Publicou-se com seu largo sorriso
Apaixonou-se por si mesma
E descobriu que era livre para seguir seus infinitos caminhos


Por Paula Rizzutti Prestes _ 13_08_2015

sábado, 2 de maio de 2015

Uma festa punk



São Roque, em meados de 1997 e início de 1998, fervilhava com bandas punks e hardcores. Bem, eram várias bandas com os mesmos integrantes, mas cada uma com seus estilos e nomes diferentes. Baseados nos princípios de justiça social, quebra de preconceitos, e da anti-musica, nós organizávamos “ Gigs” de punk/grind/hardcore. Éramos tão “do it yourself” que logo nos tornamos referencia para outras cidades. Vivíamos e nos relacionávamos com Noises, Griders, Streght Edges, Punks, Anarco Punks, Emos, Hardcores da mesma forma, não havia separatismos em São Roque. Amigos de todos os grupos, não nos importávamos com cobranças de determinadas pessoas, para determinas bandas não tocarem em nossos shows. Os nossos princípios de igualdade acabavam passando por cima de picuinhas “corporativistas” e que chamávamos até bandas rivais para tocarem juntas em nossos shows.
Quando não havia espaço (bares, salões), os shows eram realizados na minha casa em Maylasky, no quintal, ao ar livre. Certa vez choveu, e os fios do microfone ficaram expostos na grama molhada, e vocalista levou um choque. Ele sofrendo o choque e nós alucinados pensando que ele estava sendo performático. Este show para ele foi chocante e marcante para nós.
Os ensaios das bandas São Roquenses eram realizados no Crust Studio, agora minha atual casa, onde no meu quarto tenho pesadelos grindcores. Certa vez perguntaram para minha mãe se aqui era uma escola, de tantos adolescentes que vinham de mochila. Vó Maria ao final da tarde preparava aquele café para todos nós e lá se iam de 30 a 40 pãezinhos.
No meu aniversário de 17 anos, pedi para minha mãe que ela patrocinasse um show, e ela assim fez. Neste Gig organizado por mim, Anderson e Cristiano, chamamos as seguintes bandas: Araukana, She´s (minha banda de HC melódico), Againe (venderam muitas camisetas), Dischord (banda do meu irmão), SK Youth (saudades do meu amigo Marcelo) e Dance of Days. O show foi uma loucura, todo mundo curtindo muito. Regados a pão com mussarela (patrocinada pela mãe do Cris) e Plin Plin de Abacaxi (refrigerante da cidade).
Nesta época não havia facebook ou e-mails para espalhar notícias de shows. O cartaz era montando com recortes de Jornais, e os nomes das bandas impressos na matricial, recortados e colados. Depois tirávamos xerox em sulfite colorido e despachávamos via correio como carta social, que na época custava R$ 0,01 centavos de reais. Alias a carta era nosso meio de comunicação com bandas e fanzines, os carteiros já sabiam o destino mesmo que o endereço estivesse errado, mas todos os dias esperávamos ansiosamente pela correspondência, e quando não havia nenhuma ficávamos com um vazio imenso.
O show do meu aniversário, foi um marco, dando espaço para muitos outros no mesmo espaço e o slogan do cartaz passou a ser: São Rock não é uma Ilha. Depois deste show entramos na rota oficial das bandas nacionais e internacionais que estavam em turnês. Sempre na correria conseguíamos locais para as bandas tocarem e o público para ir ao show, mesmo que a missão fosse um dia, como foi o caso do show do Dead Fish em São Roque no meio da semana.
Os shows mais punks e grindcores eram organizados pelo meu irmão Anderson, pelo Waguinho e o Finão, todos integrantes do Dischord. Em um dos lendários shows realizados, eu estava na portaria e fui assaltada por uns usuários de craque da cidade. Muito ingênua deixei o dinheiro na caixinha em cima da mesa e fui explicar o preço dos ingressos, o menino pegou a caixa e saiu correndo e fui correndo atrás dele até chegar em uma vila, e eu gritava: vou te pegar filha da puta, volta aqui. Detalhe, quem me conhece sabe o meu tamanho, penso: a adrenalina faz o sujeito acreditar que é um gigante. Voltei sem a caixinha, sem os furtadores e sem o dinheiro. Este furto causou indignação em todos que estavam no show, até que alguém disse: eu conheço quem roubou, foi o Nardão! Outra voz: Você sabe onde ele mora? E ele respondeu: Sim. Neste instante todos punks, devidamente paramentados com seus coturnos, moicanos, camisetas de bandas, cintos de rebites, começaram ir atrás dos furtadores. Moicanos dominaram ruas e morros de São Roque, só que um detalhe: geralmente quando se leva uma vida muito fora dos padrões não se tem preparo físico. Então eram punks cansados subindo morros! Lotamos a caçamba da S10 do Hudson (dono da aparelhagem de som) e fomos atrás do tal Nardão. Imagine um monte de punk e skatistas na porta da casa do camarada e ele troca a camiseta para tentar me enganar. Eu quase voei nele e disse é você! Neste mesmo instante chegou a polícia e disse: Você de novo Nardão? Vai ter festa na delegacia hoje. Poxa vida, nós éramos contra a repressão e aí surgiu nossa dúvida ética.
A caminho da delegacia, polícia na frente juntamente com meu irmão e no banco de traz Eu, Nardão e Cristiano. Chegando a delegacia os policiais adoraram ver o meliante, e todos riam e diziam: festinha hoje. Momento de reunião entre Cris, Paula e Anderson, decisão: deixa para lá. O acusado ficou morrendo de medo, pois ele não sabia se valia mais a pena apanhar dos policiais, ou dos punks que estavam aguardando do lado de fora, mas nós não iríamos fazer nada com ele. E ele acreditava? Achou suspeita a retirada da queixa.
O nosso dinheiro já havia se perdido, sendo assim todos que estavam no show contribuíram para ajudar nos custos com aparelhagem e aluguel do salão, em um gesto de solidariedade. Este é o verdadeiro espírito punk rock.
Assim, passaram alguns meses meu irmão encontrou o Nardão no bar e ele agradeceu por aquele dia e pediu desculpas.
Várias tardes de ensaios com cara de shows, antigas noites de reunião e discussão, antigas idéias que permanecem até hoje dentro de nós, antigos debates marxistas X anarquistas, lindas amizades.
Existem mil histórias que eu poderia contar neste texto, pois foram muitos shows, muitas confusões e muita diversão, momentos que marcam a vida, muitas conquistas, muitas adversidades, muitos aprendizados. por Paula Andrea Rizzutti Prestes

