Do mundo das contas para o mundo dos contos! Quando pensei em criar um nome para o meu blog, não achei nada mais conveniente que este, porque a ambiguidade de sentido da palavra Contadora nos remete a pensar: Contadora do quê? Sou contadora de formação e no blog também sou contadora, mas de histórias. Espero que gostem da simplicidade, do amor e o carinho que deposito em cada conto. Sejam Bem-Vindos!! Boa Leitura.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Estranho
Acordei de forma errada
Havia algo diferente em mim
A cabeça tomada por
pensamentos que pareciam vazios
Havia algo inexplicável
Incoerente com aquilo que acreditava até a noite outrora
Sentia uma angustia
Que logo se transformaria
Na sensação feliz de ser mutável.
SÓ
Só
"Desde a infância não fui
Como os outros foram; não vi
Como os outros viram; não pude
apaixonar-me numa primavera comum.
Da mesma fonte não sorvi
Minha tristeza; não pude despertar
Meu coração à alegria no mesmo dó;
E o que amei, amei só.
Então- na minha infância, no madrugar
Da mais turva vida – fez-se retirar
De todo o bom e mal profundos
O mistério que ainda me põe sem mundo;
Da torrente, ou da fonte,
Do cume escarlate do monte,
Do sol que me entornou, rodado,
Em seu outonal tom dourado
Do raio no céu
A atravessar-me em seu véu
Do trovão e o temporal
E a nuvem corporal
(A contradizer o céu azul)
Fez-se demônio em meu vitral."
Edgar Allan Poe
"Desde a infância não fui
Como os outros foram; não vi
Como os outros viram; não pude
apaixonar-me numa primavera comum.
Da mesma fonte não sorvi
Minha tristeza; não pude despertar
Meu coração à alegria no mesmo dó;
E o que amei, amei só.
Então- na minha infância, no madrugar
Da mais turva vida – fez-se retirar
De todo o bom e mal profundos
O mistério que ainda me põe sem mundo;
Da torrente, ou da fonte,
Do cume escarlate do monte,
Do sol que me entornou, rodado,
Em seu outonal tom dourado
Do raio no céu
A atravessar-me em seu véu
Do trovão e o temporal
E a nuvem corporal
(A contradizer o céu azul)
Fez-se demônio em meu vitral."
Edgar Allan Poe
quinta-feira, 25 de julho de 2013
SUFOCO
Hoje está frio, e caminhando sou capaz de sentir o vento entupindo minhas narinas, a face congelando, as mãos petrificadas, e entra um assovio agudo em meu ouvido, me arrepia a alma e estremece o corpo todo, como um bambu quando tocado, tremendo sem cair. As ruas estão vazias, talvez o único que goste de ir ao cinema à noite com este frio sou eu, um verdadeiro andante gélido, sem alma, amante da arte e da beleza. Escolho a última sessão para não me deparar com o público adolescente e nem com casais que fazem barulho mastigando míseras pipocas e sugando até o fim aquela merda de refrigerante, e aqueles “combos” capazes de durar o filme inteiro, que engorduram a mão, o banco e alma. Se houvesse pombos haveria comida para a vida inteira, pois espalham porcamente, entre risos e assombros, as migalhas.
Assisto ao filme com imenso deleite e sufoco a vontade de chorar por várias vezes, adoro filmes árabes, conflitos do oriente médio me envolvem de uma maneira que me sinto ultrapassando a faixa de gaza com uma imensa faixa : Palestina Livre! Adoro também as músicas, as danças, o pão sírio e o tabule!
Quando saio do cinema já me vem o desespero do dia seguinte: dou aulas de português numa escola estadual, e tenho dores de cabeça só de pensar em todas as tentativas de ensinar e me frustrar na hora seguinte, mas a esperança freireana vai me empurrando nesta caminhada. Hoje houve uma confraternização entre os professores, eu fico indignado com meu salário, mas fico ainda mais indignado quando a confraternização tem frango com batata, e ainda por cima há professores escondendo cervejas por debaixo das mesas para não dividir, esta síndrome de cachorro vira lata, às vezes me assusta Tudo bem que ganhamos uma merreca por aula, mas poderíamos comer com mais dignidade. Saí revoltado e esbravejei e os professores ficaram revoltados com a minha postura e disseram que seu eu era tão mão aberta assim, por que eu não trocava de carro. O que há de mal em ter um Fiat 147? Só pode ser inveja, pois ter uma raridade dessas é para poucos.
