quinta-feira, 13 de agosto de 2015

NAMORANDO- SE

E num dia de sol ela decidiu que iria se namorar
Espreguiçou-se lentamente
E levantou com o pé direito
Escolheu a melhor toalha
A melhor roupa
Os melhores sais de banho
Banhou-se lentamente
Perfumou-se
Olhou se no espelho e sorriu
Disse a si mesma
Quão linda era
Escolheu o melhor penteado
A melhor roupa
Seduziu-se
Escolheu um livro,
Um filme, um passeio, ouviu a música
Olhou pela infinidade da sua janela
Acolheu o silencio
Vivenciou as vontades de seu coração
Comeu a melhor comida
Fez aquele curso sobre o café
Publicou-se com seu largo sorriso
Apaixonou-se por si mesma
E descobriu que era livre para seguir seus infinitos caminhos


Por Paula Rizzutti Prestes _ 13_08_2015

sábado, 2 de maio de 2015

Uma festa punk



São Roque, em meados de 1997 e início de 1998, fervilhava com bandas punks e hardcores. Bem, eram várias bandas com os mesmos integrantes, mas cada uma com seus estilos e nomes diferentes. Baseados nos princípios de justiça social, quebra de preconceitos, e da anti-musica, nós organizávamos “ Gigs” de punk/grind/hardcore. Éramos tão “do it yourself” que logo nos tornamos referencia para outras cidades. Vivíamos e nos relacionávamos com Noises, Griders, Streght Edges, Punks, Anarco Punks, Emos, Hardcores da mesma forma, não havia separatismos em São Roque. Amigos de todos os grupos, não nos importávamos com cobranças de determinadas pessoas, para determinas bandas não tocarem em nossos shows. Os nossos princípios de igualdade acabavam passando por cima de picuinhas “corporativistas” e que chamávamos até bandas rivais para tocarem juntas em nossos shows.
Quando não havia espaço (bares, salões), os shows eram realizados na minha casa em Maylasky, no quintal, ao ar livre. Certa vez choveu, e os fios do microfone ficaram expostos na grama molhada, e vocalista levou um choque. Ele sofrendo o choque e nós alucinados pensando que ele estava sendo performático. Este show para ele foi chocante e marcante para nós.
Os ensaios das bandas São Roquenses eram realizados no Crust Studio, agora minha atual casa, onde no meu quarto tenho pesadelos grindcores. Certa vez perguntaram para minha mãe se aqui era uma escola, de tantos adolescentes que vinham de mochila. Vó Maria ao final da tarde preparava aquele café para todos nós e lá se iam de 30 a 40 pãezinhos.
No meu aniversário de 17 anos, pedi para minha mãe que ela patrocinasse um show, e ela assim fez. Neste Gig organizado por mim, Anderson e Cristiano, chamamos as seguintes bandas: Araukana, She´s (minha banda de HC melódico), Againe (venderam muitas camisetas), Dischord (banda do meu irmão), SK Youth (saudades do meu amigo Marcelo) e Dance of Days. O show foi uma loucura, todo mundo curtindo muito. Regados a pão com mussarela (patrocinada pela mãe do Cris) e Plin Plin de Abacaxi (refrigerante da cidade).
Nesta época não havia facebook ou e-mails para espalhar notícias de shows. O cartaz era montando com recortes de Jornais, e os nomes das bandas impressos na matricial, recortados e colados. Depois tirávamos xerox em sulfite colorido e despachávamos via correio como carta social, que na época custava R$ 0,01 centavos de reais. Alias a carta era nosso meio de comunicação com bandas e fanzines, os carteiros já sabiam o destino mesmo que o endereço estivesse errado, mas todos os dias esperávamos ansiosamente pela correspondência, e quando não havia nenhuma ficávamos com um vazio imenso.
