Do mundo das contas para o mundo dos contos! Quando pensei em criar um nome para o meu blog, não achei nada mais conveniente que este, porque a ambiguidade de sentido da palavra Contadora nos remete a pensar: Contadora do quê? Sou contadora de formação e no blog também sou contadora, mas de histórias. Espero que gostem da simplicidade, do amor e o carinho que deposito em cada conto. Sejam Bem-Vindos!! Boa Leitura.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
SEPARAÇÃO
Olha no relógio
Bate o pé
Milhares de pensamentos
Transitam insistentemente
Respira
Controla-se
E se...
Melhor não.
Remete-se ao passado
Vê coisas que jamais deveriam se apagadas
Olha para o telefone
Ligar ou não ligar?
Talvez uma mensagem
Bebe um copo d´agua
Orgulho, carências ou desilusão?
Medo do silencio do outro lado
Lágrimas
Acabou
Mas ...
É hora de mudar a direção
Comprime-se
Respira
Agoniza
Um suspiro
Olha para caixa de mensagens
Nada está lá
Não haverá
Perde-se nas horas
Indecisão
Uma tentativa?
O dia passa
Anoitece
Amanhece
E novamente olha para relógio
E novamente vem a vontade de buscar o que foi perdido
Mas perdido está.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
HORIZONTES
Não há nada de errado
Apenas é uma condição
Às vezes rir e às vezes chorar
Às vezes acreditar e desacreditar
Porque nada é estático ou indivisível
Apenas somos uma confusão em nós mesmos
Porque o aprendizado é o se deve levar de uma discussão.
E que existam asas na nossa imaginação
Para aprumar o que sobra quando há uma perda ou desilusão
Para vislumbrar horizontes quando buscamos um caminho.
Paula Prestes 02/05/2013.
Apenas é uma condição
Às vezes rir e às vezes chorar
Às vezes acreditar e desacreditar
Porque nada é estático ou indivisível
Apenas somos uma confusão em nós mesmos
Porque o aprendizado é o se deve levar de uma discussão.
E que existam asas na nossa imaginação
Para aprumar o que sobra quando há uma perda ou desilusão
Para vislumbrar horizontes quando buscamos um caminho.
Paula Prestes 02/05/2013.
terça-feira, 15 de abril de 2014
A VOZ DO SILÊNCIO
Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.
Simples, rápido! E quanta força!
Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.
Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.
É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"
É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.
É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.
Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.
O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.
E fala alto.
É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
Martha Medeiros
é um silêncio que fala.
Simples, rápido! E quanta força!
Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.
Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.
É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"
É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.
É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.
Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.
O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.
E fala alto.
É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
Martha Medeiros
sexta-feira, 14 de março de 2014
ENJAULADOS
Nasci comprometido
Já havia um destino previamente traçado
Na mente de criança a liberdade
A vontade de voar sem asas
Mas não havia tantas escolhas
Havia um destino pré-determinado
Blasfemei quando disse que escolhi
No entanto estava ali
Seguindo o mesmo caminho de todos
Estudar, trabalhar, sucumbir.
(Paula Prestes)
Ps:Radicalismo, talvez. Mas são poucos momentos que dedicamos a vontade do nosso corpo, o que ele pede e nos ensina. Porque nos cobramos o tempo todo para "ser alguém na vida", frase esta que detesto, pois eu como ser já nasci e já sou!
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
A Obra de Arte
Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 doMensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...
Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.
— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!
— Mas... por que diz isso?
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...
Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.
Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:
“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·
Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.
"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·
Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:
— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...
— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...
— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...
O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.
“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."
Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:
— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.
O cômico resolveu seguir o conselho...
Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.
— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...
E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
Anton Pavlovitch Tchecov
— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.
— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...
Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.
— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!
— Mas... por que diz isso?
— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...
— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...
— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.
— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?
— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...
Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.
As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!
— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.
Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:
“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·
Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.
"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·
Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:
— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...
— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...
— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...
O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.
“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."
Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:
— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..
— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.
O cômico resolveu seguir o conselho...
Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.
— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...
