Eu não ser somente a beleza nos seus olhos
Não quero que se perca somente nas minhas curvas que são muitas querido!
Eu quero que me admire
Quero falar profundamente sobre todas as coisas contigo
Quero te inspirar, te fazer forte
Venha correndo comigo
Deixe o vento bater no seu cabelo
Deixe o sorriso largo no rosto e ria alto
o mais que conseguir
Essa idéia de amor romântico nos destrói
Não me prenda, não me esconda
Corra comigo
Não me julgue se não estiver de acordo
Eu vou falar as coisas na sua cara
Ria comigo querido
Rompa esses padrões mesquinhos
Eu posso viver sozinha, posse cuidar dos gatos, das plantas e de mim, não se surpreenda
Pode chorar
Confia
Abrace-me sem fim nesses instantes
Nós somos mais do que há!
Paula Prestes, 21/12/2016
Do mundo das contas para o mundo dos contos! Quando pensei em criar um nome para o meu blog, não achei nada mais conveniente que este, porque a ambiguidade de sentido da palavra Contadora nos remete a pensar: Contadora do quê? Sou contadora de formação e no blog também sou contadora, mas de histórias. Espero que gostem da simplicidade, do amor e o carinho que deposito em cada conto. Sejam Bem-Vindos!! Boa Leitura.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Mulher ao espelho – Poema de Cecília Meireles
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
Despedida
Uma vida se parte
Na parte que ficou sem vida
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Não há mais sentido nessa linguagem
que não se sente acolhida
dessa linha em diante
somos apenas partida
Não há mais razões para alimentar
velhas feridas
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Paula Prestes - 18/08/2016
Na parte que ficou sem vida
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Não há mais sentido nessa linguagem
que não se sente acolhida
dessa linha em diante
somos apenas partida
Não há mais razões para alimentar
velhas feridas
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Paula Prestes - 18/08/2016
Despedida
Uma vida se parte
Na parte que ficou sem vida
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Não há mais sentido nessa linguagem
que não se sente acolhida
dessa linha em diante
somos apenas partida
Não há mais razões para alimentar
velhas feridas
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Na parte que ficou sem vida
Adeus, au revoir, adiós, despedida
Não há mais sentido nessa linguagem
que não se sente acolhida
dessa linha em diante
somos apenas partida
Não há mais razões para alimentar
velhas feridas
Adeus, au revoir, adiós, despedida
quinta-feira, 23 de junho de 2016
FELICIDADE CLANDESTINA (CLARICE LISPECTOR)
Felicidade clandestina - Clarice Lispector
Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
quarta-feira, 15 de junho de 2016
AGRIÃO
| Se tem uma coisa q eu gosto nessa época do ano é agrião. Meu saudoso pai sempre plantou em casa e dava aos montes, ás vezes ele vendia, ás vezes dava para os vizinhos. Enchia um carrinho de mão e ia. Após a partida do meu pai o agrião também se foi e como é difícil encontrar um maço como os daqui de casa, com o cheiro e sabor. E hoje na feira encontrei, vou me acabar de comer agrião, sou a doida do agrião! E minha tigela de salada virá temperada de muitas lembranças e saudades! |
domingo, 6 de março de 2016
CONDUÇÃO
I - Trabalhador
Já era tarde e João voltava para casa depois de uma jornada intensa de trabalho. Na fábrica, os sons das máquinas ditavam o tempo e o seu movimento, não poderia deixar os seus pensamentos fluírem para não perder o tempo da máquina, que as suas ilusões fiquem para os dias de domingo onde não haverá supervisor, relógio, meta, pressão e talvez esteja cansado para pensar. Levanta-se, beija a mulher, leva o cachorro para passear, passa na padaria para comprar o pão e leva pão de queijo e mortadela, assusta-se com os preços estampados nas guloseimas, passa no caixa, deixa claro suas opiniões sobre os súbitos aumentos, o vendedor diz que é a crise, saca o vale refeição, saldo insuficiente, pede o saldo, complementa com suas moedas, deixa o cachorro e a compra em casa, vai para o futebol, joga até as onze, bebe até as doze e vai para casa fatigado, abre outra lata, vê programas de esporte, aguarda a hora do jogo, fica feliz com a vitória do seu time, toma banho, coloca o noticiário, cochila, vai para cama e amanhã é segunda e relógio de ponto o aguarda com a pontualidade excessiva, ônibus, trem, em levanta e senta, caminha, corre, segura a porta e vai. A história se repete aos longos dos dias, fica atento aos seus pertences, escuta surdamente: água, coca, tridente, fone de ouvido, bala de gengibre, chocolate e segue. Vai chegando aos destinos e levanta-se firmemente entre um cochilo e outro, não há escolha e de repente caem todas as coisas da sua carteira e espalham-se no chão: RG, bom, bilhete único, vale refeição. Conta com a ajuda da pessoa ao lado, recolhe seus pertences e segue o seu destino.
II – Bêbado
O ônibus para no ponto como de rotina, entram os passageiros para chegarem aos seus destinos e uma voz diz:
- Vai Zica, entra logo!
As pessoas cansadas do dia intenso olham com curiosidade:
-- Zica é o caralho! Diz uma voz embriagada e abafada por uma salsicha entre os dentes.
O casal entra discutindo e a mulher ajuda o homem a sentar em segurança, pois balança de um lado para o outro segurando sua sacola com pacote de salsichas.
Ela diz: --- E aí Josué, termina de contar sobre a obra.
Ele diz: A obra é da prefeitura e eu tenho parte disso, são meus parentes que ...que ...que...O vereador passou a mão no dinheiro...
Ela diz: Que? E o que tem haver com a obra
- Que obra?