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FILOS SOFIA


Na vida, sempre amei sem ser correspondido, é difícil acreditar em cara metade, em alma gêmea quando tudo dá errado na sua vida, mas sempre tento manter a esperança mesmo na minha descrença.

Sou músico, toco na noite e tenho um estúdio onde dou alas de percussão. Não é fácil ter dinheiro quando se escolhe essa vida, pois a grana é sempre curta. Porém, música é alma e ela me alimenta, independente dos míseros cachês . Infelizmente, os bares e casas pensam que não é um trabalho e sim uma diversão, e chega ser sofrível negociar cachê. E nesse mundo perverso conheci Lúcia. Uma morena, baixa, olhos castanhos e rasgados e foi na fila do banheiro. Ela me olhou profundamente e logo estávamos ali atacarracados por uma força maior, rolou química e tesão.

Ela no bar me puxou para o banheiro e logo me vi entregue e pensando que mulher seria aquela, tão determina em suas paixões. Creio que a fila aumentou nesse tempo, mas ninguém se atreveu a interromper nossos espasmos naquele banheiro sujo, tosco e fétido. Naquele momento me apaixonei! Era a mulher da minha vida! Porém, após o coito ela saiu sem falar nada e fiquei ali pensando no que tinha acontecido. E gritei Lúcia, aonde vai!?E ela disse adeus. Fiquei paralisado e logo desci as escadas atrás do amor da minha vida e não acreditei no que pude ver. Sim, lá estava Lúcia abraçada com uma mulher da sua altura e tão morena quanto. Eu perguntei o que era aquilo e ela disse:

- Tá louco, sai daqui!

- Você me deve uma explicação.

- Esse cara é louco amor! Que você quer?

- Quem é ela, Lúcia?

- Minha esposa e não te interessa. Vamos amor sair daqui.

Fiquei mais uma vez em choque e arrependido de ser tão fraquinho de não resistir a esse amor pueril, por ficar excitado tão rapidinho, por ter saído com uma mulher casada com outra mulher. Fui juntar meus instrumentos e meus cacos e descer Augusta, reflexivo em meio aos seus reflexos da madrugada. Chegar ao Anhangabaú demorou naquela noite.