Bem, vamos embora que já é hora, dormir após um dia estressante, um almoço frustrado, mas pelo menos o filme é bom. Sigo para o estacionamento, mas algo estranho dentro de mim começa a se manifestar. Ai! sinto uma pontada na barriga, um barulho se forma dentro dela. Continuo a andar, penso que não há de ser nada, mas está tudo comprimindo dentro de mim, não é possível, são cólicas intestinais? Puta que o pariu! Começo a suar e procurar desesperadamente um banheiro, mas não vejo nada ao redor, nenhuma padaria aberta, nenhum boteco. Tento equilibrar meus pensamentos, um banheiro é a coisa mais importante da minha vida neste momento. Suor correndo em minha testa faz me delirar, vejo uma porta azul com um homem desenhado na porta, vejo W.C em todos os muros e não posso mais suportar. Peço a Deus para encontrar algum lugar, mesmo sendo ateu. Porque será que não há um posto, um mercado, uma porra de lugar aberto nessas horas? Maldito frango com batata! Revertério dos diabos! Canto canções árabes: “aimkibesfirrãããããã, coalhadasecããããããã”. Me sinto um camelo no deserto. Nunca pensei que iria soltar tantas bombas e a única coisa que quero ver livre é um assento sanitário. Avisto uma vila, a entrada possui um vão e vai ser lá que vou aliviar minha pressão. Abaixo as calças e de repente uma luz se acende e sinto o calor da lâmpada tocar minha bunda, viro-me e há uma câmera! Saio correndo, porque não suportarei tanto tempo, penso no filme, dança do ventre, prisão de ventre e o meu ventre começa a dizer: está na hora! Vejo uma pracinha e minha salvação se aproxima, quando começo a me posicionar:
--- Não é possível, um casal no paraíso!
--- Cara não dá, saiam daqui agora porque não posso esperar.
--- Como? Você irá utilizar a praça, seu porco! Disse a namorada desesperada.
--- Não quero nem saber, a moita é minha e ninguém me tira dela. Se quiserem ver um frango com batata condensado, fiquem aí, mas me deixem aqui!
O casal saiu indignado com o meu desespero e eis que a vem uma voz do além e diz: Amém.
Eis que a velocidade da luz fica pequena perto dos alívios fisiológicos da vida. Esta história escatológica já pertenceu a você pelo menos uma vez na vida, e com certeza irá valorizar a cada minuto, pois eles são essenciais, principalmente na hora do desespero.
No dia seguinte, após a imensa noite árabe de terror, chego a escola com vontade de colocar laxante na comida do diretor. Ele veria o perrengue que uma pessoa passa, por uma decisão muquirana. Onde já se viu? Passarei um bom tempo longe de frango com batata. Pego meu material e vou para a sala de aula.
---- Bom dia.
A sala começa a rir e não entendo o porquê.
---- Está bem professor?
Notei um tamanho sarcasmo na voz daquela criatura.
---- Sim, por quê?
---- Porque o senhor estava ontem adubando as plantas da praça!
Os alunos começaram a rir e vozes apareceram no meu subconsciente: cagão, cagão, cagão!
Quando você pensa que se livrou de um sufoco, eis que outro aparece.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
O PIPOQUEIRO
João era um sujeito robusto, mediano, cara amarrada, provavelmente marcada por sofrimentos e álcool. Ninguém diria que Pipoqueiro é a sua profissão, porque esta representa alegria, crianças, cinema e fuga das refeições politicamente corretas. E ele, com sua cara carrancuda, olhar distante e esquizofrênico, poderia deixar distante qualquer cliente apavorado. Talvez ele transborde de simpatia no trabalho e nos engane temporariamente, nos convencendo a comer o milho, bacon, sal, manteiga, aroma inconfundível durante os estouros inquietantes. Há também as adoráveis pipocas doces, em São Paulo elas são vermelhas e no Rio Caramelo, mas ambas lambuzadas pelo açúcar que vicia!
O que haveria de errado com João? Talvez sofra de transtorno antissocial da personalidade, ou seja, psicopatia, mas pode ser confundido com um bêbado normal dentro de um bar, e foi assim que o conhecemos.
Em uma noite típica de inverno, as pessoas tendem a se retrair para não sair de seus aposentos, tendem a ser dominadas pelo pecado da preguiça, mas sempre existem os que resistem às rajadas de vento e ao frio descomunal e saem a procura de diversão, de risos, cervejas e conversa.
João naquela noite resolvera beber umas “biritas” para aquecer-se do frio, escolheu um bar, estacionou o seu carrinho e entrou.
Ao avistar o bar, vimos a primeira cena estranha e nada convencional: um carrinho de pipoca parado em frente a um bar de rock, o que é no mínimo engraçado.
- Marcos está vendendo pipoca? Perguntamos ao nosso amigo que estava parado atrás do carrinho.
- Eu não, o pipoqueiro foi ao banheiro e já volta!
Entramos e percebemos aquele senhor esquisito, nos olhando com um ar desconfiado e ao mesmo tempo dopado, havia acabado de sair do banheiro.