O show do meu aniversário, foi um marco, dando espaço para muitos outros no mesmo espaço e o slogan do cartaz passou a ser: São Rock não é uma Ilha. Depois deste show entramos na rota oficial das bandas nacionais e internacionais que estavam em turnês. Sempre na correria conseguíamos locais para as bandas tocarem e o público para ir ao show, mesmo que a missão fosse um dia, como foi o caso do show do Dead Fish em São Roque no meio da semana.
Os shows mais punks e grindcores eram organizados pelo meu irmão Anderson, pelo Waguinho e o Finão, todos integrantes do Dischord. Em um dos lendários shows realizados, eu estava na portaria e fui assaltada por uns usuários de craque da cidade. Muito ingênua deixei o dinheiro na caixinha em cima da mesa e fui explicar o preço dos ingressos, o menino pegou a caixa e saiu correndo e fui correndo atrás dele até chegar em uma vila, e eu gritava: vou te pegar filha da puta, volta aqui. Detalhe, quem me conhece sabe o meu tamanho, penso: a adrenalina faz o sujeito acreditar que é um gigante. Voltei sem a caixinha, sem os furtadores e sem o dinheiro. Este furto causou indignação em todos que estavam no show, até que alguém disse: eu conheço quem roubou, foi o Nardão! Outra voz: Você sabe onde ele mora? E ele respondeu: Sim. Neste instante todos punks, devidamente paramentados com seus coturnos, moicanos, camisetas de bandas, cintos de rebites, começaram ir atrás dos furtadores. Moicanos dominaram ruas e morros de São Roque, só que um detalhe: geralmente quando se leva uma vida muito fora dos padrões não se tem preparo físico. Então eram punks cansados subindo morros! Lotamos a caçamba da S10 do Hudson (dono da aparelhagem de som) e fomos atrás do tal Nardão. Imagine um monte de punk e skatistas na porta da casa do camarada e ele troca a camiseta para tentar me enganar. Eu quase voei nele e disse é você! Neste mesmo instante chegou a polícia e disse: Você de novo Nardão? Vai ter festa na delegacia hoje. Poxa vida, nós éramos contra a repressão e aí surgiu nossa dúvida ética.
A caminho da delegacia, polícia na frente juntamente com meu irmão e no banco de traz Eu, Nardão e Cristiano. Chegando a delegacia os policiais adoraram ver o meliante, e todos riam e diziam: festinha hoje. Momento de reunião entre Cris, Paula e Anderson, decisão: deixa para lá. O acusado ficou morrendo de medo, pois ele não sabia se valia mais a pena apanhar dos policiais, ou dos punks que estavam aguardando do lado de fora, mas nós não iríamos fazer nada com ele. E ele acreditava? Achou suspeita a retirada da queixa.
O nosso dinheiro já havia se perdido, sendo assim todos que estavam no show contribuíram para ajudar nos custos com aparelhagem e aluguel do salão, em um gesto de solidariedade. Este é o verdadeiro espírito punk rock.
Assim, passaram alguns meses meu irmão encontrou o Nardão no bar e ele agradeceu por aquele dia e pediu desculpas.
Várias tardes de ensaios com cara de shows, antigas noites de reunião e discussão, antigas idéias que permanecem até hoje dentro de nós, antigos debates marxistas X anarquistas, lindas amizades.
Existem mil histórias que eu poderia contar neste texto, pois foram muitos shows, muitas confusões e muita diversão, momentos que marcam a vida, muitas conquistas, muitas adversidades, muitos aprendizados. por Paula Andrea Rizzutti Prestes

