segunda-feira, 25 de novembro de 2013

FURTO

Existe uma coisa que não suporto nesta vida: que as pessoas sempre apontem a minha capacidade de desorganização e esquecimento sobre as coisas. Quando alguém não consegue deixar uma roupa no lugar, é porque isto é uma tarefa difícil dentro do cérebro. O ser humano possui limitações, e a minha é esta. Não consigo deixar um ambiente sem minha cara por muito tempo, e, às vezes, acontece de perdemos alguma coisa em meio a tempestade. Vá dizer que isto nunca lhe aconteceu? Duvido. Onde está sua chave do carro neste instante? O seu celular? Meu caro, se você não bateu no bolso, ou olhou na bolsa é porque é realmente organizado. Se você foi desesperado abrir a bolsa, procurou e o coração acelerou, é porque nos parecemos muito, meus amigos.

Na vida de uma pessoa pouco organizada, há uma certa adrenalina toda vez que se precisa de algo urgente, e o pior é pedir ajuda, porque as pessoas não perdem a oportunidade de dizer: de novo? Precisa se organizar! Eu já sabia! Não guardou no lugar certo? Mas estas perguntas são em vão, porque a minha mente só se sentirá culpada por questões de segundos, então o ditado de “água mole e pedra dura, tanto bate até que fura” não funciona muito bem, quando há este devaneio de cérebro. E o que de bom em ser assim? Não sei, mas que é bom ver o desespero nos olhos de um metódico quando olha para sua mesa de trabalho, e ele tem que te entregar um documento super importante. Talvez seja sádico, mas é divertido! E vou te falar, nunca perdi nada importante, apenas sumiu temporariamente, questão de algumas promessas de 10 pulinhos para São Longuinho. 

Na manhã passada fiz a minha rotina diária para ir para o trabalho: acordei atrasada de fato, não tinha pão em casa, só tomei meu café. Aliás, este é meu companheiro de todas as manhãs. Me dá energia, vitalidade, faz parceria, filosofa comigo, não me abandona e nem me critica! Café não é um líquido escuro que se toma quente, café é filosofia de vida, é postura, é convicção. Ainda chegarei a tomá-lo sem açúcar, café cowboy não é para os fracos! Mas ainda deixo que o açúcar tome conta do seu aroma! Enfim, fui pegar o ônibus e olhei no celular e constatei que iria chegar ao trabalho atrasada, e decidi não olhar mais para ele até o meu destino. Meu celular é daqueles que você faz um plano mensal mais barato e paga o aparelho, porque sempre pensei que celular é para fazer e receber ligações, não precisa nada além disso! Afinal, ele me servia mais como relógio mesmo! 

Sentei como de costume no ônibus, deitei o banco e inevitavelmente adormeci. Minha bolsa sempre fica no meu colo, durmo abraçadinha com ela, e não desgrudo por nada, porém neste dia algo de novo aconteceu. Chegando no trabalho precisei consultar um número na minha agenda e fui pegar o celular da minha bolsa e nada. Sabe como é bolsa de mulher, cabe um mundo inteiro. Então comecei a tirar infinitas coisas: óculos, carteira, passes, livros, guarda-chuva, bananas, batom e nada. Como sou inevitavelmente desorganizada, procurei pelo escritório inteiro e comecei insistentemente a me ligar, e colocar o ouvido em todas as gavetas e compartimentos possíveis, afinal de contas, quem não se liga ou pede para alguém ligar para saber onde está o celular? E numa tentativa frustrada, conclui que ele realmente não estava naquele lugar, quiçá naquela cidade ou até mesmo naquele país. Quem neste mundo roubaria um celular baratérrimo que só faz ligação e tem notas de coisas inúteis como: “ acordei com vontade de abrir um bar, mas abri minha conta bancária antes e desisti”, ou “antigamente o mundo era bipolar e hoje as pessoas são bipolares”. Nem mensagens eróticas ou fotos comprometedoras havia no celular, porque deve ser a primeira coisa que o sujeito procura, e já vou avisando, não sou destes fetiches pós-modernistas! Enfim, havia uma agenda com códigos secretos para não descobrirem quem era da minha família, talvez alguém tentasse dizer que eu estava sequestrada se visse na agenda “mãe, casa”! Então me antecipei e escrevi no facebook e postei num status narcisista como se alguém de fato estive interessado na minha vida, que havia perdido aquele aparelho e aos meus amigos que me enviassem seus números in Box. Neste instante, descobri que meus amigos não são os 430, e sim 04, que me enviaram seus números rapidamente, geralmente são as pessoas que falo pessoalmente também. Num estranho deslumbramento fiquei feliz, com o sorriso de ponta a ponta na orelha, “estes são meus amigos de verdade”! Numa regra de três simples: você tem 0,93% dos seus amigos do facebook que são seus amigos, ou vamos arredondar para 1%, porque alguns realmente prefiram me dizer pessoalmente: “de novo perdeu o celular? Anota meu número aí”.