É difícil pensar em amor se levar em conta os casos da vida noturna, pois são rápidos, passageiros e fugazes. Nem sempre existe uma pessoa disposta a falar sobre as coisas da vida e aprofundar a relação. Às vezes, pego telefones que não vou ligar e às vezes ligo e sou ignorado.

Geralmente, estudo um pouco de dia antes de receber meus alunos. Dou aulas à noite, pois prefiro as tardes durante a semana. A rotina de tocar em bar esgota um pouco, então prefiro ir ao cinema, teatro e às vezes passear pela Teodoro. Pena que os instrumentos no Brasil sejam tão caros. Gosto de instrumentos turcos, indianos e não consigo comprá-los tão imediatamente. Minha onda agora é tocar tabla indiana, o som me transporta para um outro universo, há uma conexão mística que transcende e o tempo inexiste naquele momento. Gosto de cantar alguns mantras e meditar e numa dessas eu conheci Sofia.

Sofia era uma menina meiga, loira, estatura média, corpo violão e que sabia tudo sobre meditação, ela podia doar energia. Ela falava do mundo com amor e do amor como único e ali estava eu, perdidamente apaixonado por aquela criatura doce e sexy ao mesmo tempo. Era conectada com a natureza. Depois de muitas conversas sobre óleos, florais, massagens e Deeksha, ela me deu um beijo e conheci sexo tântrico no mundo de Sofia. Passávamos as tardes juntos, parávamos para ver o pôr do sol, o canto dos pássaros e se perder em beijos molhados e demorados e foi num desses dias que a pedi em casamento. Ela disse sim e foi assim que decidimos construir nosso lar. Ela dizia que iríamos fazer uma casa sustentável e seus olhos brilhavam ao falar de sistema de captação de água da chuva, ela crescia junto com as plantinhas do nosso telhado vivo e deixava tudo mais colorido com nossas tintas orgânicas. Nós temperávamos nosso amor plantando temperos na nossa hortinha e transbordávamos em luz com nosso teto solar. Até que fui calcular as despesas desse nosso sonho e começou a bater um desespero profundo.

Sofia não tinha um trabalho convencional, vivia de suas terapias e ela doava mais do que recebia, pois ela dizia que era missão. E eu músico, tocando em bares quase por merreca e com poucos alunos na escola. Bem, tenho meu estúdio e se eu der aulas somente de bateria e percussão. Sim, é o que mais gosto de fazer apesar de saber tocar instrumentos de corda. Vendo meu baixo, minha tabla, minhas caixas e meus pedais. Juntando tudo dará uma boa grana e foi assim que fiz. Vendi tudo que era possível e fui negociar terrenos. Sofia me ligava animada com nosso sonho.

Após anunciarnos sites de vendas, consegui pegar uma grana. Conversei no banco e consegui um empréstimo e eis que encontrei um imóvel com quintal e tudo, como havíamos sonhado. Conversei com o proprietário e dali seguimos para a imobiliária. Fechamos o contrato e paguei a primeira parte da casa. Havia um sorriso incontido e a vontade de ligar para Sofia, porém o dia tinha sido extremamente corrido e não havia dado tempo. Senti saudades da sua voz e cheguei a ficar preocupado, pois não havia nenhuma ligação dela no meu celular. Enfim, cheguei em casa e me deparei com o vazio do meu estúdio, mas era por uma boa causa, indiquei os alunos para alguns colegas e estava tudo certo. Casaria, amaria e viveria feliz para sempre ao lado daquela mulher. Pronto para contar a novidade para Sofia, porém a campainha tocou e era Roberto,que tocava violão em uma das bandas da noite.

- Apareceu um show agora num barzinho. Tá afim de tocar comigo?

Agora com o casamento não podia recusar trabalho e depois ligo contando as novidades para Sofia.

- Claro! Só pegar os instrumentos e já vou.

- Cara, o que você fez com seus equipamentos?

- Vendi, vou casar.

- Vendeu tudo?

-Sim, precisava comprar minha casa.

- Você é louco? A gente usava o equipamento para tocar e você alugava para gravar também.

- Cara, foi questão de urgência. Logo reponho tudo. Tenho que aumentar o número de alunos e seguir em frente. Vai dar tudo certo! Vou ser o cara mais feliz do mundo! Tenho a mulher mais incrível do universo.

- Cara, a vida é sua, mas você devia ter feito as coisas com calma.

- Um homem apaixonado faz qualquer coisa para ficar perto da mulher que ama!

- Tem doido para tudo, né? Bora tocar então, antes da forca descer.