- Você estava falando da obra
- Eu?
-- Você
--- Tá doida?
A mulher suspira e se incomoda com a embriaguez! Ele violentamente a xinga: sua vadia, não preciso de você para nada, não vou mais para sua casa, enfia seu apartamento no rabo. Os passageiros entram num certo pânico, alguns ficam prontos para maiores confusões! A mulher diz que ele que vá embora então para casa dele e ele pega seu saco de salsicha e dá sinal para o ônibus parar! Ela diz sorrindo: Tchau, Zica! Vá para Inferno! No seu olhar um medo, porém mantém a postura de que está tudo bem, passam 3 pontos e ela desse e reza para chegar logo ao seu destino.
III. Os bilheteiros
E todos os dias eles ocupam seus turnos na estação, vestem seus uniformes, contam moedas, pedem trocados, veem todos os tipos passando pela sua cabine! Alguns reclamam da demora, outro do valor das passagens, outros da qualidade do transporte, outro dos atrasados, outros da fila e ao passar do dia nem sabem quantas pessoas viram transitar pelos seus olhos. Estão cansados e vão para casa também de transporte público, são 11 horas da noite. E apesar de cansados, emanam um ar de felicidade e dirigem ao cobrador do ônibus de todos os dias:
- Tô sabendo que a China comprou o Itaquerão! E ri sozinho! Vai se chamar China in Box! E ri!
Ao mesmo tempo conversa sobre a rotina do trabalho, aliás fala o tempo inteiro e seu amigo ouve atentamente cada história de futebol, de chefes, da morena que compra bilhete às 16h todos os dias, da faxina de casa, das suas compras na 25, do churrasco do final de semana, fala com a moça do cara da salsicha: toma cuidado, esse cara é perigoso! Fala do fechamento de caixa, suas contas matemáticas e dos problemas de sindicato dentro da CPTM, fala do governo, do preço da gasolina, fala novamente com o cobrador: Vai chamar Itaquela! Ri sozinho! E seu amigo vai balança a cabeça a cada história e monossilabicamente diz: sim, ou não, pois é, complicado! E os assuntos vão se estendendo sobre o cachorro do vizinho, da violência, da política até chegarem ao seu destino.
IV. A Mulher
Ela acorda às 6h, deixa as crianças no colégio, vai para o trabalho, é faxineira em São Paulo, possui apenas ensino fundamental, sofre de problemas na bexiga, o que faz ela exalar um cheiro forte, sempre se afasta das pessoas, senta sozinha, observa taciturnamente a cada movimento, fica assustada com a discussão e não consegue acompanhar o diálogo do seu vizinho e pensa: como fala! Jesus! Está cansada nesse horário, sua jornada não é fácil, trabalha mais de doze horas, precisa dar conta do café, do almoço e do jantar dos patrões, é sua obrigação, mal vê seus filhos, o marido foi embora, tem um olhar triste, sente-se invisível aos olhos da multidão, não consegue reconhecer sua fortaleza, são 3 conduções diárias, 3 horas para ir para o trabalho e 3 para voltar, ela só queria dormir um pouco, mas ainda precisa preparar a comida do dia seguinte para seus filhos, um deles está complicado, não aprende direito, pensa que ele tem algum problema, mas não sabe qual, queria conversar com a professora, mas o horário não bate, ela diz todos os dias para ele estudar para ser alguém na vida, para arrumar um emprego bom, o menino mal consegue escutar, no horário da chegada apenas beija e abraça a sua mãe, já não consegue vencer o sono, esperou o dia todo, sonha em encontrar o pai. A menina já está com o pijama e diz: mamãe quero leite e ela vai fazer a vontade de sua menina.
V. A Estudante
É seu segundo ano na universidade, sua mãe disse que não havia recursos para faculdade privada, ela se esforçou para ir bem no ENEM e nos vestibulares. Passou! Apesar de nunca ter passado fome, ela também é da periferia! Seus pais são professores no Estado! Trabalham em diversas escolas para cumprir a carga horária, estão cansados, já buscaram licença médica algumas vezes, estão desmotivados! Ela por sua vez escolheu o mesmo caminho, o ensinar, e Letras é o que ela faz, adora literatura, principalmente Clarisse Lispector! Encontra-se em cada texto que lê, viaja, reflete! Segura um exemplar nas mãos de Água Viva e mentalmente lê várias vezes um trecho que lhe chama atenção: “ Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”. Distrai-se por um instante com a confusão do bêbado, pensa em Pitágoras: “Cala-te ou diga coisas que valham mais que o silêncio. ” E logo em seguida, há uma mescla de raiva pelo sujeito, medo pela mulher, toma suas dores como se fossem as suas, tenta acalmar seus pensamentos, os homens atrás não param de falar um minuto, o cobrador conversa às gargalhadas com um passageiro, eles ignoram a violência. Respira e pensa numa frase que leu outro dia: “A violência é o último refúgio do incompetente. ” A sua mente está barulhenta e confusa, ainda há trabalhos para fazer, há coisas para ler, está com fome, tem economizado com alimentação fora de casa, leva sempre um lanche e hoje esqueceu, e a ansiedade aumenta a sua vontade, não presta atenção na mulher quieta e sua história, talvez aquela mulher de Clarisse pudesse acalmá-la com seu olhar solidário, o ônibus para e o bêbado desce, não se conforma com a cena toda, há um disparar no seu coração, qual seria o destino daquela mulher? Ela ficaria bem? Acalma-se, respira fundo e volta a ler : “ O que te direi? Te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver assim? Ai de mim, que tanto morro”.
Escrito por Paula Rizzutti
Escrito por Paula Rizzutti
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