segunda-feira, 27 de maio de 2013

NINHO


Hei de fazer um ninho
Com palha, galhos e algodão
É uma construção complexa
Mas definida, sem amarras
É redondo como o mundo
Quadradas serão apenas algumas idéias dentro dele
Lá ficarei por longas horas,
Adormecerei profundamente
E quando amanhecer
Voltarei a voar sem asas
Num espaço sem limites
Onde somente os meus sonhos alcançarão!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

MÁ SORTE


“Carpe Diem”, lema da palestra motivacional hoje aqui na empresa. Nunca entendi porque o setor de RH insiste tanto em nos deixar motivados com frases impactantes, histórias de sucessos e vídeos com aquelas músicas de fundo para nos comover. Eu fico possesso quando ficam idolatrando o poderoso Abílio Diniz e ou a coisa fofa da Luiza (a do magazine) como exemplos de sucesso que devo seguir, como se minha pessoa pudesse ficar rica e famosa trabalhando como assistente administrativo neste lugar! Assisto a tudo, debocho às vezes, porque daqui a duas horas vou seguir a minha vida de peão, entrando às 8h e saindo às 18h, com míseras 1 hora de almoço, cumprindo minha jornada de 44 horas semanais, gastando 02 horas no trânsito e recebendo o contracheque com todos os descontos possíveis. Vivo enrolado com empréstimos consignados, descontado diretamente na folha. Agora eu sou assalariado, não detenho os meios de produção, logo não ficarei rico trabalhando!
            Dizem que sou pessimista e que atraio coisas ruins decorrentes de meu padrão de pensamento. É puro deboche isto, não?! As coisas acontecem porque eu penso negativo? É o seguinte, se o meu time vai mal no campeonato não é porque pensei negativo, e sim porque o Juvenal Juvêncio é o dirigente! Quando o clima tempo mostra que irá fazer máxima de 30 graus e o tempo fica chuvoso e frio, não é porque eu pensei negativo, e sim, porque fui enganado!  Agora eu tenho direito de reclamar e esbravejar sobre estas coisas! E isto não me faz um cara pessimista, mas realista.
            Nesta semana, eu resolvi provar para as pessoas que vou pensar somente positivo, não irei reclamar, não direi palavras de baixo calão e não perderei a paciência.
Hoje me inscrevi nas aulas de yoga e meditação, comprei um livro do Augusto Cury, baixei algumas frases do Roberto Shinyashiki, emprestei um livro do Osho, decorei alguns mantras, comprei um cd de “new age” e agora marcarei mensagens relaxantes semanalmente. Rumo à elevação espiritual, à descoberta do meu verdadeiro Eu!  Deixarão de me ver como o Pedro de Lara e passarão a me ver como o Brad Pitt. Embora este último seja egocêntrico demais, e tenho que me libertar do ego e da vaidade.
            Olha, lendo meu livro e aprendendo a manter a calma, estou me sentindo bem melhor com esta minha vida nova, até parece que o sol está mais amarelo, que a lua está mais redonda e que tem árvores na cidade.  Hoje tem reunião e estarei tranquilo para traçar as metas. Preciso chegar mais cedo, organizar o data-show, as pastas e a pauta. Roupa, cabelo, sapato, está tudo certo.  
            - Bom dia, universo! Que esteja conspirando a meu favor nesta manhã calma, serena e tranquila!
Saio de casa, entro no ônibus e digo: --- bom dia a todos! Ninguém responde. Pessoal mal educado! Digo um mantra para dissipar o mau humor. Abro o livro, leio duas folhas e durmo. Acordo e estamos praticamente no mesmo lugar.
--- Trânsito maldito! Mantra para acalmar!
Duas horas e nada de andar o ônibus, o que eu faço? As pernas começam a ficar inquietas, me viro para um lado, me viro para o outro. Ouço um estrondo. Caramba!  Será que este povo pensa que estão em casa para roncar feito um porco dentro do ônibus? Mantra para cultivar as amizades! Ligo meu aparelho de MP3 e começo a ouvir as canções da Enya e pensar num jardim, passeio com os pés descalços, vejo as flores, os pássaros, as frutas e adormeço.
- Ei! Chegamos, ponto final! Não vai descer?
- Puta que o pariu! Ponto final?! Como assim?! Porque não me acordou? Eu tenho reunião!
--- Meu irmão, ta me achando com cara de despertador de marmanjo? Não vou ficar cuidando de adulto babão! Só estava dando um confere antes de ir para garagem, senão você iria para lá! Quase três horas nesse trânsito e malandro ainda vem tirar uma com a minha cara. Se ele me pega de veneta, iria logo gritar com este sacripanta! Meu salário a donzela não quer pagar! A gente faz um favor e a pessoa critica. Que mundo é este? Está tudo perdido. Saiu esbravejando o motorista!
            Desço correndo, e pego um circular, destes articulados para voltar três pontos! Sigo chacoalhando, está lotado, vou passar pela sanfona e ela me joga para cima de uma senhora, e quase sento em seu colo.
            - Desculpa, me perdoe! Machucou, senhora?
---- Não presta atenção?! Disse mal humorada.
---- Vá para o inferno, então! Fia do capeta!
---- Vá você seu grosso, mal educado!
 --- Cadê a porra do mantra da tolerância?! Saio e deixo a mulher falando sozinha! Puxo a cordinha e desço.
Quando olho para rua penso: pelo amor de Deus, tenho que passar pela feira livre, é hoje! Foco, pensamento positivo! Eu sou aquilo que penso! Eu sou aquilo que como!
--- E aí senhor, banana, caqui e pêra! Vamos experimentar? Docinha Senhor.
--- Não, muito obrigado!
--- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Puta que o Pariu! Só sinto a barraca despencando na minha orelha! Que dor, que raiva! Quem não amarrou esta porra direito? Desgraça pelada!
--- Ai, Meu Deus, o Senhor está bem?!
--- Como estou bem? Eu estou fazendo de tudo, mas vocês não me ajudam! Estão todos contra mim! Isto é uma sabotagem para que eu não mude de vida! 
--- Senhor, Calma! Machucou?
--- Calma, porque não foi na sua orelha que a porra desta barraca despencou!
--- Senhor! O que posso fazer? Quer uma pêra ou uma maçã? Maçã acalma.
--- Enfia a porra destas frutas no teu ..., respiro fundo para não dizer o que estou pensando, mas está quase impossível de segurar.
            Uma coisa insana tomou conta do meu ser, uma vontade de chutar todo mundo e abrir meu caderno com todos os palavrões possíveis e necessários para humanidade. Vontade de aliviar a minha ira no primeiro vagabundo que passasse na minha frente. Dobro a esquina transtornado, será que a má sorte me pega novamente?
--- Puta que o pariu, um pombo acabou de cagar na minha roupa!