Com um olhar estranho começou a prestar atenção na conversa. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, apenas saberia dizer que havia uma preocupação eminente, ele acabara de utilizar o sanitário do bar, haveria ele lavado ou não a mão? Afinal, manipulava as pipocas e elas poderiam ser invadidas por coliformes fecais e possíveis distúrbios gastrointestinais poderiam surtir em quem as comesse.
--- Marcos, com um ar preocupado, perguntou:
--- Ei, John, é real este negócio de golpe comunista em 2014?
--- Sim, é real Marcos, estamos todos juntos, tomaremos o poder.
Nisto João virou-se assustado, e num movimento de vai e vem nos encarava como se fôssemos inimigos.
Marcos nos olhou preocupado e ficou com medo do que poderia acontecer depois do golpe.
João tentava puxar assunto com um ou outro no balcão, andava pelo bar, num vai e vem de gastar o chão, e sempre que passava, parava e nos olhava desconfiado.
Rimos e víamos que realmente existiam pessoas preocupadas com o golpe comunista em 2014, até que fomos interrompidos por uma voz:
- Golpe, eu estou dentro! Sou contra tudo o que está aí!
E realmente ele era negro, pobre e contra todas as políticas sociais e inclusivas, Tim Maia tinha razão: “O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão sentir ciúmes e traficante ser viciado, o pobre é de direita”.
Percebemos novamente um olhar estranho sobre a conversa, era João. Não saberia dizer ao certo o que se passava pela sua cabeça, mas estava nos intrigando. Será que estava bêbado, será que era o golpe, será que era um bandido? Será que estaria condenado a beber vodka russa ao invés da sua velha cachaça brasileira?
Eis que Marcos decide divulgar o Golpe para o dono do bar.
- Após o golpe estatizaremos o bar, e cerveja será distribuída de forma igualitária e justa aos frequentadores do estabelecimento.
João, após a notícia, ficou mais inquieto ainda e ficou totalmente descontrolado com a possibilidade da tomada do bar, afinal de contas era ali que ele tomava sua aguardente, deixava suas mágoas, buscava amigos e tentava, naquele momento, estabelecer diálogo com os bebedores ao som gótico estridente rolando no bar. Talvez ele quisesse dançar e pensar na vingança para aqueles comunistas de plantão, talvez pensasse o que duas mulheres estavam fazendo aquela hora no bar com barbados ruivos que decidiam qual o nome da cerveja após o golpe.
Realmente as passadas, o zigue-zague, as encaradas nos deixaram tensos, pois o pipoqueiro com aquele olhar psicopata transmitia a vontade de nos transformar em milhos para estourar!
Quando saímos do bar para ir embora, nos despedimos do dono e ficamos intrigados com toda aquela criatura que tomava esporro dos clientes e do dono do bar.
Após a nossa saída, um ar de bravura atingiu aquele homem e ele diz ao dono do bar:
- Ninguém vai tomar o seu bar! Me dê uma faca, porque eu sou é cabra macho!
-- Você quer um faca para quê? Pega seu carrinho e vai embora! Pare de encher o saco, por hoje já deu.
--- Me dá a faca, eu pego, eu mato!
--- Já falei para ir embora, ou vou ter que tira-lo a força!
--- Ninguém vai acabar com o bar, ninguém! Aqui é cabra macho.
--- Vai embora do meu bar agora! Não quero mais você aqui dentro. Pegue sua bebedeira e vai dormir. Não tem faca nenhuma aqui e mesmo se tivesse não ia te dar! Vai, vai, vai e me deixa em paz!
João, junto ao seu carrinho de pipoca já murchas e envelhecidas pelo sereno da noite não se conformava com o golpe e pensou em gravar um vídeo para colocar no facebook dizendo que era contra tudo aquilo e que as pessoas iriam se arrepender se continuassem, pois ele haveria de incrementar sua vingança com pimenta e Ajinomoto.
Haveria alguém mais sórdido que um pipoqueiro alcoólico psicopata na face da terra? Quando sair da igreja após receber a sua comunhão dominical, pense duas vezes antes de comprar sua pipoca, ele poderá estar a sua espera.
Escute o ranger dos pneus e o cheiro exalando nas praças, algo irresistível o espera.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
COENTRO OU SALSINHA?
--- Moça, pelo amor de Deus, você poderia me ajudar? Foi desta forma que fui abordada no supermercado há algumas semanas atrás.
--- Em que? Respondi prontamente.
--- Qual é o coentro e qual é a salsinha? Minha mulher me mata se eu levar errado de novo.
