I - Trabalhador
Já era tarde e João voltava para casa depois de uma jornada intensa de trabalho. Na fábrica, os sons das máquinas ditavam o tempo e o seu movimento, não poderia deixar os seus pensamentos fluírem para não perder o tempo da máquina, que as suas ilusões fiquem para os dias de domingo onde não haverá supervisor, relógio, meta, pressão e talvez esteja cansado para pensar. Levanta-se, beija a mulher, leva o cachorro para passear, passa na padaria para comprar o pão e leva pão de queijo e mortadela, assusta-se com os preços estampados nas guloseimas, passa no caixa, deixa claro suas opiniões sobre os súbitos aumentos, o vendedor diz que é a crise, saca o vale refeição, saldo insuficiente, pede o saldo, complementa com suas moedas, deixa o cachorro e a compra em casa, vai para o futebol, joga até as onze, bebe até as doze e vai para casa fatigado, abre outra lata, vê programas de esporte, aguarda a hora do jogo, fica feliz com a vitória do seu time, toma banho, coloca o noticiário, cochila, vai para cama e amanhã é segunda e relógio de ponto o aguarda com a pontualidade excessiva, ônibus, trem, em levanta e senta, caminha, corre, segura a porta e vai. A história se repete aos longos dos dias, fica atento aos seus pertences, escuta surdamente: água, coca, tridente, fone de ouvido, bala de gengibre, chocolate e segue. Vai chegando aos destinos e levanta-se firmemente entre um cochilo e outro, não há escolha e de repente caem todas as coisas da sua carteira e espalham-se no chão: RG, bom, bilhete único, vale refeição. Conta com a ajuda da pessoa ao lado, recolhe seus pertences e segue o seu destino.
II – Bêbado
O ônibus para no ponto como de rotina, entram os passageiros para chegarem aos seus destinos e uma voz diz:
- Vai Zica, entra logo!
As pessoas cansadas do dia intenso olham com curiosidade:
-- Zica é o caralho! Diz uma voz embriagada e abafada por uma salsicha entre os dentes.
O casal entra discutindo e a mulher ajuda o homem a sentar em segurança, pois balança de um lado para o outro segurando sua sacola com pacote de salsichas.
Ela diz: --- E aí Josué, termina de contar sobre a obra.
Ele diz: A obra é da prefeitura e eu tenho parte disso, são meus parentes que ...que ...que...O vereador passou a mão no dinheiro...
Ela diz: Que? E o que tem haver com a obra
- Que obra?
- Você estava falando da obra
- Eu?
-- Você
--- Tá doida?
A mulher suspira e se incomoda com a embriaguez! Ele violentamente a xinga: sua vadia, não preciso de você para nada, não vou mais para sua casa, enfia seu apartamento no rabo. Os passageiros entram num certo pânico, alguns ficam prontos para maiores confusões! A mulher diz que ele que vá embora então para casa dele e ele pega seu saco de salsicha e dá sinal para o ônibus parar! Ela diz sorrindo: Tchau, Zica! Vá para Inferno! No seu olhar um medo, porém mantém a postura de que está tudo bem, passam 3 pontos e ela desse e reza para chegar logo ao seu destino.
III. Os bilheteiros
E todos os dias eles ocupam seus turnos na estação, vestem seus uniformes, contam moedas, pedem trocados, veem todos os tipos passando pela sua cabine! Alguns reclamam da demora, outro do valor das passagens, outros da qualidade do transporte, outro dos atrasados, outros da fila e ao passar do dia nem sabem quantas pessoas viram transitar pelos seus olhos. Estão cansados e vão para casa também de transporte público, são 11 horas da noite. E apesar de cansados, emanam um ar de felicidade e dirigem ao cobrador do ônibus de todos os dias:
- Tô sabendo que a China comprou o Itaquerão! E ri sozinho! Vai se chamar China in Box! E ri!
