terça-feira, 24 de novembro de 2020

SINUCA DE BICO

 



É final de tarde e a única coisa que penso é dissolver os pensamentos em álcool e na letargia. Sigo para um bar, num dia exaustivo de trabalho, pensando em como romper o sistema que não respeita nosso tempo enquanto tecido da vida, como diria Antônio Cândido. Debruço no balcão e já no intuito de beber a costumeira cerveja, porém hoje senti a vontade de sentir qualquer fruta ou essência dissolvida no Gin. Aqueles pequeno luxos existenciais de quem alterna o fluxo comprando na quitanda ou no empório, era o dia do pagamento do "vale” e minha conta bancária iria sentir a felicidade de alguns trocados por alguns instantes, antes de qualquer débito para sucumbir às minhas necessidades existenciais. Olho ao redor e há pessoas concentradas jogando sinuca, eu me sentia a própria caçapa no final do dia. Não entendo bem as regras, mas já vi que há toda uma ciência por trás de cada jogada, física, geometria, matemática, e nunca fui boa em nenhuma delas, não que me orgulhe disso, apenas constato que minhas frustrações colegiais foram sempre acerca destas disciplinas, me parecia que era menos gente frente aos gênios das exatas, mas o que me dava tesão era ler Clarice e toda sua força, na arquibancada da escola. Aliás, mal podia imaginar Einstein que suas frases iriam ser compartilhadas como pílulas de autoajuda na internet, um "good vibes" da ciência. E não é que lembrei de um professor da pós- graduação com suas aulas de gestão motivacional, era uma figura simpática, mas eu sentia certa pena toda vez que empolgava-se com seus "cases" de "Sucesso", até ser bombardeado pela sala de aula com doses brutais da realidade social, e seu rosto ficava em pânico pelas próprias falácias empresariais que ele acreditava ou fingia crer. Ninguém fazia por mal, nós gostávamos dele, mas há questionamentos que não podemos deixar passar. Ouço alguns gritos de euforia: parece que alguém ganhou a partida, a competição me parece um fetiche da humanidade, você ter que ser vencedor de alguma coisa para suportar seu próprio peso no vazio. Eu divago sobre ideias tortas, meu Gin com frutas vermelhas (acho chique) e me vem uma sensação de contentamento, um ópio que me faz esquecer algumas bagunças internas. Permaneço acompanhando o jogo, vendo o movimento do corpo em cada tacada, o riscar do giz, o enigma dos olhos, há prazer naquela mesa, algo que instiga ao som de roque e fumaça de cigarro. 

Ela me convida para jogar depois de sair vencedora da partida anterior, fico num estado de êxtase e insegurança ao mesmo tempo. Eu não sabia jogar, mas é difícil reconhecer nossas vulnerabilidades instantaneamente, ou verbalizar, achei deselegante recusar o convite. Todo mundo faz coisas idiotas na vida, como check in e busca na internet, numa tentativa desesperada de entender o mínimo, mas já dizia a frase bíblica: "a verdade vos libertará” e então disse que não sabia jogar, ela respondeu que há sempre uma primeira vez, senti um acolhimento antes do massacre. Me ensinou a empunhar o taco, e como deveria me movimentar, não sei por que, mas balancei o quadril como um cão abana o rabo, para ajustar minha postura diante da mesa que me parecia maior quando se está perto. Dei a tacada. Fiquei encantada com as bolas coloridas se espalhando como moléculas pela mesa, nenhuma caiu em nenhum dos buracos. Ela cantava a jogada e qual a bola iria encaçapar e jogava. Apenas observava a diminuição das bolas como os gatos fazem destruindo uma árvore de Natal. Num deslize errou e parece que novamente chegou a minha vez. Tem que falar qual vai derrubar, dizia ela. Eu olhava e me pareciam todas muito distantes, esparramadas, já não sabia em que posição ficar. Estralei os dedos com certo charme, coloquei a mão no queixo como se estivesse pensativa, dei o último gole no Gin como presságio, eis que dei a tacada. Por um instante o bar parou, parece que o som, a luz e as expressões faciais também, não sei quanto tempo durou, mas me pareceu a eternidade. Assim que toquei a bola ela voou em direção ao infinito, era livre, aquela mesa não a aprisionaria, tinha vida própria, não queria competir, salvaria todas as suas irmãs na mesa se recusando a obedecer ao status quo. Ouço um grito aflito, retomo meus pensamentos, meu rosto fica corado. Eu acertei a testa de um senhor da mesa próxima, me parecia atordoado, eu pedi desculpas com as mãos tremendo em desespero, há uma contenção de risos no entorno. Era a minha cara fazer aquilo. Agradeci o jogo, não havia motivos para continuar, paguei a conta e saí rindo em direção à rua, era hora de voltar para casa.