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Aniversário


O Zé Mané levava uma vida de lascar. Nem de leve pegava maré mansa. Seu trampo era pesado paca. Das oito da matina às seis da tarde debaixo de sacaria. Uma puxeta de entortar qualquer patuá. E o salário, claro que era o mínimo. Daí, já viu. Com a vida custando os olhos da cara, o Zé Mané mal podia pegar uma gororoba. Pagava oitenta jiripocas por uma vaga num quarto com mais três parceiros para ter onde encostar 0 cadáver. E o que sobrava era pra comer. Mas sobrava tão pouco. Na verdade, o Zé Mané só rangava todos os dias porque o Seu Joaquim Portuga, dono do boteco do pedaço, era um chapa ponta-firme e fiava o sortido pra curriola a perigo. E essa era a sorte selada do Zé Mané. Uma zorra sentida. Apesar de ter nascido com o urubu plantado no seu destino, o Zé Mané, quando fazia aniversário, gostava de se embandeirar, comemorar de se esbaldar e os cambaus. Sempre fora assim. Desde pequeno, considerava o dia do seu aniversário um dia sagrado. Não trabalhava nesse dia, nem nada. Só enchia a caveira de cachaça. E, quando fez trinta anos, não deu outra coisa. O Zé Mané já amanheceu ligado. Logo cedo, deu um alô pros companheiros de quarto:
— Tou fazendo anos hoje.