E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
SONETO DE NATAL
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Machado de Assis
Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901, pág. s/nº.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
FURTO
Existe uma coisa que não suporto nesta vida: que as pessoas sempre apontem a minha capacidade de desorganização e esquecimento sobre as coisas. Quando alguém não consegue deixar uma roupa no lugar, é porque isto é uma tarefa difícil dentro do cérebro. O ser humano possui limitações, e a minha é esta. Não consigo deixar um ambiente sem minha cara por muito tempo, e, às vezes, acontece de perdemos alguma coisa em meio a tempestade. Vá dizer que isto nunca lhe aconteceu? Duvido. Onde está sua chave do carro neste instante? O seu celular? Meu caro, se você não bateu no bolso, ou olhou na bolsa é porque é realmente organizado. Se você foi desesperado abrir a bolsa, procurou e o coração acelerou, é porque nos parecemos muito, meus amigos.
Na vida de uma pessoa pouco organizada, há uma certa adrenalina toda vez que se precisa de algo urgente, e o pior é pedir ajuda, porque as pessoas não perdem a oportunidade de dizer: de novo? Precisa se organizar! Eu já sabia! Não guardou no lugar certo? Mas estas perguntas são em vão, porque a minha mente só se sentirá culpada por questões de segundos, então o ditado de “água mole e pedra dura, tanto bate até que fura” não funciona muito bem, quando há este devaneio de cérebro. E o que de bom em ser assim? Não sei, mas que é bom ver o desespero nos olhos de um metódico quando olha para sua mesa de trabalho, e ele tem que te entregar um documento super importante. Talvez seja sádico, mas é divertido! E vou te falar, nunca perdi nada importante, apenas sumiu temporariamente, questão de algumas promessas de 10 pulinhos para São Longuinho.
Na manhã passada fiz a minha rotina diária para ir para o trabalho: acordei atrasada de fato, não tinha pão em casa, só tomei meu café. Aliás, este é meu companheiro de todas as manhãs. Me dá energia, vitalidade, faz parceria, filosofa comigo, não me abandona e nem me critica! Café não é um líquido escuro que se toma quente, café é filosofia de vida, é postura, é convicção. Ainda chegarei a tomá-lo sem açúcar, café cowboy não é para os fracos! Mas ainda deixo que o açúcar tome conta do seu aroma! Enfim, fui pegar o ônibus e olhei no celular e constatei que iria chegar ao trabalho atrasada, e decidi não olhar mais para ele até o meu destino. Meu celular é daqueles que você faz um plano mensal mais barato e paga o aparelho, porque sempre pensei que celular é para fazer e receber ligações, não precisa nada além disso! Afinal, ele me servia mais como relógio mesmo!
Sentei como de costume no ônibus, deitei o banco e inevitavelmente adormeci. Minha bolsa sempre fica no meu colo, durmo abraçadinha com ela, e não desgrudo por nada, porém neste dia algo de novo aconteceu. Chegando no trabalho precisei consultar um número na minha agenda e fui pegar o celular da minha bolsa e nada. Sabe como é bolsa de mulher, cabe um mundo inteiro. Então comecei a tirar infinitas coisas: óculos, carteira, passes, livros, guarda-chuva, bananas, batom e nada. Como sou inevitavelmente desorganizada, procurei pelo escritório inteiro e comecei insistentemente a me ligar, e colocar o ouvido em todas as gavetas e compartimentos possíveis, afinal de contas, quem não se liga ou pede para alguém ligar para saber onde está o celular? E numa tentativa frustrada, conclui que ele realmente não estava naquele lugar, quiçá naquela cidade ou até mesmo naquele país. Quem neste mundo roubaria um celular baratérrimo que só faz ligação e tem notas de coisas inúteis como: “ acordei com vontade de abrir um bar, mas abri minha conta bancária antes e desisti”, ou “antigamente o mundo era bipolar e hoje as pessoas são bipolares”. Nem mensagens eróticas ou fotos comprometedoras havia no celular, porque deve ser a primeira coisa que o sujeito procura, e já vou avisando, não sou destes fetiches pós-modernistas! Enfim, havia uma agenda com códigos secretos para não descobrirem quem era da minha família, talvez alguém tentasse dizer que eu estava sequestrada se visse na agenda “mãe, casa”! Então me antecipei e escrevi no facebook e postei num status narcisista como se alguém de fato estive interessado na minha vida, que havia perdido aquele aparelho e aos meus amigos que me enviassem seus números in Box. Neste instante, descobri que meus amigos não são os 430, e sim 04, que me enviaram seus números rapidamente, geralmente são as pessoas que falo pessoalmente também. Num estranho deslumbramento fiquei feliz, com o sorriso de ponta a ponta na orelha, “estes são meus amigos de verdade”! Numa regra de três simples: você tem 0,93% dos seus amigos do facebook que são seus amigos, ou vamos arredondar para 1%, porque alguns realmente prefiram me dizer pessoalmente: “de novo perdeu o celular? Anota meu número aí”.
