Cafeína e devaneios
Nesse dia frio, aqueço-me com
café no sofá, três canecas cheias por dia, a fumaça vaporizando minhas narinas
com seu cheiro de abraço. Meus pensamentos vagueiam por memórias, enquanto os
gatos dormem profundamente sobre as cadeiras da espalhadas pela sala, adoro os
felinos, eles frustram todas as nossas expectativas, mostrando a vida como ela
é e mostram a importância dos momentos de pausa, do afeto espontâneo, o prazer
da comida, aquela gostosa espreguiçada e o deleite do banho demorado despertando,
renovando as energias. Eles contemplam a chuva, tomam sol e vivem no presente.
Penso em ler um livro, mas o trabalho me espera. Desço o feed do celular, notícias
sobre o mundo que me deixam angustiadas, reativa, vontade de gritar, porém a
gente vai digerindo, longe das reflexões pueris da rede. Eu argumento comigo o
tempo todo, estabeleço diálogos mentais e verbais, e sim, eu falo sozinha.
Tento preencher meus vazios com comida nessa manhã, o que me falta? Olha para o
mundo! É como se eu pudesse culpar toda minha dor e minha subjetividade, porém
não posso. Lembranças de infernos e paraísos, dizem que a gente precisa falar,
e para quem? Aquele nó na garganta me acompanha desde a infância, junto com a
dor no maxilar por não verbalizar tudo que sinto. E seu eu pudesse falar tudo
que me atormenta nesse momento, quem iria ouvir? Já caminhei com minha solidão
por tantos espaços, já a levei passear na multidão, e quantas vezes via a bocas
se movendo emitindo palavras em minha direção, mas estava dispersa vendo as luzes
formando paisagens. A cerveja esquentando, enquanto meus pensamentos tomavam
estradas. Eu gosto de companhia, mas alguém que dívida suas vulnerabilidades e
esperanças, e que não tenha medo de ser carne, osso, sentimentos e desassossegos.
Até porque para ser meu amigo tem que entender que somos certos e errados, e o que nos move é ir se remendando
no caminho. Coloco o som, está dançante, ensaio alguns passos, deixo meu corpo agora
mover-se livremente, é o que há de mais verdadeiro em mim, aquele movimento sem
construção social, não há ninguém em volta, mas isso não me impede de sorrir, catarses
sinceras, estou brincando com a dor que exala por cada poro, que ela evapore.
Desabo no sofá novamente, tomo coragem, já passou das dez e preciso retomar a rotina.