A turma fez a milonga:

— Boa! Parabéns!

— Quer dizer que hoje tu paga as manguaças?

— Tem que pagar. Afinal, o Zé não faz anos todo dia.

E o Zé Mané não escamou:

— Hoje é comigo mesmo. Nem vou pro batente.

Os parceiros não duvidaram. Mas quiseram saber da situação. O Ditinho Preto, mais chegado ao Zé, tomou a liberdade:

— Tu tá com grana pra garantir, Zé?

Naturalmente, o aniversariante não tinha um tostão no bolso. Mas nem se tocou. Confiando no Seu Joaquim Portuga, tirou de letra:

- Eu sei de mim. E, se mando ver, é porque garanto. Ô meu, tou fazendo trinta anos. Não sou nenhum moleque!

Encabulado, o Ditinho se desculpou:

— Não, eu sei. Mas é que nós, quando se dana a beber, bebe mesmo.

Todos riram. E o Zé Mané fez o apontamento:

— Sete e pouco tamos lá no boteco do Seu Quim.

Cheios de esperança na farra, os companheiros do Zé Mané se arrancaram pro trabalho. 0 aniversariante ficou na cama. No seu grande dia, ele não tinha hora pra acordar. Mas, pro encontro combinado, ele não se atrasou. Às sete em ponto piou no boteco do Seu Quim. Não teve que esperar muito pelos amigos. Eles logo baixaram na parada. E chegaram fazendo zoada. Pique-pique, parabéns pra você, hip-hurra e os cambaus. A patota toda presente ficou por dentro do assunto. Todo mundo abraçou o Zé Mané e ele espumou de alegria. Não maneirou. Convidou todos pra beber. A moçada não fez cerimônia com 0 otário. Se serviram. De saída, Seu Joaquim abriu duas dúzias de cerveja. E teve muito pilantra que ainda pediu pinga pra quebrar o gelo da cerveja. Sem conferir, o Zé Mané autorizava. Quando o dono do boteco vacilava, o loque berrava:

— Hoje é festa, Seu Quim. Bota aí, que não tem chibu. Tou fazendo trinta anos.

Com essas e outras, todo o gango se empapuçou. Já tinha nego cercando frango quando um gaiato resolveu tirar sarro com a fuça do dono do boteco. Sabendo que o homem era bronqueado com anedota de português, o pilantroso atacou na ferida:

— Escuta aqui, Zé Mané. Tu sabe que falaram pra um cutruco que ele tinha que pagar Imposto de Renda na fonte e o labrego acabou morrendo afogado?

A curriola estourou de rir. E conversa puxa conversa. Cada um sacou um esculacho em português. O Seu Joaquim azedou. Como não era homem de comer enrolado e não queria briga, resolveu acabar com a festa. E deu o aviso:

— Bom, já é tarde. Eu vou fechar 0 bar. Não sirvo mais nada, que já tão todos de pé queimado. Seu Zé Mané, o senhor que é o dono da conta, me faz favor de acertar e ir contar piada de português em outro canto. Aqui não quero isso.

Teve estrilo. Quás-quás-quás grosso. Porém, como era mais de meia-noite, o Zé Mané deu uma pá de cal na festa. Olhou no relógio e acalmou os ânimos:

— Acabou a festa. Meu aniversário foi ontem.

A patota se conformou. Já iam se mandando quando o Seu Joaquim deu o arrocho:

— E a conta? Quem paga?

O Zé Mané não balançou pra responder:

— Pendura.

Não prestou. O Seu Joaquim virou bicho. Já estava invocado com as piadas. Com o devo do Zé Mané, então, se picou de raiva. E deu a prensa:

— Não tem papo. Vai pagar já.

Pro Zé, que não tinha dinheiro, a novidade valeu por uma paulada. E deu a volta em tom bravo:

— Pendura, já falei. Sempre pendurou, por que vai fazer onda agora?

Teve início um bate-boca:

— Pendurei os sortidos.

— E eu sempre paguei.

— Mas bebida eu não vendo fiado.

— Agora que tu avisa?