Cheguei tão cansado aquele dia que não tive forças sequer para ligar para Sofia e ela também não havia me ligado e isto me intrigava. Talvez ela tenha ficado até mais tarde na Deeksha ou talvez ela tenha ficado cansada e dormido mais cedo. Talvez seja melhor ligar agora para Sofia.

- Oi Amor.

- Oi

- Tudo bem?

- Tudo.

-Você não sabe o que tenho para contar.

- O que?

- Comprei nossa casa

- Aé?

- Como assim? Aé? Ei, comprei nossa casa! Falta o sistema de captação, o teto solar, mas a gente vai fazendo isso aos poucos.

- Ahã

- Tudo bem? Você não me ligou e está estranha.

- É, passei o dia ocupada!

- Nossa, você nem me ligou hoje.

- E o que mais você tem para me dizer?

- Como assim? Eu disse que comprei nossa casa! Não é uma notícia para preencher um dia inteiro?

- E só isso?

- Fui tocar agora à noite para conseguir mais dinheiro e aquele site de vendas pela net funciona mesmo. Consegui vender inclusive a tabla em tempo recorde.

- Então se é só isso que tem para me dizer já está dito.

- Amor, o que houve? Eu não estou entendendo.

- Márcio, não me chame mais de amor. Nós não nos casaremos mais.

- Isso só pode ser brincadeira, Sofia. Como assim? Acabei de comprar uma casa.

- Hoje é meu aniversário e você não se lembrou.

- Amor, meus parabéns! Nossa! Como eu poderia me esquecer! Me desculpe, mas é que o dia foi tão cheio e acabei esquecendo.

- Não caso com quem esquece meu aniversário.

- Sofia, para de ser boba.

- Márcio, foi bom te encontrar, mas é isso o que tenho a lhe dizer. Não me procure mais! Se você acha que a casa é mais importante do que eu, fique com ela.

- Amor, só pode ser brincadeira. Eu vendi meu estúdio, me endividei todo para comprar essa bendita casa, a gente ia casar, ter filhos e praticar yoga todas as manhãs.

- Adeus, Márcio.

Tu tu tu tu tu...

Eu não poderia acreditar no que estava acontecendo. Um súbito desespero tomou conta do meu ser. Olhei ao redor e minha casa praticamente vazia. Peguei o contrato no aparador e junto com ele contas e aluguel. E eu ali desolado e sem saber o que fazer.

Liguei para a Sofia novamente e nada. Amanhã vou na casa dela, não é possível uma coisa dessas.

Passei o dia cercando a porta e sua mãe disse que ela não estava.E montei uma barraca e nada de Sofia sair.

A mãe dela me levava água e comida e mandava eu ir embora. Disse que o aniversário era uma coisa muito importante para Sofia e que eu havia cometido o erro mais grave que um homem poderia cometer.

Depois de uma semana tentando, eu tive que admitir aquela máxima escrita por Pascal que todos conhecem: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

escrito por: Paula Rizzutti em 20/02/2015

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SEPARAÇÃO



Olha no relógio
Bate o pé
Milhares de pensamentos
Transitam insistentemente
Respira
Controla-se
E se...
Melhor não.
Remete-se ao passado
Vê coisas que jamais deveriam se apagadas
Olha para o telefone
Ligar ou não ligar?
Talvez uma mensagem
Bebe um copo d´agua
Orgulho, carências ou desilusão?
Medo do silencio do outro lado
Lágrimas
Acabou
Mas ...
É hora de mudar a direção
Comprime-se
Respira
Agoniza
Um suspiro
Olha para caixa de mensagens
Nada está lá
Não haverá
Perde-se nas horas
Indecisão
Uma tentativa?
O dia passa
Anoitece
Amanhece
E novamente olha para relógio
E novamente vem a vontade de buscar o que foi perdido
Mas perdido está.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

HORIZONTES

Não há nada de errado 
Apenas é uma condição
Às vezes rir e às vezes chorar
Às vezes acreditar e desacreditar
Porque nada é estático ou indivisível
Apenas somos uma confusão em nós mesmos
Porque o aprendizado é o se deve levar de uma discussão.
E que existam asas na nossa imaginação
Para aprumar o que sobra quando há uma perda ou desilusão
Para vislumbrar horizontes quando buscamos um caminho.

 Paula Prestes 02/05/2013.

terça-feira, 15 de abril de 2014

A VOZ DO SILÊNCIO

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.

Martha Medeiros