Eu sou meio metódica, meio besta, meio sei lá o que, mas tenho a minha política para adicionar pessoas no facebook, embora eu pudesse estar com 1000 amigos, eu prefiro ter 400 que eu vi a cara uma vez na vida, ou já falei, acho mais honesto comigo mesma! Isto inclui uma antipatia e poucas curtidas em fotos, “posts” e não tenho seguidores, se é que é necessária esta informação.

Enfim, voltei para casa desolada e meu marido resolveu ligar novamente para o meu aparelho, na última tentativa de estabelecer contato com alguma voz que, nem que viesse do além, seria capaz de desvendar a tragédia que ocorrera naquela manhã de um dia normal, em que eu tirava meu cochilo matinal naquela poltrona que praticamente já era parte do meu ser!

Foi quando estranhamente um homem atendeu! E ainda atendeu uma ligação a cobrar! Formidavelmente eu tenho créditos gerados pelas incríveis promoções e porque geralmente não ligo para ninguém para consumi-los, só quando é muito necessário, como meu marido ir me buscar na Raposo Tavares quando chego do trabalho, mas dura 2 segundos, porque não é um diálogo e sim uma informação: já estou em Vargem Grande. 

-- Alô, com quem gostaria de falar? Disse a voz

-- Eu sou a dona do celular que você está usando.

--- Nossa! Não acredito! Fico até constrangido, mas comprei este celular ontem de manhã por R$ 20,00. Sabe como é? Eu precisando, alguém vendendo! Mas não sabia que era roubado.

--- Então, não sei se derrubei no chão, aonde você comprou?

--- Em Cotia.

--- Eu pego o ônibus no ponto do Cotia, pode ser que eu tenha derrubado e alguém achou e te vendeu.

--- Eu comprei de um homem quando descemos em Cotia.

--- Por acaso você estava no Cometa?

--- Sim, estava!

--- Então, me roubaram o celular e você comprou. E sabe o que me revolta é que não tem nada demais no celular, só que perdi a minha agenda toda.

--- Realmente o aparelho é bem simples, né?! Só liga!

Neste instante respirei fundo, porque eu poderia falar mal do meu aparelho, agora aquele receptor sem vergonha e descarado, este não podia!!

--- Pois é, ferrou com a minha vida!!

--- Se quiser posso te devolver! A gente marca um encontro aqui em Cotia, e você me traz R$ 20,00, que foi o valor que paguei, e te devolvo sem problemas!

Quanta cara de pau. Pensei! Era como se ele estivesse me fazendo o maior dos favores!

---- Bem, como o aparelho não vale nada, não compensa eu ir buscar! Pode ficar com ele. Estou fazendo um Boletim de Ocorrência e vou bloquear o chip agora mesmo e você não vai mais conseguir usar, então providencie e seu chip.

---- Então moça, como é seu nome?

---- Paula.

---- Então Paula, vamos fazer o seguinte não bloqueie e se você mudar de idéia, é só me ligar, você tem meu numero.

Fiquei perplexa como que acabara de ouvir. Como assim? Você tem meu número? Ele tem meu número. Pensei em dizer, seu grandessíssimo filho duma mãe que dorme com todo mundo e cobra por isso, o celular é meu! Você quem está errado, eu não tenho que negociar! Eu vou chamar a polícia! Receptação é crime! Mas apenas respondi:

---- Estou bloqueando e pronto, passar bem!

---- Desculpa mesmo, fico constrangido mesmo! Boa noite.

Finalizamos a conversa, bloqueei o chip, e comprei um celular novo. De raiva comprei um com internet, câmera e instalei WhatsApp. Ainda não estou com o bichinho virtual que parece uma palheta para alimentar, e talvez nem o tenha. Na galeria de fotos deixei a foto do Mussum escrito: “statis” e a do Sérgio Maladandro escrito: “pegadinha do malandro!”. Assim, se alguém quiser me furtar de novo, haverá com o que se distrair, até eu ligar para novas negociações.

Escrito por Paula Rizzutti em 24/11/2013.