— Tu já devia saber que não vendo bebida fiado pra vagabundo nenhum.

— Vagabundo é a mãe.

Xingar a mãe é sempre início de confusão. 0 português passou a mão num cacete, pulou o balcão e cobriu o Zé Mané de pancada. Ninguém se meteu. O Zé, bebum, mal podia com ele mesmo e apanhou coisa que preste. Ficou estarrado no chão quase morto. E só com muito custo impediram o português de mandar o Zé falar com Deus. O Ditinho Preto e os outros companheiros de quarto guindaram o Zé Mané. E a bagunça acabou aí.

No dia seguinte, Seu Joaquim estava firme no boteco, atendendo a freguesia, quando o Ditinho Preto se apresentou falando macio:

— Seu Joaquim, o Zé Mané tá com vergonha do que aconteceu ontem e pediu pro senhor ir ali na esquina, que ele quer acertar as contas com o senhor.

O português entrou no grupo. Até bochichou:

— O Zé é bom rapaz. Ontem ele estava bebido. Hoje ele acerta e fica tudo por isso mesmo. Vamos lá.

Na esquina, o português encontrou o Zé Mané. Mal viu o loque e manjou qual era o acerto. Quis correr, mas não deu. O Zé Mané meteu uma lapa de faca que não tinha mais tamanho na barriga do Seu Joaquim. O homem ficou embarcado. Mas, antes de morrer, ainda escutou o recado do Zé:

— Assim tu aprende a respeitar um pinta que faz aniversário.

Plínio Marcos

segunda-feira, 13 de maio de 2013

EXIGÊNCIAS DA VIDA MODERNA

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.
E uma banana pelo potássio.
E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia...
E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo - e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.
A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher... na sua cama.
Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora tenho que ir.
É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.
E já que vou, levo um jornal... Tchau!
Viva a vida com bom humor!!! Luís Fernando Veríssimo