Ao mesmo tempo conversa sobre a rotina do trabalho, aliás fala o tempo inteiro e seu amigo ouve atentamente cada história de futebol, de chefes, da morena que compra bilhete às 16h todos os dias, da faxina de casa, das suas compras na 25, do churrasco do final de semana, fala com a moça do cara da salsicha: toma cuidado, esse cara é perigoso! Fala do fechamento de caixa, suas contas matemáticas e dos problemas de sindicato dentro da CPTM, fala do governo, do preço da gasolina, fala novamente com o cobrador: Vai chamar Itaquela! Ri sozinho! E seu amigo vai balança a cabeça a cada história e monossilabicamente diz: sim, ou não, pois é, complicado! E os assuntos vão se estendendo sobre o cachorro do vizinho, da violência, da política até chegarem ao seu destino.
IV. A Mulher
Ela acorda às 6h, deixa as crianças no colégio, vai para o trabalho, é faxineira em São Paulo, possui apenas ensino fundamental, sofre de problemas na bexiga, o que faz ela exalar um cheiro forte, sempre se afasta das pessoas, senta sozinha, observa taciturnamente a cada movimento, fica assustada com a discussão e não consegue acompanhar o diálogo do seu vizinho e pensa: como fala! Jesus! Está cansada nesse horário, sua jornada não é fácil, trabalha mais de doze horas, precisa dar conta do café, do almoço e do jantar dos patrões, é sua obrigação, mal vê seus filhos, o marido foi embora, tem um olhar triste, sente-se invisível aos olhos da multidão, não consegue reconhecer sua fortaleza, são 3 conduções diárias, 3 horas para ir para o trabalho e 3 para voltar, ela só queria dormir um pouco, mas ainda precisa preparar a comida do dia seguinte para seus filhos, um deles está complicado, não aprende direito, pensa que ele tem algum problema, mas não sabe qual, queria conversar com a professora, mas o horário não bate, ela diz todos os dias para ele estudar para ser alguém na vida, para arrumar um emprego bom, o menino mal consegue escutar, no horário da chegada apenas beija e abraça a sua mãe, já não consegue vencer o sono, esperou o dia todo, sonha em encontrar o pai. A menina já está com o pijama e diz: mamãe quero leite e ela vai fazer a vontade de sua menina.
V. A Estudante
É seu segundo ano na universidade, sua mãe disse que não havia recursos para faculdade privada, ela se esforçou para ir bem no ENEM e nos vestibulares. Passou! Apesar de nunca ter passado fome, ela também é da periferia! Seus pais são professores no Estado! Trabalham em diversas escolas para cumprir a carga horária, estão cansados, já buscaram licença médica algumas vezes, estão desmotivados! Ela por sua vez escolheu o mesmo caminho, o ensinar, e Letras é o que ela faz, adora literatura, principalmente Clarisse Lispector! Encontra-se em cada texto que lê, viaja, reflete! Segura um exemplar nas mãos de Água Viva e mentalmente lê várias vezes um trecho que lhe chama atenção: “ Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”. Distrai-se por um instante com a confusão do bêbado, pensa em Pitágoras: “Cala-te ou diga coisas que valham mais que o silêncio. ” E logo em seguida, há uma mescla de raiva pelo sujeito, medo pela mulher, toma suas dores como se fossem as suas, tenta acalmar seus pensamentos, os homens atrás não param de falar um minuto, o cobrador conversa às gargalhadas com um passageiro, eles ignoram a violência. Respira e pensa numa frase que leu outro dia: “A violência é o último refúgio do incompetente. ” A sua mente está barulhenta e confusa, ainda há trabalhos para fazer, há coisas para ler, está com fome, tem economizado com alimentação fora de casa, leva sempre um lanche e hoje esqueceu, e a ansiedade aumenta a sua vontade, não presta atenção na mulher quieta e sua história, talvez aquela mulher de Clarisse pudesse acalmá-la com seu olhar solidário, o ônibus para e o bêbado desce, não se conforma com a cena toda, há um disparar no seu coração, qual seria o destino daquela mulher? Ela ficaria bem? Acalma-se, respira fundo e volta a ler : “ O que te direi? Te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver assim? Ai de mim, que tanto morro”.
Escrito por Paula Rizzutti
Escrito por Paula Rizzutti