Eu sou meio metódica, meio besta, meio sei lá o que, mas tenho a minha política para adicionar pessoas no facebook, embora eu pudesse estar com 1000 amigos, eu prefiro ter 400 que eu vi a cara uma vez na vida, ou já falei, acho mais honesto comigo mesma! Isto inclui uma antipatia e poucas curtidas em fotos, “posts” e não tenho seguidores, se é que é necessária esta informação.
Enfim, voltei para casa desolada e meu marido resolveu ligar novamente para o meu aparelho, na última tentativa de estabelecer contato com alguma voz que, nem que viesse do além, seria capaz de desvendar a tragédia que ocorrera naquela manhã de um dia normal, em que eu tirava meu cochilo matinal naquela poltrona que praticamente já era parte do meu ser!
Foi quando estranhamente um homem atendeu! E ainda atendeu uma ligação a cobrar! Formidavelmente eu tenho créditos gerados pelas incríveis promoções e porque geralmente não ligo para ninguém para consumi-los, só quando é muito necessário, como meu marido ir me buscar na Raposo Tavares quando chego do trabalho, mas dura 2 segundos, porque não é um diálogo e sim uma informação: já estou em Vargem Grande.
-- Alô, com quem gostaria de falar? Disse a voz
-- Eu sou a dona do celular que você está usando.
--- Nossa! Não acredito! Fico até constrangido, mas comprei este celular ontem de manhã por R$ 20,00. Sabe como é? Eu precisando, alguém vendendo! Mas não sabia que era roubado.
--- Então, não sei se derrubei no chão, aonde você comprou?
--- Em Cotia.
--- Eu pego o ônibus no ponto do Cotia, pode ser que eu tenha derrubado e alguém achou e te vendeu.
--- Eu comprei de um homem quando descemos em Cotia.
--- Por acaso você estava no Cometa?
--- Sim, estava!
--- Então, me roubaram o celular e você comprou. E sabe o que me revolta é que não tem nada demais no celular, só que perdi a minha agenda toda.
--- Realmente o aparelho é bem simples, né?! Só liga!
Neste instante respirei fundo, porque eu poderia falar mal do meu aparelho, agora aquele receptor sem vergonha e descarado, este não podia!!
--- Pois é, ferrou com a minha vida!!
--- Se quiser posso te devolver! A gente marca um encontro aqui em Cotia, e você me traz R$ 20,00, que foi o valor que paguei, e te devolvo sem problemas!
Quanta cara de pau. Pensei! Era como se ele estivesse me fazendo o maior dos favores!
---- Bem, como o aparelho não vale nada, não compensa eu ir buscar! Pode ficar com ele. Estou fazendo um Boletim de Ocorrência e vou bloquear o chip agora mesmo e você não vai mais conseguir usar, então providencie e seu chip.
---- Então moça, como é seu nome?
---- Paula.
---- Então Paula, vamos fazer o seguinte não bloqueie e se você mudar de idéia, é só me ligar, você tem meu numero.
Fiquei perplexa como que acabara de ouvir. Como assim? Você tem meu número? Ele tem meu número. Pensei em dizer, seu grandessíssimo filho duma mãe que dorme com todo mundo e cobra por isso, o celular é meu! Você quem está errado, eu não tenho que negociar! Eu vou chamar a polícia! Receptação é crime! Mas apenas respondi:
---- Estou bloqueando e pronto, passar bem!
---- Desculpa mesmo, fico constrangido mesmo! Boa noite.
Finalizamos a conversa, bloqueei o chip, e comprei um celular novo. De raiva comprei um com internet, câmera e instalei WhatsApp. Ainda não estou com o bichinho virtual que parece uma palheta para alimentar, e talvez nem o tenha. Na galeria de fotos deixei a foto do Mussum escrito: “statis” e a do Sérgio Maladandro escrito: “pegadinha do malandro!”. Assim, se alguém quiser me furtar de novo, haverá com o que se distrair, até eu ligar para novas negociações.
Escrito por Paula Rizzutti em 24/11/2013.
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