segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Cafeína e Devaneios

Cafeína e devaneios

Nesse dia frio, aqueço-me com café no sofá, três canecas cheias por dia, a fumaça vaporizando minhas narinas com seu cheiro de abraço. Meus pensamentos vagueiam por memórias, enquanto os gatos dormem profundamente sobre as cadeiras da espalhadas pela sala, adoro os felinos, eles frustram todas as nossas expectativas, mostrando a vida como ela é e mostram a importância dos momentos de pausa, do afeto espontâneo, o prazer da comida, aquela gostosa espreguiçada e o deleite do banho demorado despertando, renovando as energias. Eles contemplam a chuva, tomam sol e vivem no presente. Penso em ler um livro, mas o trabalho me espera. Desço o feed do celular, notícias sobre o mundo que me deixam angustiadas, reativa, vontade de gritar, porém a gente vai digerindo, longe das reflexões pueris da rede. Eu argumento comigo o tempo todo, estabeleço diálogos mentais e verbais, e sim, eu falo sozinha. Tento preencher meus vazios com comida nessa manhã, o que me falta? Olha para o mundo! É como se eu pudesse culpar toda minha dor e minha subjetividade, porém não posso. Lembranças de infernos e paraísos, dizem que a gente precisa falar, e para quem? Aquele nó na garganta me acompanha desde a infância, junto com a dor no maxilar por não verbalizar tudo que sinto. E seu eu pudesse falar tudo que me atormenta nesse momento, quem iria ouvir? Já caminhei com minha solidão por tantos espaços, já a levei passear na multidão, e quantas vezes via a bocas se movendo emitindo palavras em minha direção, mas estava dispersa vendo as luzes formando paisagens. A cerveja esquentando, enquanto meus pensamentos tomavam estradas. Eu gosto de companhia, mas alguém que dívida suas vulnerabilidades e esperanças, e que não tenha medo de ser carne, osso, sentimentos e desassossegos. Até porque para ser meu amigo tem que entender que somos certos e  errados, e o que nos move é ir se remendando no caminho. Coloco o som, está dançante, ensaio alguns passos, deixo meu corpo agora mover-se livremente, é o que há de mais verdadeiro em mim, aquele movimento sem construção social, não há ninguém em volta,  mas isso não me impede de sorrir, catarses sinceras, estou brincando com a dor que exala por cada poro, que ela evapore. Desabo no sofá novamente, tomo coragem, já passou das dez e preciso retomar a rotina.