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

FILOS SOFIA


Na vida, sempre amei sem ser correspondido, é difícil acreditar em cara metade, em alma gêmea quando tudo dá errado na sua vida, mas sempre tento manter a esperança mesmo na minha descrença.

Sou músico, toco na noite e tenho um estúdio onde dou alas de percussão. Não é fácil ter dinheiro quando se escolhe essa vida, pois a grana é sempre curta. Porém, música é alma e ela me alimenta, independente dos míseros cachês . Infelizmente, os bares e casas pensam que não é um trabalho e sim uma diversão, e chega ser sofrível negociar cachê. E nesse mundo perverso conheci Lúcia. Uma morena, baixa, olhos castanhos e rasgados e foi na fila do banheiro. Ela me olhou profundamente e logo estávamos ali atacarracados por uma força maior, rolou química e tesão.

Ela no bar me puxou para o banheiro e logo me vi entregue e pensando que mulher seria aquela, tão determina em suas paixões. Creio que a fila aumentou nesse tempo, mas ninguém se atreveu a interromper nossos espasmos naquele banheiro sujo, tosco e fétido. Naquele momento me apaixonei! Era a mulher da minha vida! Porém, após o coito ela saiu sem falar nada e fiquei ali pensando no que tinha acontecido. E gritei Lúcia, aonde vai!?E ela disse adeus. Fiquei paralisado e logo desci as escadas atrás do amor da minha vida e não acreditei no que pude ver. Sim, lá estava Lúcia abraçada com uma mulher da sua altura e tão morena quanto. Eu perguntei o que era aquilo e ela disse:

- Tá louco, sai daqui!

- Você me deve uma explicação.

- Esse cara é louco amor! Que você quer?

- Quem é ela, Lúcia?

- Minha esposa e não te interessa. Vamos amor sair daqui.

Fiquei mais uma vez em choque e arrependido de ser tão fraquinho de não resistir a esse amor pueril, por ficar excitado tão rapidinho, por ter saído com uma mulher casada com outra mulher. Fui juntar meus instrumentos e meus cacos e descer Augusta, reflexivo em meio aos seus reflexos da madrugada. Chegar ao Anhangabaú demorou naquela noite.

É difícil pensar em amor se levar em conta os casos da vida noturna, pois são rápidos, passageiros e fugazes. Nem sempre existe uma pessoa disposta a falar sobre as coisas da vida e aprofundar a relação. Às vezes, pego telefones que não vou ligar e às vezes ligo e sou ignorado.

Geralmente, estudo um pouco de dia antes de receber meus alunos. Dou aulas à noite, pois prefiro as tardes durante a semana. A rotina de tocar em bar esgota um pouco, então prefiro ir ao cinema, teatro e às vezes passear pela Teodoro. Pena que os instrumentos no Brasil sejam tão caros. Gosto de instrumentos turcos, indianos e não consigo comprá-los tão imediatamente. Minha onda agora é tocar tabla indiana, o som me transporta para um outro universo, há uma conexão mística que transcende e o tempo inexiste naquele momento. Gosto de cantar alguns mantras e meditar e numa dessas eu conheci Sofia.

Sofia era uma menina meiga, loira, estatura média, corpo violão e que sabia tudo sobre meditação, ela podia doar energia. Ela falava do mundo com amor e do amor como único e ali estava eu, perdidamente apaixonado por aquela criatura doce e sexy ao mesmo tempo. Era conectada com a natureza. Depois de muitas conversas sobre óleos, florais, massagens e Deeksha, ela me deu um beijo e conheci sexo tântrico no mundo de Sofia. Passávamos as tardes juntos, parávamos para ver o pôr do sol, o canto dos pássaros e se perder em beijos molhados e demorados e foi num desses dias que a pedi em casamento. Ela disse sim e foi assim que decidimos construir nosso lar. Ela dizia que iríamos fazer uma casa sustentável e seus olhos brilhavam ao falar de sistema de captação de água da chuva, ela crescia junto com as plantinhas do nosso telhado vivo e deixava tudo mais colorido com nossas tintas orgânicas. Nós temperávamos nosso amor plantando temperos na nossa hortinha e transbordávamos em luz com nosso teto solar. Até que fui calcular as despesas desse nosso sonho e começou a bater um desespero profundo.

Sofia não tinha um trabalho convencional, vivia de suas terapias e ela doava mais do que recebia, pois ela dizia que era missão. E eu músico, tocando em bares quase por merreca e com poucos alunos na escola. Bem, tenho meu estúdio e se eu der aulas somente de bateria e percussão. Sim, é o que mais gosto de fazer apesar de saber tocar instrumentos de corda. Vendo meu baixo, minha tabla, minhas caixas e meus pedais. Juntando tudo dará uma boa grana e foi assim que fiz. Vendi tudo que era possível e fui negociar terrenos. Sofia me ligava animada com nosso sonho.

Após anunciarnos sites de vendas, consegui pegar uma grana. Conversei no banco e consegui um empréstimo e eis que encontrei um imóvel com quintal e tudo, como havíamos sonhado. Conversei com o proprietário e dali seguimos para a imobiliária. Fechamos o contrato e paguei a primeira parte da casa. Havia um sorriso incontido e a vontade de ligar para Sofia, porém o dia tinha sido extremamente corrido e não havia dado tempo. Senti saudades da sua voz e cheguei a ficar preocupado, pois não havia nenhuma ligação dela no meu celular. Enfim, cheguei em casa e me deparei com o vazio do meu estúdio, mas era por uma boa causa, indiquei os alunos para alguns colegas e estava tudo certo. Casaria, amaria e viveria feliz para sempre ao lado daquela mulher. Pronto para contar a novidade para Sofia, porém a campainha tocou e era Roberto,que tocava violão em uma das bandas da noite.

