Seu Joaquim caminhava todos os dias pela praça com seu cachorro, passava na padaria e levava o pão para o café da manhã. Todos o conheciam por seu hábito de não mudar nem o horário, nem a calçada. Seu cão habitualmente também realizava suas necessidades no mesmo lugar, não causando transtorno na rotina de seu Joaquim. Sempre igual, sempre tranquilo, com um sorriso no rosto cumprimentava as pessoas no seu percurso, contemplava as flores das copas das árvores, ouvia os pássaros, sentava na praça para descansar e contava histórias aos que por ali paravam para acariciar o cão. No retorno, Alceu, o seu cão, latia para o gato no portão de uma das casas e este arrepiava o rabo e o olhava com desdém. Passava sempre em frente à agência bancária que sacava sua aposentadoria e que naquele horário estava sempre vazia. Lembrava as filas que precisava enfrentar todos os meses e dizia a si mesmo: que um dia irei passar cedo e evitar o transtorno, assim sobraria tempo para realizar outras atividades. E num belo dia de primavera mudou sua rotina pela primeira vez. Trazia consigo o cão, o cartão e uma angústia. Não sabia se faria o saque na ida ou na volta. Ficava tenso, confuso conforme caminhava em direção à agência. Não respondeu bom dia aos que passavam, o que causou estranhamento nos transeuntes acostumados com sua rotina, brigou com cão que brigava com o gato que não estava nem aí, não sentou no banco da praça e não conversou com ninguém. Dirigiu-se determinado para o banco e concentrado para realização da sua façanha. Suando frio, ficou confuso, pois a porta não estava aberta como o habitual, pois não era ainda o horário do expediente bancário. Não entendia como funcionava, fingiu que estava olhando para o céu ao ver uma pessoa se aproximando, aproveitou que ela abriu a porta e entrou. Sentiu-se aliviado por ter conseguido entrar. Não havia filas e seu sorriso se abriu. Sacou o cartão, digitou a senha e escutou o barulho das notas descendo, pegou o dinheiro, sentiu o cheiro. Havia sido mais fácil que pensava!Repreendeu-se por ter demorado tanto tempo sem ir aos banco pelas manhãs. Conseguiu entrar com o cachorro, estabeleceu o diálogo com seu compaheiro dizendo de onde saia o recurso para ração. O cão escutava atentamente e Joaquim prometeu-lhe a compra de sachê e biscoitos assim que saíssem. Olhou ao redor e se sentiu bancário pela primeira vez ocupando sozinho aquele espaço todo! Num espanto súbito ele se deu conta que não sabia abrir a porta. Como sairia daquele espaço? Sentiu medo por estar sozinho. Cadê o guarda? E não viu ninguém. Começou a desesperar-se! Olhava o cartão e a tarja para cima e para baixo e lembrava como a menina havia feito para entrar, porém não tinha como passar o cartão do lado de dentro. Puxava a porta e nada. Empurrava e nada! Iniciou uma série de palavrões! Depois pediu desculpas ao seu deus e começou a orar. As horas passavam e o suor escorria! Não havia telefone! Não havia guarda! Não havia ninguém! Sentiu-se um peixe dentro de um aquário! Via pelo vidro o mundo acontecer do lado de fora, imaginava a vida e seu contar das horas! Desejava muito ir para aquele lado! Eis que viu uma pessoa passando na rua e pensou em pedir socorro como se estivesse numa ilha e lançasse fogo. Começou a gesticular, a pessoa não viu, começou a pular e a pessoa olhou e correspondeu ao seu olhar de desespero. Faziam mímicas sem compreensão, então o homem se aproximou para escutar a história que se passava. - A porta está quebrada (disse)! O ouvinte lamentou profundamente por não ser correntista, chamou uma pessoa que passava, ficaram lá na expectativa, o guarda não via o homem, o cão, a fila e a vida se passava. Conversaram sobre a política e futebol. Pensava que sua esposa já devia ter saído sem café, sem pão e preocupada com a demora daquele homem que nunca mudava. Será que havia sido assaltado? Ele que nunca atrasava 10 min, tudo era cronômetrado e não percebia que a vida é fluida e cheia de possibilidades. Eis que chegou um correntista, todos o olhararam. Assustado, o homem pensou que era um assalto, entrou no carro e saiu rapidamente. Joaquim lamentou-se! Os amigos temporários se foram. Sentou-se no chão, triste. Já sem esperança escutou a porta abrir! Abriu um sorriso, a pessoa perguntou se ele estava bem! O cachorro latiu e abanou o rabo. Ela perguntou como ele entrou com o cachorro! Cheguei cedo e não havia ninguém! Ela perguntou se os caixas estavam funcionando e ele disse sim. Mentiu para não demonstrar sua fragilidade. Disse que estava cansado e precisava respirar um pouco e por isso estava ali ainda! Esperou sua salvadora realizar suas operações. Ela disse adeus. Ele disse: espere! Vou embora também. Ela apertou o botão ao lado da porta que simplemente abriu. Por um instante ele se sentiu envergonhado. Sairam, tomaram rumos diferentes. Seguiram suas vidas.
Escrito por Paula Rizzutti em 15/07/2017 às 21h
Escrito por Paula Rizzutti em 15/07/2017 às 21h