Senti pena daquele marido, desnorteado com dois pacotinhos na mão e por um instante passou tantas coisas pela minha cabeça. De certa forma a mulher estaria com razão, não há nada mais frustrante que esperar o último ingrediente para concluir seu prato e chegar o ingrediente errado. Neste caso, há um agravante ainda maior, o Coentro. A sua Mulher não iria simplesmente dar uma surra com o pacote de coentro em sua cabeça, e nem mesmo enfiar o coentro goela abaixo. Ela olharia o maço de coentro e ficaria com o rosto desolado e diria: - Não acredito! Isto é coentro! Eu pedi Salsinha! Mas você como sempre faz de tudo para me irritar, trouxe logo o Coentro. Ele com uma cara triste diria: - Desculpas, mas eu não vejo a diferença entre um e outro. E logo irritada e perplexa diria: Como não? - Não tem nada a ver coentro com salsinha. A cor é diferente, o cheiro é diferente e principalmente o sabor é diferente. É como se fosse as gêmeas Ruth e a Raquel de mulheres de areia, parecem iguais mas não são! Coentro é egocêntrico, ele quer aparecer mais que o prato principal! E de repente a Salsinha se tornaria o prato principal e o assunto para o resto da semana. Ela diria a familiares que a comida não estaria boa porque faltou salsinha, ela não perderia a chance de explicar inúmeras vezes quais as diferenças entre um ou outro, contaria para amigas e para os amigos e assim ele se sentiria constrangido com a proporção que a história tomaria.
Luiz Fernando Veríssimo não vê graça na salsinha, eu particularmente tenho pavor de coentro. A única criatura capaz de colocar o coentro egocêntrico no seu lugar é o Peixe. Por isso, que costumo utilizar esta erva somente em moquecas ou no peixe assado.
Então, me compadeci daquele pobre cidadão e disse: CLARO! E logo pedi para ele cheirar um e outro, mais de três vezes e ele aprendeu a não trocar mais as “inofensivas” folhas verdes! Logo a alegria encheu o seu rosto e me senti feliz por evitar um conflito que poderia a chegar a graves conseqüências.
E assim continuei as minhas compras, chegando em casa abracei o meu marido e disse: os complicadores da vida são os pequenos problemas. Ele respondeu: --- É verdade! O que teremos para o jantar? Eu respondi:- Pensei em peixe, mas deixa para lá!
--- Em que? Respondi prontamente.
--- Qual é o coentro e qual é a salsinha? Minha mulher me mata se eu levar errado de novo.
Senti pena daquele marido, desnorteado com dois pacotinhos na mão e por um instante passou tantas coisas pela minha cabeça. De certa forma a mulher estaria com razão, não há nada mais frustrante que esperar o último ingrediente para concluir seu prato e chegar o ingrediente errado. Neste caso, há um agravante ainda maior, o Coentro. A sua Mulher não iria simplesmente dar uma surra com o pacote de coentro em sua cabeça, e nem mesmo enfiar o coentro goela abaixo. Ela olharia o maço de coentro e ficaria com o rosto desolado e diria: - Não acredito! Isto é coentro! Eu pedi Salsinha! Mas você como sempre faz de tudo para me irritar, trouxe logo o Coentro. Ele com uma cara triste diria: - Desculpas, mas eu não vejo a diferença entre um e outro. E logo irritada e perplexa diria: Como não? - Não tem nada a ver coentro com salsinha. A cor é diferente, o cheiro é diferente e principalmente o sabor é diferente. É como se fosse as gêmeas Ruth e a Raquel de mulheres de areia, parecem iguais mas não são! Coentro é egocêntrico, ele quer aparecer mais que o prato principal! E de repente a Salsinha se tornaria o prato principal e o assunto para o resto da semana. Ela diria a familiares que a comida não estaria boa porque faltou salsinha, ela não perderia a chance de explicar inúmeras vezes quais as diferenças entre um ou outro, contaria para amigas e para os amigos e assim ele se sentiria constrangido com a proporção que a história tomaria.
Luiz Fernando Veríssimo não vê graça na salsinha, eu particularmente tenho pavor de coentro. A única criatura capaz de colocar o coentro egocêntrico no seu lugar é o Peixe. Por isso, que costumo utilizar esta erva somente em moquecas ou no peixe assado.
Então, me compadeci daquele pobre cidadão e disse: CLARO! E logo pedi para ele cheirar um e outro, mais de três vezes e ele aprendeu a não trocar mais as “inofensivas” folhas verdes! Logo a alegria encheu o seu rosto e me senti feliz por evitar um conflito que poderia a chegar a graves conseqüências.
E assim continuei as minhas compras, chegando em casa abracei o meu marido e disse: os complicadores da vida são os pequenos problemas. Ele respondeu: --- É verdade! O que teremos para o jantar? Eu respondi:- Pensei em peixe, mas deixa para lá!
segunda-feira, 8 de julho de 2013
DEFINITIVO
" Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional..."
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional..."
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 2 de julho de 2013
FELICIDADE CLANDESTINA
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
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