- Apareceu um show agora num barzinho. Tá afim de tocar comigo?

Agora com o casamento não podia recusar trabalho e depois ligo contando as novidades para Sofia.

- Claro! Só pegar os instrumentos e já vou.

- Cara, o que você fez com seus equipamentos?

- Vendi, vou casar.

- Vendeu tudo?

-Sim, precisava comprar minha casa.

- Você é louco? A gente usava o equipamento para tocar e você alugava para gravar também.

- Cara, foi questão de urgência. Logo reponho tudo. Tenho que aumentar o número de alunos e seguir em frente. Vai dar tudo certo! Vou ser o cara mais feliz do mundo! Tenho a mulher mais incrível do universo.

- Cara, a vida é sua, mas você devia ter feito as coisas com calma.

- Um homem apaixonado faz qualquer coisa para ficar perto da mulher que ama!

- Tem doido para tudo, né? Bora tocar então, antes da forca descer.

Cheguei tão cansado aquele dia que não tive forças sequer para ligar para Sofia e ela também não havia me ligado e isto me intrigava. Talvez ela tenha ficado até mais tarde na Deeksha ou talvez ela tenha ficado cansada e dormido mais cedo. Talvez seja melhor ligar agora para Sofia.

- Oi Amor.

- Oi

- Tudo bem?

- Tudo.

-Você não sabe o que tenho para contar.

- O que?

- Comprei nossa casa

- Aé?

- Como assim? Aé? Ei, comprei nossa casa! Falta o sistema de captação, o teto solar, mas a gente vai fazendo isso aos poucos.

- Ahã

- Tudo bem? Você não me ligou e está estranha.

- É, passei o dia ocupada!

- Nossa, você nem me ligou hoje.

- E o que mais você tem para me dizer?

- Como assim? Eu disse que comprei nossa casa! Não é uma notícia para preencher um dia inteiro?

- E só isso?

- Fui tocar agora à noite para conseguir mais dinheiro e aquele site de vendas pela net funciona mesmo. Consegui vender inclusive a tabla em tempo recorde.

- Então se é só isso que tem para me dizer já está dito.

- Amor, o que houve? Eu não estou entendendo.

- Márcio, não me chame mais de amor. Nós não nos casaremos mais.

- Isso só pode ser brincadeira, Sofia. Como assim? Acabei de comprar uma casa.

- Hoje é meu aniversário e você não se lembrou.

- Amor, meus parabéns! Nossa! Como eu poderia me esquecer! Me desculpe, mas é que o dia foi tão cheio e acabei esquecendo.

- Não caso com quem esquece meu aniversário.

- Sofia, para de ser boba.

- Márcio, foi bom te encontrar, mas é isso o que tenho a lhe dizer. Não me procure mais! Se você acha que a casa é mais importante do que eu, fique com ela.

- Amor, só pode ser brincadeira. Eu vendi meu estúdio, me endividei todo para comprar essa bendita casa, a gente ia casar, ter filhos e praticar yoga todas as manhãs.

- Adeus, Márcio.

Tu tu tu tu tu...

Eu não poderia acreditar no que estava acontecendo. Um súbito desespero tomou conta do meu ser. Olhei ao redor e minha casa praticamente vazia. Peguei o contrato no aparador e junto com ele contas e aluguel. E eu ali desolado e sem saber o que fazer.

Liguei para a Sofia novamente e nada. Amanhã vou na casa dela, não é possível uma coisa dessas.

Passei o dia cercando a porta e sua mãe disse que ela não estava.E montei uma barraca e nada de Sofia sair.

A mãe dela me levava água e comida e mandava eu ir embora. Disse que o aniversário era uma coisa muito importante para Sofia e que eu havia cometido o erro mais grave que um homem poderia cometer.

Depois de uma semana tentando, eu tive que admitir aquela máxima escrita por Pascal que todos conhecem: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

escrito por: Paula Rizzutti em 20/02/2015