quinta-feira, 2 de maio de 2013

REVIRAVOLTAS DA VIRADA


Somos tão carentes de espaços culturais que ficamos eufóricos quando algum evento acontece. Ficamos ansiosos, baixamos a programação, sonhamos com as atividades e com os show, ligamos para os amigos, compartilhamos todas as curiosidades dos eventos via facebook. Foi assim que começou a nossa Virada Cultural.
- Ei, galera, vamos ver Skatalites?
- Skatalites? Esta eu não perco por nada!
- Adoro aquele som! Tô dentro!
- Vocês estão sabendo que o Misfits também vai tocar?
- Nossa, que incrível! Skatalites e Misfits na mesma noite!
            Combinamos o esquenta no bar do seu Júlio: cerveja, animação e  caravana formada. Pegamos o ônibus até o centro de Osasco e tomamos o trem para Julio Prestes! Encontramos alguns amigos por lá e já estávamos como passarinhos, andando em bando! Seguimos para São João, onde estava montado o palco da banda que criamos a maior expectativa. No meio do caminho, pessoas bebendo pinga em uma tripinha de plástico, que nem sei o nome, mas deixava a galera muito louca. Compramos um pastel numa barraca de um chinês: “ canê, quesso ou flango? Coca no tem!”. Comemos e seguimos o fluxo rumo ao nosso objetivo. Sem brincadeira, me senti na marcha da maconha, seguíamos cartazes de Legalize Já, seguíamos a fumaça, havia pessoas penduradas nas árvores, como frutas, viajando no THC. Comecei a me sentir um gnomo louco perseguindo Shangri-lá!  Quando percebemos, não havia mais espaço para tantas pessoas, a música não chegava nem perto de nossos ouvidos e ficamos vendo um filme mudo nos telões espalhados pela rua. Agora, me diga qual o sentido de ter tantos telões e não ter som neles? Nem o efeito alucinógeno por tabela nos fazia ouvir alguma coisa! O que fizemos? Desistimos e contra o fluxo seguimos para Júlio Prestes. Afinal de contas, ainda tem o Misfits!
            - No caminho de volta passamos perto da Galeria do Rock, e havia alguns caras pendurados como espetos, embalados em plástico filme. Disseram que era a representação do casulo. Bem, não ficamos esperando eles virarem borboletas, pois o negócio era extremamente angustiante!
            - Ei! Preciso de um banheiro! Falou uma das namoradas.
            Paramos perto do Viaduto do Chá, onde havia um show de Hip Hop. Eu e Ariane precisávamos nos divertir depois de tanto stress, começamos a dançar e cantar, na verdade era fácil levantar e baixar os braços, fazer cara de mal e gritar hei, ho, hei, ho! Eu gosto de hip hop! Foi a coisa mais divertida da virada inteira!
            Fomos em direção a Julio Prestes, no caminho havia gente caída por todos os lados, parecia que estávamos em um filme de terror, passando por um monte de zumbis, “grunhindo” algumas coisas que não entendíamos e misturados aos usuários de craque tornavam a paisagem desoladora! Havia muita gente para ver o show! Até que uma das namoradas disse:
- Ei! Preciso ir ao banheiro!
- Agora gatinha?!
            Homens não entendem que mulheres sempre vão precisar de um banheiro, não adianta reclamar! É difícil estar de calça jeans, abaixar, pensar que tem alguém olhando e principalmente não molhar a calça, além de ser incorreto fazer xixi na rua!
            Logo avistamos uma plaquinha “hotel”: banheiro R$ 2,00. Meus olhos e de Ariane brilharam, afinal de contas era um lugar onde poderíamos fazer xixi com dignidade! “Somewhere Over in the raibow!” Quando entramos por aquela porta, um ambiente totalmente sinistro. Pegamos um corredor escuro e vários quartos cheio de usuários de craque e na parte de cima subiam casais para o acasalamento, que devia ser algo escatológico, porque naquele ambiente eu brocharia com certeza! Ficamos apavorados.
- Cara, vamos ser assaltados!
O banheiro era mais tosco que os banheiros químicos, não havia luz e a sensação de fazer xixi com vários usuários de craque do lado do banheiro não é a das melhores!
            - Vai gatinha, vai gatinha!
            - Ai gatinho, não consigo!
            - Vai, vai, vai logo, vamos ser assaltados!
            - Pronto, gatinho, pronto!
Realmente, meu xixi sumiu e eu só queria sair dali. Seria cômico se não fosse trágico! Eu já estava cansada, com sono e com uma tromba de elefante! Falei que queria ir ver o cover dos Beatles, mas todos obstinados pelo Misfits seguiram tentando chegar perto do palco. Achamos um caminho, e o show já havia começado! Sinceramente, estava horrível! Havia alguns andaimes, algumas pessoas subiram neles e começaram a pular, dançar e gritar. Até que um com cara de psicopata começou a querer se jogar. Eu até estava torcendo para que esta fosse sua intenção, pois ficamos com medo dele meter bala lá de cima em todo mundo! Então convivíamos com suas fases suicida e psicopata! Cara, e eu ainda ia ter que voltar para São Roque de trem e por Itapevi! Que furada!
            Já estava tarde, os pés já estavam pedindo descanso e fomos comer mais pastel, e o que já estava sinistro ficou mais ainda. Havia usurários de craques limpando as ruas, eles esfregavam com tanta força o chão, com olhos esbugalhados, para frente para trás, pra frente para trás, e assim eles não limpavam nada, os papéis iam e voltavam na mesma velocidade. Eu não sabia se ria ou se chorava com a cena. Um ofereceu cerveja e o um comprador perguntou:
- Quanto é a latinha?
- A latinha é R$ 4,00
- Caramba, faz por R$ 3,00?
- Não posso, não posso, por favor, não posso, vão brigar comigo, não posso. Disse chorando o vendedor e usuário de craque.
            Ao redor, os aliciadores vigiavam toda aquela merda de exploração!
            E foi assim que finalizamos a nossa virada cultural que revirou minha cabeça e meu estômago.
            Não fui mais a nenhuma, porque traumatizei geral! Talvez este ano eu compareça, mas vou ver coisas mais alternativas.  Infelizmente os problemas como a miséria e as drogas continuarão pelas ruas das cidades e a virada, por ser tão heterogenia, mistura tudo e todos.